Capítulo 2

1201 Words
Rhae Apenas preparo minhas malas e desço as escadas. O tecido da bolsa roça contra minhas mãos enquanto caminho, e cada degrau parece mais pesado que o anterior. O prédio ainda está silencioso demais para aquele horário. As paredes claras, os corredores longos, tudo parece observar minha decisão sem dizer nada. Não custa tentar essa oportunidade. Maria não iria me incentivar se fosse algo realmente r**m. Ela me viu crescer aqui dentro. Me viu quando eu não falava, quando eu chorava escondida, quando eu fingia ser forte para não quebrar de vez. Ela não me jogaria aos lobos… eu espero. E, se for r**m demais, eu posso simplesmente fugir. Daqui a nove dias, serei maior de idade. Esse pensamento deveria me dar coragem, mas só faz meu estômago se contorcer. Quando chego ao escritório do diretor, paro por um segundo antes de entrar. Algo no ar está errado. O ambiente parece mais frio, mais pesado, como se o lugar estivesse… prendendo a respiração. Abro a porta. E então eu a vejo. A mesma mulher do hospital. Os cabelos negros estão perfeitamente arrumados, caindo como uma cascata escura por seus ombros. O vestido é elegante, longo, de um tecido tão refinado que parece caro demais para aquele lugar. Seus olhos carmesim encontram os meus quase imediatamente e, por um instante, sinto como se tudo ao meu redor desaparecesse. Ao lado dela está um homem. Ele é alto, imponente, com cabelos castanho-escuros que caem até a altura do maxilar. Seus olhos são escuros, profundos, e não há suavidade neles. Ele não sorri. Não parece precisar disso. A presença dele ocupa o espaço de forma silenciosa e esmagadora. O diretor está pálido. Muito pálido. Ele evita olhar diretamente para o casal, limpa o suor da testa com um lenço e força um sorriso nervoso quando me vê. — Por favor… — ele diz, a voz levemente trêmula. — Sente-se, jovem Rhae. Vou deixá-los a sós para conversarem. A escolha é inteiramente sua. Antes que eu possa responder, ele se levanta e praticamente foge do escritório, fechando a porta atrás de si. Por que ele está com tanto medo? Engulo em seco. Apenas me sento na cadeira do diretor, mantendo as costas eretas, tentando parecer mais confiante do que me sinto. Meus olhos analisam o casal com cuidado. Os anéis chamam minha atenção imediatamente: ouro escuro, pesado, antigo, com um diamante médio no centro de cada um. Não são alianças comuns. A mulher é a primeira a falar. — Permita-me começar com as devidas formalidades — diz ela, cruzando as mãos com elegância. Sua voz é suave, controlada, mas há algo por baixo… algo afiado. — Meu nome é Valéria Vespermont. Ela inclina levemente a cabeça em minha direção, um gesto educado, quase nobre. — E este é meu marido, Cassius Vespermont. Cassius me encara como se estivesse avaliando algo valioso. Não algo frágil. Algo raro. — Não estamos aqui por acaso — ele diz finalmente, a voz grave, firme, sem pressa. — Cada passo que nos trouxe até você foi calculado. Respiro fundo. — Vocês podem ir direto ao ponto — digo, tentando manter o tom firme, apesar do nó no meu peito. — O que exatamente querem comigo? Valéria sorri. Mas não é um sorriso gentil. É o tipo de sorriso que alguém dá quando sabe mais do que deveria. — Gosto de você, Rhae — ela diz com naturalidade. — Desde o momento em que a vi no hospital. Há algo… diferente em você. Algo que não se encontra facilmente. Cassius continua: — minha esposa não costuma se interessar por humanos comuns — diz ele. — Quando isso acontece, significa que há um motivo. Valéria lança um olhar breve para ele, quase divertido. — Nós vimos seus exames — ela continua. — Analisamos cada detalhe. Seu sangue, sua saúde, sua estrutura genética… você é perfeita para nossa família. Meu coração acelera. — Família? — repito, desconfiada. — Temos quatro jovens solteiros sob nossa proteção — Cassius diz, com frieza calculada. — Homens poderosos, antigos à sua maneira, cada um com personalidade própria. Caso deseje, poderá se unir a um deles. Valéria inclina-se levemente para frente. — Mas — ela acrescenta, com delicadeza perigosa — se não desejar casamento, ainda assim há espaço para você entre nós. Como filha. Como parte legítima da casa Vespermont. — Porém… — Cassius interrompe. — Isso envolve consequências. — Que tipo de consequências? — pergunto, sentindo um arrepio percorrer minha espinha. Cassius me observa por alguns segundos antes de responder. — Você conhece os boatos — diz ele. — Os sussurros sobre aqueles que ocupam o topo da sociedade. Os que controlam riqueza, influência e poder por gerações. Penso imediatamente nos rumores. Vampiros. — Se estiverem falando disso… — começo, tentando manter a sanidade. — Vampiros não existem. São apenas histórias. Valéria se levanta. Quando piscam meus olhos, ela não está mais à minha frente. Sinto uma mão fria tocar meu ombro. Meu corpo inteiro trava. Viro-me rapidamente — não há ninguém atrás de mim. Quando me viro de volta, Valéria está ali novamente, de pé, tão próxima que posso sentir seu perfume. Seus olhos agora brilham em um vermelho intenso. Presas longas descem lentamente de seus lábios. Meu coração dispara violentamente. Cassius permanece sentado, observando tudo com calma absoluta. — Existem, sim — Valéria diz suavemente. — E você está diante deles. Meu instinto grita para correr. Mas algo me prende ao lugar. — Não vamos prolongar isso — Cassius diz, levantando-se. Sua presença se torna ainda mais esmagadora. — Seu tipo sanguíneo é extremamente raro. Sangue D. Uma anomalia genética. — Pessoas como você podem se tornar como nós — Valéria continua. — Sem morrer. Sem perder o controle. Sem se tornar uma criatura instável. Cassius cruza os braços. — Além disso, sua linhagem permite algo que a maioria da nossa raça perdeu há séculos. Valéria sorri lentamente. — Reprodução natural. Meu estômago se revira. — Vampiros acreditam que pessoas como você são apenas lendas — Cassius diz. — Criadas para dar esperança àqueles que desejam perpetuar sua linhagem. — Mas você é real — Valéria completa. — E, por isso, valiosa. — Se quiser ser adotada — Cassius diz friamente — precisará se tornar uma de nós. — Se quiser permanecer humana — Valéria acrescenta — poderá viver cercada por luxo, proteção e poder… como esposa de um de nossos filhos. — Não temos muito tempo — Cassius finaliza. — O sol está prestes a nascer. Valéria se aproxima novamente. — Nossos filhos são belos — ela diz, quase divertida. — Intensos. Alguns perigosos. Outros… encantadores. Você terá escolha. Cinco minutos. É tudo o que tenho. Se eu recusar, serei apenas mais uma garota tentando sobreviver sozinha. Se aceitar… entrarei em um mundo que deveria existir apenas em histórias. Respiro fundo. — Eu… — minha voz falha. — Eu aceito. Valéria sorri satisfeita. — Ótima escolha, pequena criança. Cassius apenas inclina a cabeça. — Então venha — diz ele. — Vamos discutir seu futuro em casa. Levanto-me, pego minhas malas e os sigo para fora. Uma limousine n***a espera por nós. Quando entro no carro, sei que minha vida acabou de mudar para sempre.
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