Capítulo 5

1158 Words
Victoria Você conseguiu, Victoria. Você está casada. O anel pesa no meu dedo como se tentasse arrastar minha mão inteira com ele. É um peso simbólico, claro, mas impossível de ignorar. Apesar de não ter criado nenhuma expectativa, ver uma aliança tão simples e antiga na mão de Giovanni foi um golpe estranho. Para um homem com a fama que carrega, passei a manhã imaginando que ele me daria algo extravagante, feito para ser exibido como um troféu. Parte de mim está decepcionada, mas não consigo entender exatamente o motivo. Afinal, isso sempre foi um acordo — um contrato selado por interesses, não por... Amor. Nem por qualquer sentimento mútuo. Então, por que parece tão amargo? A música vibra pelo salão de banquetes da propriedade Castelli, onde fomos recepcionados após a cerimônia. O lugar é colossal — três vezes maior que a propriedade do meu pai — e ao subir os degraus, fiquei atordoada com as paredes inteiramente tomadas por janelas. Impossível contar quantos cômodos existem ali. A opulência é sufocante. O salão de banquetes reflete o mesmo luxo gélido do restante da mansão. Homens e mulheres, muitos dos quais sequer conheço, dançam, riem e brindam como se essa fosse apenas mais uma festa. O álcool corre solto, preenchendo taças com a facilidade de uma respiração, como se anestesiasse as mentes e apagasse as histórias de sangue que ligam todos aqui. Meu pai está na mesa principal, a poucas cadeiras de distância, mas tão imerso em conversa que é como se eu estivesse sozinha. Giovanni também não me dirigiu uma palavra desde o beijo. E lá está ele, destacando-se como um farol dourado no meio da multidão: um copo de uísque em uma mão, um pequeno doce na outra. Sorrindo. Monstro. A palavra rasga minha mente com violência. Meu estômago se revira. O frango cítrico no meu prato torna-se ainda mais indigesto. Observo Giovanni rir, exibindo dentes brancos e perfeitos, tão destoantes da podridão que sei que ele esconde. Seu gesto casual ao empurrar o cabelo loiro para trás é de uma normalidade irritante. Como ele pode se permitir rir? Como pode sorrir sabendo que tem as mãos sujas do sangue do nosso povo? Ele não sente o peso das vidas que tomou? Mas aqui, todos fingem. Fingem que ele é só mais um Castelli, um anfitrião ilustre. Até meu pai se mostrou complacente após um rápido encontro com ele, dentro das limusines. Desde então, sorri demais. Orgulha-se de mim de um jeito que deveria aquecer meu coração, mas só faz o oposto. Que tipo de orgulho se constrói sobre cadáveres? Vicente. Deveria ser ele ao meu lado. Deveríamos estar em um lugar ensolarado, rindo, comendo nossos petiscos preferidos. Eu usaria um vestido rosa, ele um terno marrom. Tudo seria simples, leve. Mas em vez disso, estou aqui, comendo um frango com gosto de limão, batatas sem graça, aspargos frios e uma colher de algo laranja que não me dou ao trabalho de identificar. E me casando com seu assassino. Sinto as lágrimas ameaçarem. Não posso chorar aqui. Meus olhos buscam algo familiar, algo que me ancore — e então vejo Natasha . Ela dança, rodopiando com seu vestido cor de pêssego, uma taça de champanhe na mão, completamente alheia à gravidade do que a cerca. Para ela, esse casamento é fruto de uma paixão avassaladora. Ela acredita nas histórias contadas para os de fora. Invejo sua ignorância. Mas essa bolha estoura no momento em que Giovanni aparece ao meu lado, sua presença tão invasiva quanto seu olhar verde cortante. — Você não comeu nada. — Sua voz é baixa, mas afiada. Olho para ele, oscilando entre desprezo e cansaço. — Não estou com fome. — Não gostou da comida? — insiste. — Como se você se importasse. Ele se inclina, e mesmo com o tom calmo, sua resposta é uma provocação. — Você é minha esposa. É claro que me importo com o que você gosta. Rio, um som sem alegria. — Se isso fosse verdade, teria me dado voz em ao menos uma escolha neste maldito casamento. Sou tão relevante quanto as flores no centro da mesa. — Seu pai enviou uma lista com suas preferências. — Ele faz uma pausa, os olhos deles fixo ao meu. — Estava errada? Sequer preciso responder. Meu silêncio diz tudo. Quando finalmente desvio o olhar, vejo Natasha observando nossa interação com uma ruga preocupada na testa. Forço um sorriso para tranquilizá-la, mas por dentro estou desmoronando. Levanto-me com um movimento brusco, e o mundo gira com o vinho m*l digerido. Giovanni segura meu cotovelo. O toque queima. Afasto-me dele como se sua pele fosse fogo. — Victoria — começa ele. — Me deixe em paz — sibilo, mantendo o sorriso como uma máscara. — Ou vai ouvir verdades que não está pronto para encarar. Afasto-me, os saltos ecoando no mármore, desafiando meu próprio equilíbrio. A ideia de pedir um Uber para me salvar deste pesadelo me arranca um sorriso amargo. Quando entro no corredor lateral, o ar frio é um alívio cortante. Inspiro como se emergisse debaixo d'água. Cada passo que dou me afasta da ilusão do salão. Até que uma voz, tão falsa e doce quanto veneno, me alcança. — Quando dissemos “na saúde e na doença”, não imaginei que a doença fosse a sua teimosia. Não me viro. — Por que está me seguindo? — Porque você está na minha casa. Não seria um bom anfitrião se deixasse minha esposa se perder antes do passeio oficial. O sarcasmo em sua voz me dá náusea. Chego ao bar, tentando pegar uma garrafa, mas ela nem se move. Giovanni surge ao meu lado, acionando um botão oculto. A garrafa se ergue com facilidade — só para ser imediatamente tomada das minhas mãos. — Ei! — protesto. — Você já bebeu o suficiente. — Quem é você para dizer isso? — bufo. — Está tão bêbado quanto eu. — E, no entanto, lidando melhor com isso. A petulância me acende como gasolina em faísca. — Preciso de cada gota dessa garrafa se quiser sobreviver casada com alguém como você! Por um momento, o silêncio se instala. Giovanni me observa com aquela expressão indecifrável, até que um sorriso inclina seus lábios. — Alguém como eu? — Sim! — explodo. — Você é um homem c***l, que destrói tudo ao seu redor. Não sabe perdoar, não sabe recuar. Mata, tortura e manipula sem um pingo de remorso. E ainda acha que tem o direito de prender alguém a si, só porque pode! Você é um monstro ganancioso, Giovanni. Sua sede de poder vai ser sua ruína. As palavras saem como um furacão, arrastando comigo toda a dor, a frustração e o ódio acumulado. Minhas mãos tremem. Meus olhos brilham com lágrimas contidas. E mesmo assim, ele sorri. Como se eu fosse previsível. Como se já soubesse que eu diria tudo isso. E isso, mais do que tudo, me enfurece.
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