Lorenzo entrou no escritório de paredes de vidro sem bater — como sempre fazia.
— Sua mãe visitou a garota hoje — disse, largando uma pasta sobre a mesa. — Achei que gostaria de saber.
Vincenzo continuou digitando, o maxilar travado, o olhar fixo nas telas com gráficos, ações, transações de bilhões.
— E daí? — perguntou, seco.
— E daí que ela gostou da menina. Disse que tem um ar de fragilidade útil. Que talvez possa ser lapidada.
Vincenzo parou por dois segundos, encarando o reflexo do próprio rosto no vidro da sala. Estava tão imóvel que parecia uma estátua esculpida com raiva.
— Se minha mãe está satisfeita, então a situação está sob controle — respondeu, voltando a digitar.
Lorenzo riu baixo, encostando-se na mesa.
— Você sequer lembrou que ela estava lá essa semana, não é?
— Tenho prioridades — respondeu Vincenzo, seco. — E nenhuma delas envolve ensinar uma garotinha a ser mulher.
— Ela é sua noiva, Vincenzo.
— Ela é um nome no papel. Uma aliança estratégica. E está exatamente onde deveria estar: calada, protegida e fora do meu caminho.
Lorenzo o observou por mais alguns segundos, tentando decifrar a frieza que o primo usava como armadura. Então deu de ombros e saiu, deixando apenas o som das teclas ecoar.
Mas, por um segundo, Vincenzo parou de digitar.
Sophie.
O nome ecoou como uma falha no sistema.
Breve.
Incômoda.
E ignorada.
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Sophie passava os dedos por uma das pétalas da rosa que colhera naquela manhã. A flor parecia mais viva do que ela se sentia.
A conversa com Katherine não saía da cabeça.
Ela se sentia avaliada, pesada e deixada de lado como um objeto decorativo — valiosa, mas sem voz.
Quando Nora entrou no quarto com uma bandeja de chá e biscoitos, Sophie m*l notou.
— Menina, você tá com esse olhar perdido desde cedo. O que houve?
Sophie ergueu os olhos, e só então as lágrimas silenciosas rolaram.
— Ela é… forte. Imensa. Sabe tudo. Eu… não sei de nada, Nora. Eu sou só uma menina que gosta de flores. Eu não pertenço a esse lugar.
Nora sentou-se na beira da cama, puxando a menina para um abraço. O mesmo abraço que Evelyn dava quando ela tinha pesadelos, aos seis anos.
— Você pertence onde quiser pertencer, minha flor. Mas precisa entender: esse mundo não vai te ensinar com delicadeza. Você precisa ser brava, mesmo que com medo.
— E Vincenzo…? Ele nem olha pra mim. Nem se importa…
Nora segurou seu rosto entre as mãos.
— Ele não sabe o que fazer com alguém como você. Por isso finge que você não existe.
Sophie engoliu em seco, mas assentiu.
Sabia que Nora tinha razão.
E era isso que doía mais.
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A mansão dormia sob a luz pálida da lua.
Sophie, envolta apenas pelo roupão branco de seda e com os pés descalços, caminhava em silêncio absoluto pelos corredores gelados. A fome a corroía — desde o jantar , não havia tocado na comida. Seu estômago reclamava baixinho, e a ideia de buscar um pedaço de bolo na cozinha parecia inofensiva.
Ela conhecia parte da casa agora. Os caminhos iluminados por sensores. Os quadros imensos. O som suave da água da fonte no jardim interno.
Era tudo belo demais. Frio demais.
A cozinha estava vazia. Pegou uma fatia de bolo de chocolate, serviu-se de leite e sentou-se à ilha de mármore.
Por vinte minutos, houve paz.
Mas ao voltar pelo corredor principal…
ela parou.
Passos firmes ecoaram à frente.
Não corria. Não se escondia.
Era Vincenzo.
Caminhava na direção oposta, vindo do fundo da casa, da ala onde poucos entravam. As luzes automáticas acenderam, e Sophie congelou.
Ele vestia apenas a calça preta, a camisa social desabotoada… e as mãos, os braços, parte do peito estavam manchados de sangue.
Sangue fresco.
Ele parou por um breve instante ao notar sua presença.
Os olhos verdes, sombrios, caíram sobre ela.
Nenhuma surpresa. Nenhuma vergonha. Nenhuma explicação.
E então… seguiu andando.
Passou por ela como se não existisse. Como se fosse um espectro invisível.
Um vulto carregando a morte no silêncio da madrugada.
Sophie ficou parada. O bolo embrulhou no estômago.
Ela olhou para trás, vendo a mancha escura no chão, onde os pingos haviam caído.
Não gritou.
Não correu.
Mas algo dentro dela quebrou.
Ou talvez… tivesse começado a acordar.
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O sol da manhã entrava pelas janelas da cozinha, dourando as bancadas de mármore. O cheiro de café fresco e pão assado preenchia o ar. Mas Sophie m*l tocou a xícara.
Seu olhar estava distante. As mãos tremiam levemente sobre a mesa. O rosto, mais pálido do que o habitual, denunciava uma noite sem sono.
Nora, sempre atenta, notou.
— A senhorita não comeu nada — disse com a voz baixa, puxando uma cadeira e sentando ao lado dela.
Sophie hesitou por alguns segundos, antes de sussurrar:
— Eu o vi ontem.
Nora permaneceu em silêncio, apenas observando-a com os olhos firmes e atentos.
— Ele estava… coberto de sangue. Não disse nada. Não me olhou. Só passou… como se não fosse nada.
A governanta cruzou as mãos sobre a mesa. O ar ficou mais denso.
— Foi a primeira vez que viu algo assim?
Sophie assentiu, e seus olhos se encheram de lágrimas contidas.
— Ele parecia… vazio. Frio. Como se não fosse humano.
Nora suspirou, como quem carrega um segredo antigo no peito.
— O senhor Vincenzo… é um homem de muitos mundos. E alguns deles, menina, não são feitos para olhos delicados como os seus.
— Então é verdade? Ele… ele faz parte de algo sombrio?
Nora desviou o olhar por um instante. Depois voltou a encará-la.
— Eu trabalho nesta casa há trinta anos. Vi o senhor Vincenzo nascer. Vi o pai dele treiná-lo como se treinaria um soldado.
Ele foi moldado para ser o que é. Não por escolha… mas por legado.
Sophie engoliu em seco.
— Ele matou alguém?
Nora se levantou com calma, indo até a bancada pegar a chaleira. Respondeu com a voz calma, mas firme:
— O que você viu… é algo que talvez precise esquecer, se quiser sobreviver nesse lugar.
Aqui, minha flor, nem sempre a verdade é a melhor companhia.
Sophie sentiu um nó no estômago.
Queria respostas.
Mas talvez… ainda não estivesse pronta para recebê-las.
— Você vai se acostumar — disse Nora, pousando uma xícara diante dela. — Ou vai quebrar.