Rhae
A limousine tem vidros escuros, tão escuros que parecem engolir o mundo lá fora. Não consigo ver quase nada além do reflexo pálido do meu próprio rosto. A viagem dura um tempo considerável, longo o suficiente para que meus pensamentos se tornem um turbilhão impossível de organizar.
Evito olhar diretamente para o casal sentado à minha frente.
Não por desrespeito — mas por insegurança. Ainda estou tentando aceitar o fato de que vampiros existem… e que eu aceitei ir embora com eles.
Valéria parece perceber meu desconforto. Seus olhos carmesim se suavizam, e ela inclina levemente a cabeça, observando-me como quem observa uma criança assustada.
— Pequena Rhae — diz ela com a voz tranquila —, não vamos morder você.
Dou um leve sobressalto, e ela sorri, divertida.
— Você é mais importante para nós do que alimento — continua. — Vai se tornar parte do clã.
Ela segura a mão de Cassius com naturalidade. O gesto é íntimo, firme, antigo. Ele não reage, mas aperta de leve os dedos dela, como se confirmasse silenciosamente suas palavras.
Engulo em seco.
— Pode… pode me contar um pouco sobre seus filhos? — pergunto, tentando desviar do meu próprio nervosismo. — E… acho que não conseguiria beber sangue humano.
Só de imaginar, meu estômago se revira. Não quero viver para sempre. Não quero me tornar um monstro. Não quero acordar um dia sem reconhecer quem sou.
Valéria abre um sorriso lento, satisfeito, quase maternal.
— Claro — diz ela. — Comecemos por Lucien.
Ela cruza as pernas com elegância.
— Lucien é o mais velho — explica. — Frio, calculista, extremamente controlador. Ele carrega o peso da liderança com naturalidade, mesmo quando não lhe é pedido. Não gosta de surpresas… nem de perder o controle.
Consigo imaginá-lo facilmente. Um arrepio percorre minha espinha.
— Dante, por outro lado… — ela sorri de forma diferente, mais divertida — é o caos em forma de charme. Irônico, sarcástico, provocativo. Gosta de testar limites, especialmente os alheios. Não o leve totalmente a sério… mas nunca o subestime.
Cassius solta um breve suspiro, como se já estivesse cansado só de ouvir o nome.
— Drago — Valéria continua — é silencioso. Observador. Intenso. Ele fala pouco, mas quando fala, costuma ser direto demais. Não demonstra emoções facilmente, mas sente tudo de forma profunda.
— E Sebastian — ela finaliza — é o protetor. Gentil à primeira vista, educado, atencioso… mas profundamente possessivo com o que considera dele.
Meu coração acelera.
— Todos… parecem perigosos — murmuro.
— São — Cassius responde, finalmente entrando na conversa. — Mas não são irracionais.
Ele se inclina levemente para frente.
— Antes que considere seriamente qualquer possibilidade de casamento, saiba de uma coisa — diz com firmeza. — Vampiros podem sair à luz do sol. Ela apenas queima nossa pele levemente. Não nos mata.
Valéria assente.
— Não somos afetados por alho — Cassius continua. — Nem somos incapazes de entrar em casas sem convite. Apenas não gostamos de invadir. É deselegante.
— E… — arrisco perguntar — os quatro são filhos de vocês dois?
O silêncio cai dentro do carro.
Valéria e Cassius trocam um olhar breve. Antigo. Cheio de história.
— Dois são nossos filhos juntos — Valéria responde por fim. — Drago e Sebastian.
Ela faz uma pequena pausa.
— Lucien é apenas meu filho.
— Dante é apenas filho de Cassius.
— Pensei que vampiros ficassem juntos para sempre — digo, quase sem pensar.
Cassius me encara.
— Nem sempre — responde. — No nosso caso, nos conhecemos quando ambos já éramos viúvos.
Valéria segura a mão dele com mais força.
— Temos muito tempo de vida — ela diz suavemente. — O amor também muda com o tempo.
Não demora para o carro parar.
Um portão gigantesco se abre lentamente diante de nós. A mansão surge logo depois — imensa, antiga, imponente. Uma varanda enorme se estende pela frente, colunas altas sustentam a estrutura, e tudo parece retirado de outra época.
O sol já nasceu há algum tempo, mas a mansão parece protegida da luz direta.
O carro entra na área coberta, e a porta se abre. Um mordomo nos aguarda, impecável.
Sigo Valéria para dentro.
O interior da mansão é ainda mais impressionante. Lustres antigos, paredes altas, móveis escuros, tudo exala riqueza e história.
Valéria bate palmas uma única vez.
Uma empregada surge quase imediatamente.
— Ela vai te levar ao seu quarto — diz Valéria. — Preparará seu café da manhã, almoço e jantar.
Ela se aproxima e toca meu rosto com cuidado.
— Está na hora de nos retirarmos. À noite, nos veremos novamente. Tenha um ótimo dia, pequena criança.
Ela me abraça.
Fico paralisada por um segundo… mas acabo retribuindo.
Depois disso, sigo a empregada até um quarto enorme. Uma cama de casal, cortinas pesadas, móveis elegantes. Arrumo minhas poucas coisas no armário, sentindo-me absurdamente pequena naquele espaço.
O dia passa lento.
Silencioso.
Nenhum dos quatro aparece. Nem Valéria. Nem Cassius. Apenas empregados que surgem e desaparecem como sombras educadas.
Eles realmente vivem à noite.
Sinto-me solitária.
Talvez eu devesse mudar meu horário também.
Sento no sofá e ligo a televisão, apenas para preencher o silêncio. Fico horas ali, quase cochilando, até ouvir passos.
Levanto o olhar, esperando ver algum empregado.
Mas não é.
É um homem.
Cabelos castanhos, olhos escuros, roupa casual, postura relaxada demais para aquela mansão. Ele me observa de cima a baixo sem qualquer pudor e então abre um sorriso lento… divertido.
Perigoso.
— Então… — diz ele — me responde uma coisa.
Ele se aproxima.
— Irmã… ou possível esposa?
Meu rosto esquenta imediatamente.
— Ainda não decidi — respondo.
Ele para bem à minha frente e, sem pedir permissão, ergue meu queixo com dois dedos.
— Bonita — murmura. — Espero que sua personalidade seja melhor do que a de um manequim sem reação.
— Você… — engulo em seco — é o único acordado?
Ele ri baixo.
— Por enquanto. E antes que pergunte… — inclina-se um pouco mais — sou Dante.
O sorriso dele se alarga.
— O menos sério. O mais divertido. O que vai te tirar do sério primeiro.
— Convencido — murmuro.
— Realista — ele corrige. — Agora me diga, Rhae… você sempre fica vermelha assim quando alguém chega perto?
— Só quando a pessoa é inconveniente.
Ele solta uma gargalhada genuína.
— Gostei. — afasta-se um pouco. — Se quiser sair para a cidade, sou eu quem sai durante o dia. Trabalho na empresa da família. Os outros preferem a noite.
Ele caminha em direção à porta, depois para e olha por cima do ombro.
— Aproveite a casa. Aproveite a escolha. — sorri de canto. — E tente não se apaixonar rápido demais.
E então desaparece pelo corredor.
Fico ali, parada, coração acelerado.
Se Dante já é assim…
O que me espera com os outros?