Quando voltou a recobrar a consciência, Adeline ronronou baixinho, rolando por uma superfície macia e sentindo o seu corpo envolvido por um cobertor quentinho e grosso. Demorou longos segundos para que ela conseguisse abrir os olhos, olhando ao redor de forma lenta e agradecendo pelo interior do ambiente em que estava fosse um tanto m*l iluminado, onde a única luz que clareava o lugar vinha de uma porta levemente aberta, na extremidade oposta do cômodo.
Adeline sentou na cama rapidamente e arregalou os olhos ao lembrar do que havia acontecido antes de apagar. Ela lembrou do riacho, dos lobos, de Max e Beau... QUE ERAM LOBISOMENS!! Adeline soltou um palavrão e olhou ao redor, tentando descobrir onde estava. O cômodo claramente era um quarto, e a cama espaçosa onde estava deitada tomava boa parte dele. O colchão era bastante macio, assim como o cobertor cinza e quentinho que estava à envolvendo.
A garota arregalou os olhos ao lembrar de que estava completamente nua quando desmaiou, mas agora ela estava vestindo uma camiseta folgada que só podia ser de um dos dois homens, pois tinha o mesmo cheiro que eles. Ela ergueu a camisa um pouquinho e percebeu que estava vestindo uma calcinha, mas não estava de sutiã. Suas bochechas arderem de forma absurda ao perceber que um dos dois tinham à vestido, e que consequentemente a haviam visto completamente nua. Adeline abriu e fechou a boca uma dezena de vezes, sentindo uma onda de vergonha tomar conta de si.
A porta do quarto foi aberta poucos segundos depois, então Max colocou a cabeça para dentro do quarto e à encarou, fazendo Adeline fechar as pernas rapidamente, puxando a camisa larga um pouco para baixo. Ele estava inteiramente vestido dessa fez, com um jeans surrado e uma camisa branca e sem mangas, além de estar descalço e com o cabelo preto e levemente cacheado amarrado em um coque meio desajeitado e sexy.
— Oi. Você finalmente acordou. — Ele disse, lançando-lhe um pequeno sorriso e abrindo a porta do quarto por completo, fazendo a claridade do lado de fora entrar e iluminar o interior do cômodo. O quarto realmente só conseguia acomodar a cama e um conjunto de prateleiras logo acima da cabeceira, além de também haver uma porta na parede do lado esquerdo da cama, que só podia ser de um banho.
— O-oi. O que eu tô fazendo aqui? — Adeline perguntou, erguendo uma das sobrancelhas. Ela deixou subtendido na frase todo o resto do que queria dizer. Por que me seguiram? Por que me trouxeram até aqui? O que querem comigo?
— Vamos explicar para você. Beau tá esperando lá fora. Por que você não usa o banheiro? Pode ficar a vontade. Sua mochila está logo ao lado da cama. — Disse ele, então Adeline confirmou levemente com a cabeça, vendo-o abrir um pequeno sorriso e sair do quarto novamente.
A garota levantou da cama em passos cambaleantes assim que estava sozinha, percebendo que a camisa era tão grande que ia até os seus joelhos, além de ser bastante cheirosa, impregnada com cheiro de amaciante floral, mas também tinha um cheiro secundário meio amadeirado e gostoso. Ela caminhou até aquela porta estreita — que ficava à dois passos de distância da cama —, antes de abri-la e adentrar em um banheiro pequeno e organizado, revestido com lajotas de cerâmica branca e com um box dividindo o pequeno cômodo ao meio.
Adeline olhou no espelho preso na parede, arregalando levemente os olhos ao perceber o quanto seu cabelo estava assanhado, com as mechas ruivas desorganizadas e embaraçadas. Havia um pente em cima do pequeno balcão da pia, então ela o pegou rapidamente e começou a pentear os fios com agilidade, mesmo que isso puxasse as mechas e causasse um pouco de dor no seu couro cabeludo. Depois, Adeline pegou uma escova de dentes que ainda estava no lacre — que pressupôs ser para ela — e começou a escovar os dentes com pressa, mas tomando cuidado para não machucar suas gengivas. Não demorou mais do que alguns minutos até que estivesse terminado de usar o banheiro, então Adeline voltou para o quarto e trocou de roupas rapidamente, tirando a camisa larga e vestindo um vestido curto e preto — não se esquecendo do sutiã, obviamente.
Adeline estava com um pouquinho de vergonha pelo que havia acontecido, além de ainda não acreditar que eles dois eram lobisomens. Ela mesmo era uma meia-vampira, mas estar tão próxima do sobrenatural, algo do qual se esquivou por tanto tempo, era um tanto estranho. A ruiva começou a caminhar em direção à porta do quarto, que após abri-la, percebeu que o quarto não era apenas mais um cômodo que levaria para o resto da casa, mas sim que ele era o único quarto de um pequeno e fofo chalé, e assim que deu um passo para fora dele, seus pés encontraram um gramado bem cuidado, que definitivamente não era artificial nem nada do tipo. Adeline olhou por cima do ombro e percebeu que o chalé era pintado de azul claro. Ele não era o único, havendo também outros dois chalés do lado esquerdo.
As pequenas construções ficavam no topo de uma linda colina gramada, que se sobressaia vários metros acima da linha das árvores grandes e frondosas. O lugar era lindo e calmo, sem que houvesse nenhuma estrada aparente em nenhum dos lados da colina. Adeline encontrou um dos dois rapazes à uns trinta metros colina à baixo, embora não conseguisse saber qual deles era, pois o homem estava de costas. ele estava carregando troncos enormes de árvore e os colocando em uma pilha bem organizada, fazendo isso sem pressa alguma. O cabelo dele estava solto e um tanto assanhado e sua pele parecia absorver os raios de sol que ultrapassam a massa meio cinzenta de nuvens que salpicavam o céu.
— Hey.— Uma voz masculina e grave disse, fazendo Adeline dar um pulinho para o lado devido ao susto, olhando por cima do ombro a tempo de ver Max saindo do chalé ao lado do em que ela estava. O homem enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans e se aproximou, encarando-a atentamente e farejando o ar daquela forma como fazia na oficina no dia anterior. Adeline constatou que eles definitivamente não estavam com sinusite ou qualquer coisa do tipo, mas sim sentindo algum cheiro específico com seus olfatos absurdamente apurados.
— O-oi. Não sei porque vocês me seguiram, mas eu não tenho nada que possam querer. — Disse, engolindo em seco e tirando uma mecha ruiva que estava caindo sobre os seus olhos. Ela havia oferecido dinheiro para os dois e tentado pagar pelo concerto do carro, mas se não era dinheiro o que queriam, o que diabos era?
— Desculpa por aparecermos daquela forma, princesa, mas decidimos que não poderíamos deixar você ir embora sem mais nem menos. — Ele disse, dando alguns passos para mais perto até que tivesse de frente para Adeline, antes de pegar a sua mão e levá-la até os lábios, dando o beijo demorado sobre as costas meio sardentos da sua mão, que desaparecia por completo contra a de Max, que era absurdamente grande. Ele tocou gentilmente seus dedos com os dele, que eram longos e meio nodosos, além de terem alguns calos na palma. O toque fez Adeline arquejar, sentindo um arrepio cruzar seu corpo.
— É por causa do dinheiro? Posso pagar vocês. só... Preciso ir embora. Não precisavam terem virado lobos e me procurarem pela floresta. — Adeline revirou os olhos, ainda sentindo aquela mão grande contra a sua. Max arregalou levemente os olhos e abriu um pequeno sorriso, já começando a puxa-la colina a baixo, em direção a onde seu irmão estava.
— Estou surpreso por você não estar surtando com tudo isso. O lance dos lobos e tal. — Ele disse, olhando para baixo para conseguir encara-la.
— Eu estou... Um pouco familiarizada com algumas coisas sobrenaturais. — Respondeu, dando de ombros. Max assentiu levemente com a cabeça e continuou a conduzindo em direção a Beau, que havia parado de fazer aquela pilha de troncos de árvores e ficou esperando eles dois se aproximarem, alternando o olhar entre Adeline e o irmão.
Não demorou mais do que um minuto para chegarem até Beau, que deu um passo na direção de Adeline e tocou gentilmente uma das mechas do seu cabelo ruivo, também abrindo um pequeno sorriso, embora o seu fosse tímido e retraído.
— Bom... Agora podem me explicar porquê estou aqui? E porque vocês me seguiram? Além de serem lobisomens! — Disse, alternando o olhar entre eles dois e sentindo aqueles olhos escuros encararem de volta. Beau parecia um pouquinho surpreso por Adeline estar lidando muito bem com o lance dos lobisomens, assim como aconteceu com Max.
— Será que podemos sentar alí? — Beau inclinou levemente a cabeça para o lado, indicando para o banco alguns metros abaixo na colina, na linha das árvores. Adeline confirmou com a cabeça e olhou rapidamente para o céu, e embora não soubesse identificar a hora através da posição do sol, chutou que ainda deveria ser de manhã.
Os três caminharam o banco de madeira, que ficava sob a sombra de um frondoso pinheiro. Adeline sentou no meio, então Max sentou do seu lado esquerdo e Beau do lado direito.
— Então....? — Perguntou, tentando ignorar a pulsação rápida por causa da proximidade. Eles eram tão grandes e estavam tão perto que Adeline parecia uma anãozinha ali no meio, e olha que ela não era nem tão baixa assim.
— como você reparou, somos lobisomens. Nascemos assim. As coisas em uma matilha são bem... Digamos que tem uma política diferente. Nós somos os alfas desde que nosso pai morreu à quase dez anos atrás. — Max começou a explicar de forma calma, observando a expressão de Adeline com calma.
— você nos encontrou no posto de gasolina por mero acaso. — Beau prosseguiu, dando de ombros. — aquele lugar era do nosso pai, mas como é um auto-posto, só precisamos dar uma passadinha de tempos em tempos para saber se estar tudo bem.
— E por que estão longe da matilha de vocês? São muitos? — Adeline perguntou.
— Sim, somos dezenas. Mas se somarmos com os que não vivem na matilha em si, são centenas. A gente gosta de passar alguns dias fora de tempo em tempos. — Max respondeu, então a ruiva confirmou com um breve aceno, tentando imaginar centenas de lobisomens reunidos em um só lugar.
— Você deve tá se perguntando porquê nós à seguimos ontem a noite. Eu e Max conversamos por um tempo e decidimos que queríamos falar com você de novo para explicar a situação. — o irmão da direita disse, antes de agarrar a barra da sua camisa e puxa-la para cima, expondo seu peitoral largo e definido, revestido por aquela pele escura e linda. Ele apontou diretamente para a tatuagem do peito, que estava levemente apagada agora, apesar de Adeline lembrar perfeitamente a ter visto brilhar na noite anterior. — Nós decidimos segui-la por causa disso, princesa.
— E o que é isso? — Perguntou, sem entender nada, enquanto alternava o olhar entre eles dois.
— não tínhamos isso até você entrar naquela oficina, Adeline. Quando você nos perguntou sobre, naquela hora, foi quando enfim notamos os símbolos. — Max explicou, apoiando os cotovelos nos joelhos e se inclinando um pouquinho para a frente, tão próximo que a garota conseguia sentir seu hálito mentolado.
— E o que significa isso?
— É um símbolo de predestinação. Significa que encontramos a nossa parceira. — Beau disse, encarando os olhos esverdeados de Adeline com uma intensidade absurda. As palavras demoraram alguns segundos para se infiltrar no seu cérebro e fazer sentindo, embora Adeline tivesse quase certeza de que provavelmente não ouviu direito. Como assim predestinação? E que história era essa de parceiros?
— P-podem me explicar o que é isso?
— Você já assistiu crepúsculo? É quase como o que os lobisomens esquisitos do filme chamam de imprinting. — Max disse, dando de ombros e abrindo um sorrisinho malicioso. Suas palavras enviaram um arrepio caloroso pelo corpo de Adeline, que ainda não conseguia acreditar naquilo tudo. Ela alternou o olhar entre os dois irmãos, lembrando subitamente de que os dois possuíam a mesma marca.
— E-entāo vocês tão querendo dizer que... E-eu, sou destinada à vocês? Aos dois ao mesmo tempo? — Ela gaguejou, sentindo um calor esquisito se instalar entre as suas pernas com o simples pensamento. O sorriso de Max ficou ainda maior, enquanto Beau assentiu levemente com a cabeça, tocando gentilmente os dedos pálidos de Adeline.
— Isso mesmo, princesa. Destinada à nós. — Disse ele, esfregando o polegar na palma da mão de Adeline em movimentos circulares e provocadores.