Depois de seguir pela autoestrada que seguia para o leste, demorou um bom tempo para que Adeline percebesse que estava sendo seguida. O deserto ficou de vez para trás, dando lugar à uma imensa floresta de caducifólias enormes e bonitas. Adeline percebeu que até o asfalto era praticamente novinho em folha, sem rachaduras, sem estar coberto de terra e sem as linhas de sinalização apagadas, provavelmente porque a copa das enormes árvores o protegia da ação do sol durante boa parte do tempo.
O lugar era bastante sossegado, além de que era praticamente impossível cruzar com outro carro. O único problema era que ao contrário da interestadual que cruzava o deserto, aquela estrada era bastante sinuosa, com curvas bruscas e declives que obrigavam o motorista à diminuir a velocidade caso não quisesse se estatelar contra uma árvore. A noite caiu de forma tão rápida que quando se deu conta, havia um imenso céu estrelado sobre ela, apesar da forte luz da lua e o brilho das estrelas deixar a noite bastante clara, que, junto com sua visão sobrehumana, fazia com que ela enxergasse sem problema algum.
Já passavam das oito horas quando Adeline chegou até uma ponte de madeira, e sob ela passava um riacho que quase não tinha correnteza. Ele deveria ter no máximo uns dois metros de largura e uns cinquenta centímetros de profundamente. Adeline lembrou que já havia passado um bom tempo desde que havia tomado um banho pela última vez, e caso não aproveitasse a oportunidade, talvez não tivesse outra tão cedo. O problema era que ela definitivamente não ia tomar banho ali naquela ponte, onde um carro poderia passar à qualquer momento — A probabilidade era mínima, mas quando se tratava em ter azar, Adeline e Onyx eram expert's nisso.
A garota deu ré no carro e procurou alguma estrada secundária, encontrando uma do lado direito da rua asfaltada. A entrada de terra era tão estreita que m*l dava para o carro passar, mas Adeline seguiu por ela mesmo assim,chegando até uma pequena clareira circular que ficava ao lado do riacho, provavelmente uns trinta metros abaixo de onde a ponte ficava.
Adeline desligou o carro e apreciou o silêncio calmo da floresta, dizendo a si mesma que aquele era um bom lugar para passar a noite, pois como ainda faltava muito para chegar até o fim da floresta, ela teria que estacionar na estrada para tirar um cochilo, e caso alguém tivesse fazendo aquelas inúmeras curvas desatento, poderia bater na caminhonete de Onyx. Ela pegou a sua mochila e procurou rapidamente uma toalha e uma muda de roupas leves dentro dela, deixando-as em uma pilha no banco. Adeline havia colocado alguns ítens de higiene pessoal dentro de uma pequena pochete, e foi apenas a pequena bolsa que ela pegou ao sair de dentro do carro, sendo recebida pela noite um tanto quente do lado de fora da caminhonete, o que a deixou bastante surpresa, pois no deserto as noites eram absurdamente gélidas.
Depois de caminhar até a margem do riacho, Adeline o observou por alguns instantes, antes de começar a tirar as suas roupas sem muita cerimônia e colocá-las em uma pilha desorganizada no chão, além de retirar o elástico que estava prendendo o seu cabelo em um r**o de cavalo, fazendo-o cair em uma cascata de mechas avermelhadas até sua cintura. Após dar um passo para dentro do riacho, ela percebeu que a água era um pouquinho morna também, então deu mais alguns passos para dentro até chegar no ponto mais profundo, que dava quase no seu umbigo.
Adeline mergulhou e soltou um gritinho quando a água envolveu seu corpo por completo, antes de voltar a ficar de pé, erguendo as mãos para tirar algumas mechas do cabelo que estavam caindo sobre o seu rosto. A água podia até ser um pouco morna, mas bastava ficar fora dela por alguns instantes para que ela se tornasse um tanto fria, mas não de uma maneira insuportável. Adeline caminhou até a margem do lago e pegou o pequeno frasco shampoo que havia dentro da sua pochete, antes de colocar um pouco nas mãos e começar a massagear o cabelo, quase soltando um grunhido de alívio por enfim se livrar daquela sensação de oleosidade que estava sentindo nos fios. A ruiva também pegou um sabonete e começou a passar pelo seu corpo de forma tranquila, completamente entretida em tomar um banho bem demorado para compensar as várias horas que havia passado sem ter feito isso.
Demorou mais alguns minutos para que Adeline conseguisse ouvir um leve farfalhar de folhas secas, como se algo estivesse tentando pisar o mais silenciosamente possível por cima delas. Ela travou no meio do movimento de torcer o cabelo limpo para tirar a umidade, sentindo um calafrio subir pela sua coluna. Seu primeiro instinto foi cruzar os braços para cobrir os s***s desnudos, olhando para a linha das árvores de forma demorada, tentando ver alguma coisa.
Um silêncio meio estranho tomou conta do ar e fez Adeline morder o lábio, ouvindo apenas o som quase inaudível do riacho e a sua respiração tensa ecoar pela clareira. O carro estava à uns quinze metros de distância, e o olhar da ruiva recaiu sobre ele, embora ainda não estivesse com tanto medo para sair correndo dali. Talvez fosse apenas o vento, não é?
Adeline continuou observando a floresta de forma atenta, dando um passo incerto para fora do riacho, de modo que a água estivesse batendo agora pouco acima dos seus joelhos. À princípio, ela achou que poderia ser apenas coisas da sua imaginação, mas após dar outro passo incerto para fora do riacho, Adeline conseguiu capturar um vulto enorme e quadrúpede com sua visão periférica, fazendo-a olhar por cima do ombro rapidamente, engolindo em seco de tanto nervosismo.
Seus olhos se fixaram diretamente em um lobo gigantesco que estava andando de forma sorrateira entre as árvores, com seus olhos vermelhos focados diretamente na garota. Outro vulto surgiu entre as árvores, caminhando à um passo logo atrás do primeiro, com os mesmos olhos vermelhos e o mesmo tamanho. Adeline observou, completamente atordoada, enquanto os dois lobos enormes e pretos saiam do limite das árvores e entravam na clareira em passos silenciosos, ainda sem desgrudar os olhos de Adeline. Eles deveriam ser da altura dela quando estavam sobre as quatro patas, mas Adeline não precisava ser uma gênia para saber o que eles eram, até porque sempre que sabia alguma coisa à mais sobre o mundo sobrenatural, seu irmão gêmeo corria para lhe contar, compartilhando tudo que sabia sobre vampiros, ghouls e lobisomens. A garota ruiva tentou se lembrar de tudo que sabia sobre essa última espécie:
viviam por MUUUUITO tempo, mas não eram imortais como os vampiros; poderiam facilmente se passar por humanos; já nasciam como lobos, pois era impossível se tornar um deles; eram incrivelmente territoriais; tinham três formas distintas, a humana, a de lobo e uma que era um meio termo entre essas duas.
Adeline observou os dois lobos se aproximaram, então correu para fora do riacho e pegou a toalha que estava em cima da sua pilha de roupas, cobrindo o seu corpo com ele rapidamente ao lembrar que não eram apenas lobos que estavam vendo seu corpo pálido e sardento completamente nu. Ela olhou para o carro, tentando saber se teria tempo para correr até lá ou não. Nesse momento ela queria muito ter treinado o lance da super velocidade ou a controlar suas presas, pois sem isso, ela estava alí completamente indefesa, sentindo o seu coração martelar sem parar.
O lobo da esquerda soltou um rosnado baixinho, fazendo Adeline ficar petrificada no lugar, segurando a toalha aberta contra seu corpo. Ela observou com os olhos arregalados, enquanto os músculos dos lobos começaram a ficar tensionados, ondulando sob a pelagem escura. Adeline não conseguia desgrudar os olhos enquanto eles mudavam de forma, ficando sobre as patas traseiras e mudando por completo a fisionomia dos seus corpos. As patas dianteiras viraram braços musculosos, as traseiras se tornaram pernas longas e grossas, o rosto deixou de ser animalesco e se tornou Humano, os pelos pretos se retraíram e deixaram para trás apenas uma pele lisa... Tudo isso aconteceu em menos de cinco segundos, e quando se deu conta, Max e Beau estavam alí na sua frente, completamente humanos novamente, embora os olhos fossem vermelhos como os dos lobos. O olhar de Adeline estava dividido entre encarar um e o outro, que estavam lado a lado, analisando-a com intensidade. Seus cabelos longos estavam levemente assanhados, e enquanto descia o olhar pelo peitoral nu deles, ela percebeu que aquela tatuagem dourada estava brilhando levemente, fazendo-a arregalar os olhos, mas o choque de verdade só veio quando ela constatou que os dois estavam completamente pelados alí na sua frente, exibindo os seus corpos musculosos e viris.
— E-eu... O-o que...— Ela começou, sentindo a sua mente entrar em pane por completo. Ela encarou os olhos dos dois uma vez, sabendo quem era quem porquê Beau tinha aquele pequena cicatriz no nariz. O seu corpo ficou leve de repente, e mesmo que ainda estivesse atordoada, Adeline previu que iria cair de cara no chão um milissegundo antes disso acontecer.
Braços musculosos e quentes a agarrarem antes que ela atingisse a margem do riacho, erguendo-a do chão como se ela não pesasse nada. Adeline tentou abrir os olhos, mas estava tonta demais para isso, embora conseguisse sentir a toalha ser enrolada no seu corpo desnudo com agilidade por outro par de mãos que definitivamente não eram aquelas que à estavam segurando. Sem conseguir se conter, ela encolheu o corpo e esfregou a bochecha contra algo quente, duro e macio que estava roçando no seu rosto, pois ela estava com frio e dalí emanava um calor gostoso, assim como um cheiro bom.
Quando enfim conseguiu abrir os olhos, ela percebeu que estava com a bochecha pressionada contra um peitoral marrom, à centímetros de onde aquela curiosa tatuagem estava brilhando. Meio zonza, ela olhou para cima e percebeu que estava nos braços de Beau, que estava caminhando em passos silenciosos em direção à algum lugar, e assim que percebeu que Adeline havia recuperado a consciência por alguns instantes, ele olhou para baixo e abriu um pequeno sorriso. Não era um sorriso malicioso ou qualquer coisa assim, mas sim um um sorriso delicado.
Adeline girou levemente o rosto — O que gerou uma onda de tontura — e viu que Max estava caminhando ao lado deles. Sua mente ainda estava meio turva, fazendo-a soltar um grunhido de confusão, ainda sem acreditar no que estava acontecendo.
— V-vocês estão... Pelados. — Murmurou, amaldiçoando a si mesma por não ter conseguido ver absolutamente nada, pois sua mente entrou em pane antes que conseguisse fazer isso. Adeline corou de forma absurda com o pensamento, escondendo o rosto contra o peitoral musculoso, escuro e cheio de cicatrizes de Beau. Ela deveria estar esperneando e gritando sem parar, não é? Pois estava sendo praticamente sequestrada por uma dupla de lobisomens PELADOS, que à estavam levando para algum lugar desconhecido, mas além de estar cansada e atordoada, algo o fundo da sua mente dizia para ela não fazer nada disso, e que ficaria tudo bem. Ela sentiu um leve formigar na sua nuca, como havia acontecido na oficina.
— Não tem como preservar as roupas quendo nos transformamos, princesa. — Max disse, rindo baixinho. Adeline não o conhecia direito, mas ele parecia ser aquele tipo de amigo provocador que deveria levar uns tabefes de vez em quando.
— P-para onde estão me levando? — Perguntou, encarando o rosto de Beau, que tinha um pouco mais de cicatrizes do que o de Max, mas que era tão lindo que arrancaria suspiros por onde quer que passasse.
— vamos explicar tudo para você logo logo, Adeline. — respondeu ele, então ela confirmou levemente com a cabeça, sentindo a sua visão ficar turva novamente.
— O-onyx...— Ela sussurrou o nome do irmão antes de perder a consciência, lembrando-se subitamente que talvez ele estivesse em perigo e precisando urgentemente de ajuda. Adeline enterrou o nariz contra o peitoral largo e quente de Beau, permitindo que a escuridão à reivindicasse novamente, pois estava cansada e zonza demais para lutar contra ela, pelo menos por enquanto.