Lá estávamos nós, no banheiro nos trocando.
Letícia:
— Quase que eu não participo da aula de hoje.
Sara:
— Por que?
Bruna:
— Ela quase esqueceu o shorts no varal - rimos.
Letícia:
— Não foi minha culpa, ele estava secando e eu me esqueci disso.
Alexa:
— Vamos, antes que a gente leve bronca.
Saimos do banheiro e eu dei de cara com o Caíque que estava em frente ao banheiro feminino.
Caíque:
— Pensei que estavam retocando a maquiagem, pela demora.
Alexa:
— Foi m*l aí, ajudante do professor - ergui a sobrancelha.
Caíque:
— Eu tenho nome sabia? - disse ao pé do meu ouvido.
Alexa:
— Eu não me importo, sabia? - sorri irônica e fui em direção a quadra.
Letícia:
— O que foi aquilo?
Alexa:
— Aquilo o que?
Bruna:
— O clima entre vocês dois, um clima tenso é lógico, mas um clima.
Alexa:
— Não teve clima nenhum, com ou sem tensão.
Sara:
— Ele sabe que você é vizinha dele?
Alexa:
— Não.
Letícia:
— O irmão dele sabe?
Alexa:
— Também não, eu me mudei tem 2 semanas, eles nunca me virão.
Sara:
— Deveria contar pra ele.
Alexa:
— Pra que? Vou chegar nele e dizer " oi sou sua vizinha, quer ser meu amiguinho?"
Bruna:
— Não seria uma má ideia.
Alexa:
— É uma péssima ideia.
Nosso professor estava no meio da quadra, Saulo é o nome dele, ele já namorou a minha mãe, a alguns anos atrás, mas não deram certo, depois disso ele namorou outra mulher e se casou com ela e agora tem duas filhas gemas a cara dele. Mas ele ainda é muito gentil comigo. Ele foi ao enterro da minha mãe, me deu um abraço e como todos os outros, disse palavras na tentativa de me confortar.
Professor Saulo:
— Como vocês já devem ter visto, ou ouvido falar, agora eu tenho um ajudante, o nome dele é caíque, e ele vai ajudar vocês nas aulas de vôlei e de futebol.
O professor montou as equipes, nos mostrou algumas jogas e depois nos deixou jogar. Era minha vez de sacar, fiz do jeito que aprendi e ela foi parar no meio da quadra do outro time.
Caíque:
— Boa jogada, foi leve, com um bom salto.
Olhei pra ele e dei um sorriso forçado e irônico.
Caíque:
— O que eu te fiz, parece que você não gosta muito de mim.
Alexa:
— E sou obrigada a gostar de você?
Caíque:
— Suas amigas parecem gostar batente de mim, não param de olhar.
Alexa:
— Elas se deixam enganar pelo seu rostinho bonito.
Caíque:
— Então acha meu rosto bonito.
Alexa:
— Te acharia intensamente se não passasse de um rosto bonito.
Caíque:
— Não sabe nada sobre mim - disse erguendo a sobrancelha.
Alexa:
— E não estou nenhum pouco interessada em saber.
Deixei ele falando sozinho e fui em direção a bola. Senti o impacto do meu corpo no chão, e senti meu pulso doer muito. Abri os olhos e vi que estava todo mundo em minha volta.
Caíque:
— Abre espaço, abre espaço - se abaixou até onde eu estava - Você está bem?
Alexa:
— Acho que desloquei meu pulso.
Caíque:
— Tudo bem vou te ajudar.
Ele me puxou do chão, me levou até a enfermaria da escola, a enfermeira enfaixou a minha mão, disse que eu deveria tomar um relaxante muscular que iria ajudar na dor.
Sai da enfermaria, Caíque estava sentado do lado de fora.
Caíque:
— Tá melhor?
Levantei o pulso na altura dos seus o olhos e fiz uma cara de irônica.
Caíque:
— De nada.
Alexa:
— Não pedi sua ajuda.
Caíque:
— Não custa me agradecer.
Alexa:
— Da pra você parar de se achar a última bolacha do pacote?
Caíque:
— Da pra você parar de me tratar assim?
Alexa:
— Para de cruzar o meu caminho que eu vou precisar te tratar de nenhuma forma.
Caíque:
— Vai ser um prazer.
Voltei pra sala, arrumei minha bolsa e esperei o sinal bater.
Letícia:
— Você pagou, por 5 segundos.
Alexa:
— Eu sei.
Bruna:
— Isso é normal?
Sara:
— Ela sofreu uma batida com um outro corpo e depois despencou no chão.
O sinal bateu. Saímos da sala e depois passamos pelo portão da escola, Caíque estava encostado no seu cerro de luxo esperando o seu irmão, Carolina também estava do outro lado da rua me esperando.
Letícia:
— Você vai ao médico?
Alexa:
— Pra que?
Bruna:
— Pra ver o seu pulso.
Alexa:
— Não, só se ele não parar de doer, depois a gente se fala, tenho que ir, tenho terapia hoje.
Sara:
— Tchau.
Alexa:
— Tchau.
Atravessei a rua, fui em direção ao carro, coloquei minha bolsa no banco de trás e me sentei no banco do carona.
Carolina:
— O que houve com a sua mão?
Alexa:
— Torci na aula de educação física.
Carolina:
— Quer ir ao médico?
Alexa:
— Não precisa.
Carolina:
— Tudo bem então.
Ela me levou pra terapia, assim que eu entrei assinei a lista da recepção, a médica que cuida de mim, se chama Luciana, faço terapia desde a morte da minha mãe, essa já é a nossa terceira sessão.
Luciana:
— Olha só quem chegou, entra querida.
Entrei e fechei a porta...
Depois da sessão fui em direção ao carro, Carolina estava do lado de fora brincando com o pequeno Benjamim, ela deve ter ido buscar ele enquanto eu estava lá dentro. Fomos embora, o o pequeno foi na cadeirinha no banco de trás, assim que chegamos me troquei, e desci pra comer alguma coisa.
Carolina estava na sala brincando com o Benjamim, enquanto treinava inglês.
Alexa:
— Mil y una funciones de mujer.
Carolina:
— Isso não é inglês, é espanhol.
Alexa:
— É eu sei - ri.
Comi e voltei pro quarto, fui ler uns livros, livros que eram da minha mãe, romances, poemas, poesias, coisas que ela amava, e agora eu também amo.
A noite chegou e eu tomei um banho quente, coloquei meu pijama, vou até a janela pra fechar.
Não era como se eu quisesse olhar, mas de repente, lá estava ele passando só de toalha, ele olhou pra frente e eu me escondi no canto da parede atrás da cortina, fechei com tudo e desci pra jantar.
Depois do jantar escovei os dentes e fui dormir.
Acordo sentindo um carinho na bochecha. Abro olhos e vejo o meu pai, ele sorri.
Pai:
— Desculpa querida, volte a dormir.
Alexa:
— Está tudo bem?
Pai:
— Está sim querida, só volte a dormir, queria te ver antes de sair.
Alexa:
— Bom trabalho, papai.
Pai:
— Te amo - ele me deu um beijo na testa e saiu.
Ouvi o barulho da porta fechando, me virei de lado e voltei a dormir.
Acordo com o som do despertador. Levanto da cama num pulo, minha mãe dava aula numa escola pra crianças pequenas, então eu tinha que estar pronta sempre no horário pra não atrasar ela, e se eu resolver dormir mais 5 minutinhos ela entrava no quarto e dava um grito que parecia sacudir as quatro paredes. Sinto tanta falta dela, que as vezes até me falta ar.
Vou pro banho, depois escovo os dentes e visto a minha roupa, arrumo a minha bolsa conforme as aulas de hoje, geografia, matemática e português, duas de cada. Desci com a minha mochila, meu celular e fones de ouvido na mão.
O café já estava a mesa, Carolina estava esfriando o leite do Benjamim, por mais que ele tenha baba, ela ainda gosta de fazer todas as coisas dele, mas nem sempre é possível, já que ela voltou a estudar.
Me sento e tomo meu café, depois subo pra escovar os dentes, passo em frente a janela e vejo o Caíque, encostado nela olhando pro nada. Escovo os dentes e desço.
Carolina:
— Está pronta?
Alexa:
— Sim.
Carolina:
— Então vamos.
Entrei no carro, coloquei a bolsa no banco de trás, hoje de manhã tirei a faixa da minha mão, que já não está mais doendo tanto e não está inchada.
Carolina:
— Sua mão está melhor?
Alexa:
— Está sim.
Carolina:
— Que bom. Tem problema você me acompanhar até o shopping hoje? Depois da escola?
Alexa:
— Não tem problema nenhum.
Carolina:
— Ah, que bom, eu vi que tinha umas toalhas em promoção então resolvi que quero passar lá pra dar uma olhada.
Alexa:
— Tudo bem.
Carolina:
— Então tá bom, nos vemos depois da aula.
Alexa:
— Combinado. - desci do carro.
Fui até o banco de trás e peguei minha mochila, fui dar tchau para a Carolina que estava com o vidro abaixado.
Carolina:
— Aquele ali não são os nossos vizinhos?
Alexa:
— São sim, Caíque e Thiago.
Carolina:
— Pensei que o mais velho fosse formado já.
Alexa:
— E ele é, mas acho que ele fez m***a da faculdade e agora está aqui pra se redimir de alguma forma.
Carolina:
— Entendi. Até mais tarde querida.
Alexa:
— Até.
Atravesso a rua e vou em direção às meninas.
Bruna:
— Você estudou pra prova de geografia né?
Merda, a prova de geografia.
Sara:
— Tá de brincadeira, é hoje?
Letícia:
— Eu também não estudei.
Alexa:
— Bruna, vai ter que nos salvar nessa.
Bruna:
— Eu juro que eu vou tentar.
Letícia:
— É por isso que eu te amo.
Bruna:
— Pensei que era porque somos primas.
Letícia:
— Ah, por esse motivo também - rimos.
Fomos pra sala de aula, e pra nossa infelicidade, as duas primeiras aulas eram de geografia, a professora pediu pra trocar com o professor de matemática só pra ter certeza que não íamos arrumar um jeito de colar, o que pelo visto me complica muito.
Depois da prova a professora nos deixou sentar juntos.
Bruna:
— Como vocês acham que foram?
Alexa:
— Meu primeiro 0 do ano vem aí, com certeza.
Sara:
— Acho que acertei a metade, que seria 5 que ainda é uma nota vermelha.
Letícia:
— Nem me arrisco a dizer quantas eu acho que acertei.
Bruna:
— Também não sei como fui, não estudei nada do que caiu, isso foi uma pegadinha e tanto.
O sinal bateu, a aula dela acabou. Quando bate o sinal, nós ficamos dentro da sala, enquanto os professores trocam de sala.
No início meu pai queria me por numa escola particular, mas ele viu o quanto as meninas são importantes para mim, quando minha mãe se foi, passei três dias na casa da Letícia, eu não conseguia dormir, comer, parecia que eu só existia, m*l falava, Letícia com todo o seu amor e a sua atenção, fez com que eu voltasse a ser normal, ou pelo menos tentar, já que nunca mais vai ser a mesma coisa, sem minha mãe aqui.
Depois de ter uma aula de matemática o sinal bateu, então fomos para o refeitório, Caíque estava sentado no canto da quadra, quieto mexendo no celular, Thiago estava dentro do refeitório, aonde eu também estava.
Depois do almoço, fizemos o mesmo de sempre, demos uma volta na quadra, andando e falando m*l da vida alheia, é o que sempre fazemos.
Bruna:
— As vezes eu penso que ele é triste por dentro.
Alexa:
— Caíque?
Sara:
— Ele tem tudo o que quer, como ele pode ser triste?
Alexa:
— As vezes o problema está dentro, a falta de algo, ou de alguém.
As meninas me olharam, elas entenderam o que eu quis dizer, hoje não tá sendo um dia fácil, dias assim são muito bons quando acabam, mas hoje eu tenho que sair com a Carolina, já que eu prometi a ela.
O sinal bateu e voltamos pra sala, última aula de matemática e então, depois será de português que hoje está no lugar da de geografia que foi mais cedo. Fomos cada um pro seu lugar. Eu só queria que o sinal batesse logo, eu já estava ficando com fome.
Bruna:
— Gente olha aquilo. - ela apontou pra janela.
Era o Caíque, sem camisa, coisa que eu já tinha visto antes, todo o corpo dele bem definido, isso que eu chamo de disciplina na academia, pelo menos em algum lugar né.
Thiago:
— Vocês e toda as meninas dessa escola babam no meu irmão, ele nem é tudo isso.
Alexa:
— Tá aí uma coisa que concordamos - ri.
O sinal bateu, a última aula acabou, agora é hora de ir embora, ou melhor, agora é hora das compras. Fomos direto pro shopping gastar dinheiro.