Alvo em Movimento

1520 Words
Pedro Carpinetti O cheiro dela. É a única coisa que resta no ar parado do centro do labirinto, agora que ela se foi. Inspiro profundamente, sentindo o aroma doce e frutado, algo como morango silvestre e uma nota sutil de baunilha, invadir os meus pulmões. É um contraste absurdo e violento com o gosto amargo de bile que subiu à minha garganta assim que vi o rosto do meu irmão. Observo ela desaparecer na curva da saída do jardim, mas a sensação da vontade que senti de tocá-la, fazer dela minha, ainda queima na minha pele, uma marca fantasma que parece pulsar. Giulia Mantovani. O nome ecoa na minha cabeça com um peso que não deveria ter. Rolo o nome na língua, testando o sabor, e percebo que ele desce redondo, perigoso. Solto o ar que nem percebi que estava segurando e, finalmente, libero a tensão que travava os meus músculos como cabos de aço prestes a arrebentar. Considerei seriamente arrancar aquele sorriso presunçoso da cara do Fábio e quebrar a mandíbula dele. Irmãozinho. Ele continua o mesmo verme arrogante de cinco anos atrás. A mesma postura de dono do mundo, o mesmo desprezo casual por tudo que não gira em torno do próprio umbigo. Mas algo mudou. Fecho os olhos por um segundo, forçando o meu cérebro analítico a trabalhar, a deixar a emoção de lado e focar nos fatos. A imagem da Giulia sendo arrastada volta à minha mente com uma clareza de alta definição. A expressão no rosto dela, quando ele a puxou... Aquilo foi.. foi a submissão de uma noiva forçada, a resignação de alguém que aceitou o próprio destino. Foi nojo. Eu vi nos olhos dela. Aquele brilho desafiador, inteligente e vivaz que me enfrentou minutos atrás, que me provocou e me fez rir de verdade pela primeira vez em meses, se apagou no instante exato em que a voz do Fábio soou. Ela murchou. - Merdä. - Praguejo em voz baixa, a palavra saindo rouca. Eu deveria estar comemorando. Em tese, acabei de descobrir o ponto fraco do meu inimigo no meu primeiro dia de volta. A noiva troféu dele não o suporta. Isso deveria ser munição pura para a minha vingança. Deveria ser fácil usá-la. Manipulá-la. Transformá-la em uma peça no meu tabuleiro para destruir a imagem de "casal perfeito" e "família sagrada" que o meu pai e o Fábio tanto prezam para os investidores. Mas, por que diabos a imagem dela sendo arrastada me incomoda tanto? Dou um tempo ali, enquanto acalmo os meus pensamentos. Não confio em mim mesmo perto do Fábio agora. Se eu o vir tocando nela com aquela possessividade nojenta de novo, sou capaz de perder cinco anos de planejamento em cinco segundos de violência satisfatória. Quando o silêncio volta a reinar na minha cabeça, decido sair. Caminho devagar, retomando a minha máscara de indiferença. Passo por convidados que bebem champanhe caro e riem de piadas sem graça, ignorando os olhares curiosos das mulheres que tentam adivinhar se o "filho pródigo" voltou para ficar. Para eles, sou apenas fofoca. Para mim, eles são o cenário de um teatro que eu pretendo incendiar. Chego à entrada principal do The Union Club a tempo de ver a movimentação no valet. O sol já está baixo, lançando sombras longas sobre os carros de luxo alinhados. E lá estão eles. O manobrista entrega a chave da SUV preta importada para o Fábio. Ele nem agradece; ele arranca a chave da mão do funcionário e contorna o carro para entrar no banco do motorista, deixando a Giulia parada na calçada. Ele não abre a porta para ela. Um gesto simples. Básico. Algo que qualquer homem com o mínimo de educação — ou que valorize a mulher que tem ao lado — faria. Mas não ele. Para ele, ela é apenas um acessório, como uma bolsa de grife ou um relógio caro. Ela hesita diante da porta fechada e controlo o impulso de ir até ela. Ela respira fundo, e então, ela olha para o céu. Uma súplica. É um pedido mudo por paciência, por força. É um gesto tão pequeno, tão íntimo e tão devastadoramente triste, que sinto como se tivesse levado um soco no diafragma. O ar me falta. - Você não merece isso, princesa. - Sussurro, a frase escapando antes que eu possa segurar. Ela abre a porta e entra. Consigo ver o perfil dela através do vidro escurecido por um breve segundo, antes que o carro arranque, cantando pneus de forma desnecessária e vulgar, deixando para trás apenas a fumaça do escapamento. Ela é inteligente. Ela é intensa. Ela tem fogo nas veias. E ela está presa numa jaula com um animal que não sabe o valor da joia que tem nas mãos. Ele vai destrui-la. Não por planejamento, mas por negligência pura. Ele vai apagar o brilho dela dia após dia, até sobrar apenas a casca da "Sra. Galvão". - Ela pode acabar com ele. - Murmuro para mim mesmo, tentando me convencer de que estou apenas analisando as probabilidades. Tento racionalizar o que sinto. Se ela tiver as ferramentas certas... Se ela souber como... ela destrói ele primeiro. Ela é inteligente e eu posso dar essas ferramentas. A ideia se instala na minha mente com uma clareza assustadora. Posso ser o fósforo que ela precisa para incendiar tudo. Não é sobre salvá-la. Repito isso mentalmente como um mantra. Não sou o herói dessa história. Sou o vilão. Voltei para queimar o legado dos Galvão, para expor as mentiras do meu pai e a incompetência do meu irmão. Mas se eu puder tirar ela das garras do Fábio no processo... Se eu puder fazer ela sorrir daquele jeito atrevido de novo, ou fazê-la corar como ela fez no labirinto... Bom, isso seria um bônus. Um bônus perigoso, com cheiro de morango e olhos que leem a minha alma. - Aí está você. - A voz do Alex me arranca dos meus pensamentos. Viro o rosto devagar e vejo meu amigo se aproximando com dois copos de uísque na mão, a gravata já frouxa e um sorriso de quem já bebeu o suficiente para aguentar a hipocrisia social. - Achei que tinha sido abduzido pelas alienígenas ricas da beneficência ou que tinha decidido se afogar na fonte do jardim. - Ele brinca, estendendo um dos copos para mim. Pego o cristal pesado e viro o líquido âmbar de uma vez, sem nem sentir o sabor, apenas o ardor descendo pela garganta como lava. - Vamos embora! - Aviso com a voz dura, entregando o copo vazio de volta para ele, que me olha espantado. Ele franze a testa, o sorriso vacilando. Ele me conhece há tempo suficiente para ler os sinais. Ele vê a tensão na minha mandíbula, a escuridão nos meus olhos. - Já? A festa estava começando a ficar interessante. Tinha uma loira ali, filha de um senador, que jurou que conhecia o meu primo e... - Agora, Alex. - A minha voz não deixa margem para discussão. Começo a caminhar em direção ao estacionamento VIP, sem esperar por ele. Ouço os passos apressados dele atrás de mim. - Ei! Espera! Caramba, Pedro. - Ele corre para me alcançar, rindo nervosamente. - Qual é a pressa? Encontrou algum fantasma no meio das flores? Paro diante do meu carro esporte. Olho uma última vez para a estrada vazia, para o ponto onde a SUV do meu irmão desapareceu, levando com ela a única coisa real que encontrei neste lugar malditö. - Sim, um fantasma. - Respondo, sentindo a adrenalina correr nas minhas veias. - E também encontrei o futuro, Alex. E preciso saber tudo sobre ele. Entro no carro, ligo o motor e sinto a vibração potente da máquina sob o meu comando. Alex se joga no banco do carona, ajeitando o cinto, parecendo sóbrio de repente diante da minha aura pesada. - O que você vai fazer? - Ele pergunta, cauteloso. - Quero um dossiê completo sobre a família Mantovani na minha mesa amanhã cedo. - Quase ordeno, engatando a marcha com um movimento seco. - Não quero o resumo executivo que todo mundo tem. Quero a sujeira. - Mantovani? - Ele franze o cenho, processando. - Eles estão quebrados, Pedro. Todo mundo sabe disso. É por isso que o seu pai quer cavar um casamento com a herdeira deles. É um contrato comercial glorificado já. Não, se eu puder impedir! - Bem, eu quero saber como. Quero saber as dívidas, os segredos, os vícios... - Faço uma pausa. - E, principalmente, quero tudo sobre a filha. - Giulia, certo? - Giulia! — Confirmo, só para sentir o nome dela de novo na minha boca. - Aonde ela vai, o que ela faz, quem são os amigos, o que ela lê, o que ela come. Tudo. Preciso saber de tudo! - Pedro... O que você está pensando? É a futura mulher do Fábio, e ela não estava nos nossos planos iniciais. Se o seu pai sonhar que você está investigando a futura nora dele... Sorrio abertamente. - Eu sei. É exatamente por isso que estou interessado.
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