Cap. 5 DOR

3045 Words
As coisas estavam de m*l a pior. Victoria ainda no hospital fazendo exames e exames diários para obter respostas sobre a sua nova condição. E do outro lado Scarlet que não conseguia nem comer nesses três dias que se passaram. As famílias estavam divididas entre as duas mulheres. Os Jamison respeitavam a decisão da morena, mas em nenhum momento apoiaram. Amélia demonstrava sua total contrariedade com tudo. Os Cannon juraram que iriam fazer Scarlet esquecer totalmente sua ex-namorada. Para eles, nada explicava o que aconteceu, ver sua filha daquele jeito era doloroso demais. - Filha, por favor, você tem que comer. - Eu estou bem, mãe. Não se preocupe.             Scarlet respondeu, deitada em sua cama. Para falar a verdade, ela nunca mais voltou em seu apartamento. Tudo a fazia lembrar de Victoria. Alyson foi buscar algumas roupas para ela, sua vida estava se resumindo a ficar naquele quarto e definhar por sua dor. - Scarlet, você não pode ficar assim. - Mãe, por favor. Eu preciso disso. Eu tenho que sofrer para poder superar. Só espero que quando isso acontecer não seja tarde demais.             Madelyn via sua filha chorar durante vinte e quatro horas. Tudo que ela queria era sua menina de volta, sua alegre e extrovertida Scarlet.  - Tudo bem. _ Ela suspira e sai. Scarlet volta a se encolher e chorar, ainda refletia sobre o que levou sua amada a fazer isso. Logo agora que elas estavam tão bem, pensa.             Victoria já não se importava com nada. Para ela, morrer e ficar como estava era o mesmo. Estar cega e sem Scarlet é muito pior que morrer. Se perguntassem a ela se arrependia-se, ela diria que sim, sem duvidar, principalmente depois que soube que Lilian não saía de perto de Scarlet, mas ao mesmo tempo sabia que era o certo, estava livrando sua amada de uma dor que não era justo para ela. - Como se sente hoje? _ Clarisse pergunta para a filha. - Morta. Como nos últimos três dias. - Victoria. Não fale isso. - Ah, mãe! A quem queremos enganar? Seria muito melhor eu ter morrido. Melhor para todo mundo. Olha isso tudo. Eu estou viva, mas estou cega, todos choram e sofrem por mim, fiz a pessoa que mais amo na vida sofrer, destruí seu coração, por essa maldita condição que me encontro. - Essa escolha não era sua. - Não era? Sou a inútil que ela teria que cuidar. A imprestável que irá depender de todos pelo resto da vida. Ela não merece isso. Ela nunca vai merecer. _ Victoria fala, gritando. - Tenho certeza de que ela estaria mais feliz aqui contigo, cuidando de você, do que... _ Clarisse não terminou. - Do que o que? - Nada, descanse, filha. - Não mãe, fale. - Victoria... - Fale. - Você quer a verdade? Vamos lá, Victoria. Eu estava tentando ser compreensiva com você, sei que não é uma situação boa, sei que está sofrendo. Mas você ultrapassou todos os limites. Sabe aquela garota que mudou, que melhorou por você, ela está sofrendo. Não! Sofrendo é pouco, ela está morrendo e de uma forma literal. Ela não come, não sai do quarto, não fala com ninguém. Se continuar assim, nem sei o que acontecerá. E quer saber do que mais, eu nesse momento, quero ela bem longe de você, porque você está se destruindo e fazendo o mesmo com todos ao seu redor. Sua irmã só está vindo aqui por ser sua irmã. Ela está totalmente do lado dos Cannon e não tiro a razão dela em nenhum momento. Seu pai está todos os dias aqui, mas quando ver essa sua amargura, esse seu lado destrutivo, prefere ficar por perto, mas ao mesmo tempo longe, e eu... eu... - Mãe... _ Victoria tenta, ela já chorava, assim como Clarisse. -  Você não queria a verdade? Pois terá. Eu, Victoria, estou todos os dias aqui do seu lado, porque eu te amo, você é e sempre será o meu bebê, você e Amélia são meus bens mais preciosos. Mas não estou aguentando te ver desse jeito. Você quebrou o coração daquela garota, você a fez te adiar, você sabe o que isso significa, Victoria? Responda-me uma coisa. Se hoje descobríssemos o que você tem, você se curasse, o que iria fazer? Iria atrás dela? Iria pedir desculpas? Você acha que ela te perdoaria? Pense nisso, porque você fez tudo de um jeito que nem sei o que é pior, você se curar ou continuar assim.             Clarisse fala as últimas palavras, aos prantos, ela não queria fazer sua filha sofrer mais, porém Victoria precisava de um choque de realidade, não se tratava apenas de Scarlet, mas de todos, ela estava afastando a todos. Vendo a condição de sua filha nesse momento, resolveu deixá-la sozinha. Ela precisava refletir. - Vou ao escritório, preciso resolver umas coisas, depois eu volto aqui. _ Vai perto de Victoria e beija-lhe a testa. - Mãe, eu sinto muito. _ Victoria choraminga. - Eu sei, meu amor, eu também sinto. Até depois.             A morena sabia que tinha feito errado, mas não poderia mudar nada. Ela estava afastando seus pais, sua irmã de certa forma a odiava, Janete e Alyson não a queria ver nem pintada de ouro, os Cannon nunca mais deixariam ela chegar perto de Scarlet, e sua ex nunca iria perdoá-la. Ela não deveria ter feito aquilo, se pondo no lugar de Scarlet ela nunca a perdoaria, escutar da boca da mais nova que ela não a amava mais, com certeza seria terrível. Só de imaginar já dói. Clarisse tinha razão, ela quebrou o coração de sua amada, como nunca ninguém perdoaria, todos tinham razão em adiá-la, principalmente Scarlet. Não se tratava de uma mentira, se tratava de que ela falou tudo isso por puro egoísmo. Scarlet sabia que ela ainda a amava, sabia que essa história de ter outra pessoa era pura mentira, mas ela falou, foi dura com a latina, foi má, teve coragem para falar aquilo tudo, então já bastava para a Scarlet nunca mais querer olhar para ela.   ..........................................   - Scarlet! _ Janete chama a irmã ao puxar o cobertor de cima da menor. - Deixe-me em paz, Janete. _ Scarlet fala, puxando novamente seu cobertor para cima do seu corpo. - Nossa, esse moletom é horroroso. - Eu não estou preocupada com moda. - Pois deveria. Sua amiga Lilian está aqui, veio lhe visitar. - Não, Janete, não quero ver ninguém. _ A latina choraminga. - Ah! Mas, vai. _ E assim puxou o cobertor novamente. - Janete! - Levante-se, sua i****a. Então é isso? Você vai morrer aos poucos nessa cama por conta daquela i*****l? - Não fale assim. - Não falar? Scar, olha como ela te deixou, eu sou sua irmã, nunca vou deixar que se destrua desse jeito. - Eu não preciso me destruir, Victoria já fez isso por mim. - Sabe, Scarlet. Quando eu conheci Amélia, eu me encantei por aquela morena, meu Deus, como eu a queria. Aí começamos a sair, ela era melhor do que eu pensava, mas tinha um problema, insegurança, acho que aquela família tem algum problema em relação a isso. Para fazê-la confiar em mim e me aceitar, foi uma longa jornada. Aí veio você e Victoria, eu pensei: Deus! Scarlet vai destruir essa garota. Sim, Scar, eu sempre pensei que a i*****l das duas, era você. Convenhamos, irmãzinha, você não era uma mulher para namorar. - Você não está ajudando em nada com isso. - O que quero dizer é que aconteceu ao contrário. Eu e Amélia sempre nos preparamos para isso, eu não sei por que, mas nós tínhamos o pressentimento que Victoria um dia iria fazer m***a. O motivo é simples, diferente de Amélia, ela não conseguiu superar a insegurança. Para ela, você sempre foi muito mais do que ela merecia, a i****a acabou confirmando isso sozinha. Entã,o Scar, não pense que eu iria ficar aqui observando você morrer por uma pessoa que não te merece. Eu não vou, não mesmo. - Você não entende, Jane. - Não mesmo. Mas antes de você ser uma mulher de coração partido, você é minha irmã. Você é irmã da Alyson, você é filha de Madelyn e Antony. E todos, Scar, todos estamos sofrendo por vê-la assim. Então, por favor, não faça mais isso com você. Não nos deixe sem sua alegria. _ Janete já chorava, puxando sua irmã para um abraço. - Me ajuda, Jane. Faz parar de doer. - Eu vou, meu amor, eu prometo que vou.             As duas Cannon se agarram de uma forma que poderiam ser confundidas com apenas um corpo. A dor de Scarlet era sentida por todos, ela estava tão destruída que as rachaduras de seu coração eram de uma intensidade exposta. - E para começar, você irá receber sua amiga. Ela veio aqui todos os dias, Scar, aquela garota vale ouro. - Eu sei, Lilian é uma grande amiga. - Sim, ela é. Vamos. Tome um banho e se troque.             Scarlet sorri e faz o que foi mandada. Cerca de meia hora depois estava descendo a escada. Forçava um sorriso para receber sua amiga, mas Lilian sabia que ela não estava bem. A latina nunca mais aparecera no hospital, a ruiva estranhava por Victoria está internada ainda, pensava que seria pelo acidente sofrido. - Scar. _ A ortopedista disse, indo abraçar sua amiga. Ela adorava o cheio de morango que sempre exalava dela. - Ei, como você está? _ Scarlet disse, carinhosa. - Estava com saudades. - Eu também. _ Elas se afastaram e foram se sentar no sofá. - Como você está, Scar? Você não parece bem. Está doente? - Estou bem, só um resfriado. - Por isso não está indo ao hospital? Eu vinha aqui todos os dias, mas você sempre está dormindo. - Me desculpe, eu... eu iriei pedir demissão do hospital. - Mas porque, Scar? O que aconteceu? Você irá sair para cuidar de Victoria? - Não. _ As lágrimas de Scarlet já queriam cair novamente. – Nós não estamos mais juntas.             Lilian é surpreendida pela notícia. Agora tudo fazia sentido, estava explicado o porquê da condição de sua amiga. Ela não esboçou reação, mas por dentro seu coração disparava. Scarlet Cannon estava livre, sabia que ela ainda amava sua ex, mas se ela desse uma chance, uma única que seja, ela a faria esquecê-la e a faria a mulher mais feliz do mundo. - O que aconteceu? - Na verdade, eu não quero falar disso. Eu... só quero seguir em frente. - Claro. Eu entendo. Mas o que pretende fazer? - Eu ainda não sei. A única certeza é que não posso continuar lá. Posso conseguir um emprego em outro hospital, mas quero algo mais drástico. Quem sabe outra cidade, ou estado. Só quero ficar longe. - Tudo bem, saibas que sempre estarei aqui ao seu lado. - Eu sei, obrigada. Queria te pedir um favor. - Claro. - Preciso ir ao hospital, não queria ir sozinha. Pode ir comigo? Quer dizer, se não... - Sim, claro que sim, até agora se preferir. - Sério? Mas é sua folga. - Eu sei, e será um prazer passá-la com você.             As duas mulheres sorriem uma para a outra. Scarlet ver uma ótima amiga em Lilian, já a ruiva ver uma enorme chance à sua frente, em sua cabecinha esperta, já tem a ideal condição para conquistar Scarlet e fazê-la ficar longe. Mas a verdade é que Lilian sabe que a latina falou em ir embora da boca para fora. Ficar longe de Victoria assim tão de repente não era uma opção imediata.             Cerca de uma hora depois, por volta das dez da manhã, já estavam no hospital. Scarlet evitou de todas as formas ser vista, já imaginava que todos ali sabiam do que aconteceu, mas ao contrário do que pensou, ninguém a olhava diferente, na verdade, a cumprimentavam normalmente. - Tudo bem? _ Lilian perguntou, elas já estavam em frente a porta da diretoria, onde Clarisse Jamison se encontrava. - Sim. - Tudo bem, estarei aqui fora te esperando. - Obrigada. _ Scarlet dá um beijo na bochecha de Lilian, o que a faz suspirar.             Scarlet dá leves batidas na porta e escuta um “entre”. Quando o faz, Clarisse Jamison demonstra sua surpresa em vê-la ali, mas também o seu alívio. - Scarlet! - Oi.             Clarisse logo trata de ir abraçar a nora, pois para ela, Scarlet sempre será sua nora, a burrice de sua filha não mudaria isso. A diretora a aperta com toda a força possível, precisava demonstrar à latina sem palavras que não era a favor da decisão de sua filha. - Como você está? - Como você acha? _ Elas se afastam. - Scarlet... - Não, Clarisse, está tudo bem, você não tem nada a ver com isso. Eu não vim aqui para te encher com meus problemas. Na verdade, quero minha carta de demissão e queria um favor seu, dois na verdade. - Scar, você tem certeza disso? _ Agora já não era a diretora do hospital que falava, mas sim sua ex-sogra. - Sim, absoluta. - Certo. _ Clarisse suspira, ela entende os motivos de Scarlet. – Qual seria os favores? - Não quero cumprir o aviso, se quiser descontar, desconte, eu só quero o mais rápido possível. Eu pretendo mudar da cidade, preciso de rapidez. - Scarlet, você não precisa fazer isso. - Sim, eu preciso. Eu não posso mais ver Victoria, eu não quero mais vê-la. E se acontecer de a ver em outros braços que não sejam os meus, beijando outra boca que não seja a minha, eu não irei suportar. - Scarlet, você sabe que isso de existir outra pessoa é mentira. - Pode ser, Clarisse, mas se ela não me quer mais, um dia vai acontecer. O que me leva ao outro favor, seja sincera comigo, por favor, eu confio em você. Vic... Victoria teve alguma sequela do acidente? _ Elas se encaram intensamente, pois a latina saberá se a outra mentir. - Scarlet... _ A mais velha engole seco. - Seja sincera, Clarisse. Clarisse fez uma promessa à sua filha, desde que a teve prometeu protegê-la, amá-la, apoiá-la, pode estar cometendo o maior erro da sua vida, mas não tinha o que fazer, não tinha como falar a verdade sendo que Victoria foi incisiva em dizer que se alguém falasse a verdade, ela nunca perdoaria, poderia não estar na melhor posição de exigir nada, mas se não fosse sua família a apoiar, quem o faria? Por esse motivo a diretora vestiu sua máscara mais séria, firme e respondeu à pergunta da ex-nora. - Não, Scarlet, ela não teve sequela. - Ótimo, fico feliz por ela, então que seja feliz. Minha decisão já está tomada, só preciso saber se posso contar com sua ajuda para conseguir essa rapidez na demissão. - Sim, claro. Só acho que... - Obrigada. E outra coisa, peça para alguém buscar as coisas de Victoria do meu apartamento, irei colocar à venda. - Scarlet, pare com isso. - Não! Não quero mais nada em minha vida que lembre de Victoria, nada que me faça sofrer mais. - Eu irei respeitar sua decisão, amanhã mesmo resolverei tudo isso. - Obrigada, Clarisse. Eu já vou. Eu... talvez isso seja um adeus. Então... - Vem cá, menina.             Elas se abraçam novamente, as duas eram mais que sogra e nora. Sempre se deram muito bem, ninguém poderia questionar. Até isso Victoria conseguiu destruir. - Espero que consiga ser feliz, Scarlet. - Eu vou, Clarisse, eu juro que vou.             Elas se afastam e Scarlet limpa suas lágrimas. Aquilo para ela era sim um adeus, de Clarisse e da família Jamison completa. Quando sai encontra Lilian a esperando como prometido. A ruiva mexia em seu celular, mas quando viu Scarlet logo o soltou. - Tudo bem? - Sim. Só preciso me despedir de Sebastian, ele sempre foi um grande amigo. - Claro, vamos lá. Mas você sabe que onde ele fica... - Sim, eu sei, mas não preciso encontrá-la, só iremos até a sala dele. - Certo.             As duas saem pelos corredores do grande hospital. Scarlet estava nervosa e Lilian apreensiva, nenhuma das duas queriam encontrar com Victoria, essa não era uma opção. Logo chegam à porta de Sebastian, mas ele não se encontra, segundo a enfermeira, o médico estava visitando os quartos. Scarlet decidiu que iria até lá, mas claro, sempre evitando um local em especial. Lilian não saía de seu lado.             Quando estavam indo, uma enfermeira lhe disse que ele estava no quarto 213, como não era o que ela evitava, resolveu ir atrás. Entrou sem bater, pois, de certa forma poderia fazer isso, Lilian estava ao seu lado. Quando abriu, não esperava encontrar o que encontrou, nunca poderia imaginar isso.             Quando Victoria escuta a porta se abrir consegue afastar Keila daquele encostar de lábios, ela não esperava que depois de contar para mulher tudo que aconteceu ela iria simplesmente beijá-la. A loira era a secretária de seu pai no escritório e depois que Victoria foi trabalhar com ele, elas ficaram amigas. Porém, parece que a mulher confundiu as coisas. - Scar.             Foi tudo que Victoria escutou, a voz era de Lilian, a ruiva segurava o corpo de Scarlet para não ir ao chão. As suas pernas mais uma vez a traíram. Seu coração terminou de ser quebrado. Ela não sabe se sentia raiva, remorso, dor, ou qualquer outra coisa r**m. Mas no fim de muitas sensações, uma se fez presente, alívio. Então no fim, Victoria falou a verdade, tinha alguém. Mas nada a impedia de sofrer, de querer morrer, de arrancar seu coração do peito e se desfazer dessa dor que a fazia querer sumir da terra. - Scar...             Foi só o que a morena conseguiu dizer. Isso não poderia ter acontecido, pensa ela. Keila não tinha o direito de fazer isso. Ama Scarlet, ninguém ocuparia o lugar de sua mulher, ninguém poderia ter seu coração. Ninguém poderia lhe tocar se não fosse sua Scar. Mas já era tarde demais. Victoria acabara de perder sua amada para sempre. Scarlet conseguiu ficar de pé com a ajuda de sua amiga e disse a única coisa que poderia naquele momento. - Adeus, Victoria. _ E saiu.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD