Capítulo 1
Rhae
Achei, por muito tempo, que minha vida não teria um caminho.
Não um de verdade.
Não daqueles que as pessoas contam com orgulho, como se tudo sempre tivesse feito sentido desde o começo.
Depois da morte dos meus pais, quando eu tinha apenas doze anos, tudo virou um grande espaço vazio. Um silêncio pesado, sufocante, que me acompanhava para todos os lugares. Eles morreram de repente, rápido demais para que eu entendesse, lento demais para que a dor não se instalasse. No começo, eu ainda chamava por eles à noite. Depois, parei de chamar. Depois disso… parei de falar.
Ninguém queria adotar uma criança com um passado quebrado. Uma menina que havia visto demais, sentido demais. Uma menina que, além de tudo, não dizia uma palavra sequer.
Passei anos observando o mundo em silêncio. As pessoas falavam comigo como se eu fosse frágil demais para ouvir verdades, ou como se eu fosse invisível. Às vezes, eu até preferia ser. O silêncio virou meu escudo, meu castigo e minha companhia.
Só voltei a falar aos quinze anos, depois de muito tempo indo ao psicólogo. Não foi de uma vez. Primeiro, foram palavras soltas. Depois, frases curtas. Até que, um dia, consegui dizer uma frase inteira sem sentir o peito queimar. Ninguém comemorou. Mas, por dentro, eu senti como se estivesse reaprendendo a respirar.
Mesmo assim, isso não mudou meu destino.
Eu sabia que não seria adotada. Crianças como eu não são escolhas. Casais querem bebês recém-nascidos, crianças fáceis de moldar, histórias limpas, sem rachaduras. Eu era velha demais, marcada demais, silenciosa demais.
Sempre achei que sairia da instituição apenas quando completasse dezoito anos. Que teria que trabalhar sem parar, aceitar qualquer coisa, sobreviver como desse. Não era um sonho, era apenas o que restava.
Mas tudo começou a mudar em um hospital.
Eu estava em uma consulta de rotina, caminhando pelo corredor estreito, segurando meus exames com cuidado excessivo, quando esbarrei em alguém. Os papéis escorregaram das minhas mãos e se espalharam pelo chão branco.
— Me desculpe — murmurei, abaixando rapidamente.
Foi então que a vi.
Ela tinha cabelos negros, longos, tão escuros que pareciam absorver a luz ao redor. A pele era pálida como porcelana, lisa demais, perfeita demais. Quando levantei os olhos, encontrei os dela.
Carmesim.
Não era um vermelho comum. Era profundo, intenso, quase hipnotizante.
Ela se abaixou com movimentos suaves e pegou meus exames antes de me devolvê-los. Mas, antes disso, seus olhos passaram rapidamente pelos papéis. Rápidos demais. Atentos demais. Um brilho estranho atravessou seu olhar por um breve segundo, algo que fez meu estômago se contrair sem explicação.
Só então ela me entregou os exames e olhou para o crachá da instituição preso à minha blusa.
— Você ainda não foi adotada nessa idade? — perguntou, a voz baixa e suave. — Desculpe a intromissão… mas você parece ser uma boa menina.
Forçei um sorriso educado. Um gesto automático, aprendido com o tempo.
— É que normalmente os casais desejam bebês recém-nascidos — respondi. — Crianças pequenas.
Ela me observava como se estivesse me lendo por dentro, e isso me causava um leve arrepio.
— Ainda deseja ser adotada? Ter uma família?
Seu olhar ficou fixo em mim. Senti um calafrio percorrer minha espinha, embora tentasse ignorar. Talvez fosse apenas minha imaginação.
— Eu sei que isso não vai acontecer — respondi, arrumando os papéis com cuidado. — Já perdi as esperanças. Quem iria querer uma despesa a mais?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Então sorriu. Um sorriso calmo. Antigo. Quase triste.
— Entendo você — disse. — Mas não perca as esperanças. Milagres acontecem, pequena criança.
Quando ela tocou meu rosto, foi apenas por um instante. Mas sua mão estava fria. Estranhamente fria.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela passou por mim e desapareceu pelo corredor, como se nunca tivesse estado ali.
Fiquei parada por alguns segundos, tentando entender o que havia acabado de acontecer.
Que mulher estranha.
E, ainda assim… havia algo nela que parecia irreal. Bonita demais. Intocável demais. Como uma obra de arte antiga.
Parecia uma modelo.
Balancei a cabeça, afastando o pensamento, e segui meu caminho de volta para a instituição.
O resto do dia passou como qualquer outro. Limpei salas, organizei materiais, cuidei das crianças menores. Elas sempre se agarravam a mim como se eu fosse algo seguro. Talvez porque eu entendesse o silêncio delas melhor do que qualquer adulto.
Mas minha mente não parava de voltar para aqueles olhos vermelhos.
Daqui a dez dias, eu faria dezoito anos. Dez dias até deixar aquele lugar para sempre. Dez dias até dizer adeus às crianças que eu ajudava a cuidar, ao quarto pequeno, às rotinas repetitivas que, de alguma forma, me davam estabilidade.
Quando terminei minhas tarefas, fui para o meu quarto e peguei novamente os exames.
Sangue D.
Tipo raro.
Saúde boa.
Níveis estáveis.
Tudo certo.
Suspirei e me deitei.
Tenho que dormir. Amanhã é um novo dia.
Fui acordada por alguém me chamando. Abri os olhos lentamente e reconheci a voz de Maria, a cuidadora da instituição.
— Dormi demais? — perguntei, ainda sonolenta. O céu parecia escuro demais para ser manhã.
— Não exatamente — respondeu. — São cinco da manhã.
Sentei na cama, confusa.
— Tem adotantes importantes aqui — continuou ela. — Eles contribuem bastante com a instituição e só têm esse horário livre. Querem adotar uma garota mais velha. Boazinha.
Meu coração disparou.
— Se arrume rápido — disse ela. — Prepare suas malas. Essa é sua única chance de ter uma família.
Engoli em seco.
— Eles vão viajar hoje mesmo — completou. — São ricos, Rhae. Provavelmente não a querem como filha…
Meu estômago afundou.
— Talvez estejam procurando uma esposa para um dos filhos — disse em tom prático. — Mas é melhor do que sair daqui sem nada. Trabalhar até se matar sem apoio nenhum.
Olhei para ela, incrédula.
— Estão me vendendo, então?
— Não exatamente — respondeu. — Você será livre aos dezoito. Será uma adulta. Mas seja inteligente. Eles têm dinheiro, influência. Podem ajudar você a crescer. E você teria uma família de verdade.
Ela se virou para sair, mas parou na porta.
— Se em quinze minutos você não estiver lá embaixo, saberemos sua escolha.
Quando a porta se fechou, fiquei sentada na cama, encarando o nada.
Não era isso que eu queria.
Mas talvez fosse a única chance que eu teria de não desaparecer do mundo.