Giovanni
— Quero deixar uma coisa clara. Não existe mais essa história de senhorio. Eu sou o maldito dono do prédio.
— Levante o braço — murmura Enzo à minha esquerda.
Obedeço sem desviar os olhos da tela. — Sendo assim, sou eu quem vai lidar com você. Pode receber dez, cem cartas do senhorio, não muda nada. O prédio é meu. E se quiser continuar com ameaças, escolha um alvo melhor.
— Outro braço — ordena Enzo.
Suspiro e obedeço. — Queime essas cartas, rasgue, eu não ligo. Além do prédio, o terreno também é meu. E se alguém achar que pode tirar algum proveito disso, que venha falar diretamente comigo. Aliás, eu mesmo posso investigar de onde vêm essas tentativas ridículas de extorsão, mas a verdade é uma só: eu estou no comando agora, e você…
Antes que eu termine, Enzo arranca o telefone da minha mão e desliga sem cerimônia.
— Enzo…
— Chega — ele corta, firme, enfiando o aparelho no bolso da minha calça com um gesto quase carinhoso. — Você vai se casar hoje. Daqui a uma hora. Chega de negócios.
— Está brincando com fogo.
— É mesmo? — Ele ergue uma sobrancelha, ajeitando minha gravata como se fosse a coisa mais importante no mundo. — E como você se sente?
— Estou ótimo — respondo seco. — Descobriu alguma coisa sobre o Romeno?
— Nada de relevante — responde Enzo, dando a volta por mim, ajustando os punhos do meu paletó. — Ele parece regular. O acordo com os Moretti foi bom para ambos. Mas ele anda atolado em dívidas. Não de jogo. São empréstimos para sustentar a porcaria que vende. O setor da construção está lento. Ninguém tem dinheiro para reformas.
— Tem mais coisa aí. — Me viro para o espelho, observando o reflexo do terno preto que Enzo escolheu. A gravata e o lenço de seda combinam com o âmbar queimado dos cabelos de Victoria — uma escolha minha.
— Ninguém entrega a própria filha sem um bom motivo.
— Todo mundo tem um preço. Dinheiro. Poder. Negócios. Você está salvando o dele, então talvez seja só isso.
— Talvez. — Ajusto as abotoaduras, tentando aliviar a pressão da gola no pescoço. — Mas meu instinto diz que há algo mais.
— Talvez ela seja problemática e ele esteja te agradecendo por tirar um peso das costas.
— Você acha que há algo de errado com ela?
— Quem sabe — Enzo dá um meio sorriso. — Uma mulher linda, solteira, sendo negociada entre famílias? Se ele seguisse as tradições à risca, teria casado ela aos dezoito.
— Então por que esperar até agora? — pergunto, percebendo a mesma desconfiança ecoando entre nós. — Tem mais coisa.
— Talvez ela vá te matar no sexo.
— Pervertido — bufo, abafando uma risada. — Seria a coisa mais interessante que me aconteceu esse ano.
— Vamos, já deu de enrolação.
— Não estou enrolando, estou refletindo sobre o quão fodido é o que estou me metendo. Além disso, tem um i****a achando que pode me extorquir se passando por dono de propriedade dos Walkers.
— Ignorância. Algum i*****l que não faz ideia de com quem está mexendo. — Enzo para à minha frente e aperta meus ombros com força. — Chega de devaneios. Você quis isso.
— Eu quis. — Meu olhar desvia do dele enquanto ajusto a gravata novamente.
— Nervoso?
— Não.
— Você está. Eu conheço esse seu jeito.
— Vai se ferrar, Enzo. Não estou nervoso. É só… estranho. Romeno não tentou negociar, Victoria não tentou fugir. Eles aceitaram fácil demais. Isso me incomoda.
— Talvez seja simples assim.
— Não confio em coisas simples.
Dou um passo para trás, endireitando a postura, e solto um longo suspiro.
— Vamos acabar logo com isso. Vamos casar, p***a.
O salão do hotel está exatamente como no folheto. Branco, elegante, sem exageros — com uma exceção: as flores. Pedi que tudo combinasse com o tom acobreado do cabelo de Victoria. Rosas alaranjadas, vermelhas e marrons adornam as cadeiras, o corredor e os imensos vasos ao longo das janelas. O aroma doce preenche o ar, misturado ao dourado do sol que atravessa as cortinas.
O calor sobe pela gola do meu paletó, mas me recuso a mexer. Cada olhar está fixo em mim. Estou prestes a me casar com uma mulher que nunca vi pessoalmente, e que, neste momento, tem mais poder sobre mim do que gostaria de admitir.
Por um breve momento, penso em ir embora. Deixá-la no altar e resolver isso depois, longe dos olhares atentos. Mas o peso do que construímos, do que represento agora, não me permite. O espetáculo é necessário. Precisam ver que controlo a situação. Que escolho quem estará ao meu lado.
Enzo está ao meu lado, inquieto. Quando cruzamos olhares, ele força um sorriso.
— Imagine se ela não aparece — murmuro.
— Não brinque com isso agora — ele diz. — Precisamos que isso seja impecável.
— Impecável? — Bufo. — Somos mafiosos, Enzo. Não estrelas de cinema.
— Você sabe que as aparências é o que nos dar poder. Se parecer fraco, se abrir margem para falatórios, outros vão testar seus limites.
— É só um casamento.
— Não. É continuidade. É legado. E, se não percebeu, é também sobre um herdeiro.
Eu praguejo mentalmente. Não tinha pensado nisso. Não realmente. A ideia de ter um herdeiro era inevitável, claro, mas agora, prestes a acontecer, ela ganha uma nova dimensão. Será que Victoria também vê isso como parte do acordo?
O som da marcha nupcial invade o salão. As portas se abrem e Victoria aparece, acompanhada de Romeno.
Seu vestido é simples, mas a elegância está nos detalhes: mangas de renda, corpete marfim ajustado ao corpo, e uma saia ampla que desliza a cada passo. O contraste com o vermelho vibrante de seus cabelos me faz prender a respiração.
Ela caminha devagar, quase serena, mas sua tensão é visível para quem sabe olhar. O peso das expectativas, do acordo, de tudo isso, deve estar esmagando-a. Sei bem como é.
Quando me alcançam, Romeno sorri, um sorriso nervoso e forçado.
— Sr. Castelli.
Não respondo. Meus olhos estão em Victoria, que continua sem dizer nada. Estendo a mão, e ela coloca a dela sobre a minha. Seus dedos são frios sob a renda, mas o toque é firme.
O padre fala, mas suas palavras se perdem para mim. Estou focado em Victoria, em cada pequeno gesto, no perfume adocicado que a cerca.
Quando chega a vez dela falar, sua voz é baixa, suave, mas cada palavra é pronunciada com exatidão cirúrgica. É um contrato, e ela sabe disso. É desafiadora, ainda que de forma contida.
O momento dos anéis chega. Pego a mão dela novamente.
— Se o anel for grande demais, ajustamos depois — murmuro, encaixando a aliança em seu dedo.
Perfeito. Sem ajustes necessários.
Ela repete o gesto, deslizando o anel em meu dedo com uma firmeza que beira o provocativo. É um lembrete claro: ela não gosta de mim, e não pretende fingir.
— Eu os declaro marido e mulher — anuncia o padre, radiante. — Pode beijar a noiva.
Levanto o véu lentamente. E então a vejo.
Os olhos azuis, intensos, me perfuram. Cílios longos, boca vermelha, tensa. Ela é uma visão. Muito além das fotos. Um rosto de sereia, feito para encantar e afogar quem ousar se aproximar.
Nossos olhares se prendem. Minha mão alcança seu rosto, roçando a linha delicada de sua mandíbula, e a sala prende a respiração.
Agora é o momento. O mundo aguarda o beijo. E eu?
Eu sorrio.
E beijo minha esposa.