CAPÍTULO 6
CARIOCA NARRANDO
Tava sentado na minha sala na boca, ventilador barulhento girando em cima da minha cabeça, mas nada me distraía da ficha aberta na mesa. A foto dela presa no canto… caralhø, a ruiva era gata demais. Mesmo de uniforme, aquele olhar sério queimava na p***a da foto. Tinha uma mistura de medo e fogo que me deixava vidrado.
Passei o dedo em cima da imagem como se pudesse sentir a pele dela, dei um sorriso torto e pensei alto:
— Cê já é minha, ruivinha… só não percebeu ainda.
Foi aí que a porta abriu sem bater. Juninho entrou apressado, com a cara fechada, rádio chiando na cintura.
— Patrãozinho… chegou a visão. O carregamento vai descer hoje à noite. O contato confirmou, só que tem movimento da polícia rondando o acesso da Linha Vermelha.
Encostei na cadeira, fechei a ficha e bati a palma da mão na mesa.
— Já era de se esperar. — falei firme. — Pega uns quatro do bonde e prepara a contenção. Quero o beco limpo na hora que o caminhão encostar.
Juninho assentiu, mas antes de sair, olhou pra pasta ainda embaixo da minha mão e riu de canto.
— Tá na fissura, né? A mina é gata mesmo… mas cuidado, patrão. Quem olha muito pra foto esquece de olhar pros inimigo.
Dei uma risada debochada, puxei a Glock da cintura e bati de leve no metal da mesa.
— Relaxa, cria. Eu dou conta de tudo. Do carregamento e da ruiva.
Ele riu, balançou a cabeça e saiu da sala, deixando só o barulho do ventilador e o peso da foto dela me encarando de volta. E eu ali, olhando praqueles olhos de papel, já sabia: hoje eu ia cuidar do corre… mas amanhã, era ela que ia ocupar minha mente de novo.
Juninho saiu fechando a porta, e nem deu tempo do silêncio tomar conta que já ouvi o arrastar do chinelo pesado no corredor. Meu coroa entrou, olhar duro, cigarro na boca e a mão no coldre como sempre.
— E aí, moleque… fiquei sabendo do carregamento. — ele falou grosso, jogando a fumaça no ar. — Quero tu de olho em cada detalhe. Se essa porrä dá errado, não é só teu nome que queima, é o meu também.
Assenti, ajeitando o boné na cabeça.
— Tá tranquilo, coroa. Já botei o Juninho na responsa com mais quatro do bonde. Quando o caminhão encostar, o beco vai tá limpo.
Ele me encarou firme, puxando outra tragada, e bateu a cinza na mesa.
— Não quero saber de distração, Carioca. Já tô te falando, essa mina aí pode ser teu capricho agora, mas quem manda nessa porrä ainda sou eu. Primeiro o crime, depois mulher. Entendeu?
Segurei a raiva na ponta da língua, mas soltei só um sorriso torto.
— Relaxa, coroa. Eu sei a ordem das coisas.
Ele me olhou mais alguns segundos, como se buscasse qualquer sinal de fraqueza em mim, e depois virou as costas.
— Vou passar na contenção da laje. Tu dá uma geral na Cinco e vê como tá os corre. Quero relatório antes da noite.
— Fechado. — respondi, já me levantando.
Catei a Glock, o rádio e enfiei no cinto. O sol lá fora tava ardendo quando subi na Hornet e bati a chave. O motor roncou alto, ecoando pelo beco. A galera já abriu caminho, sabendo quem tava passando. Desci a ladeira, subi outra e em poucos minutos já tava na Boca da Cinco. O movimento ali era frenético, vapor correndo com mochila, cliente passando de moto, rádio estourando notícia o tempo todo.
Parei no meio da viela, desci da moto e puxei o rádio.
— Visão, rapaziada. Quero geral na linha. Ninguém vacilando, ninguém sumindo. Hoje tem carregamento, e se der merdä, o couro vai comer.
Os cria gritaram em coro:
— Fé, patrãozinho!
Olhei ao redor, observando cada detalhe, cada canto. Tudo no esquema. Tava conferindo o movimento na Boca da Cinco, o rádio chiando na cintura e a Glock pesando no cinto, quando senti um perfume doce se aproximando. Nem precisei olhar duas vezes pra saber quem era.
Priscila.
Short enfiado no r**o, top colado, salto batendo no chão da viela como se fosse passarela. A mina já veio se jogando em cima de mim, sorriso malicioso e a mão quase passando no meu peito.
— E aí, Carioca… sumido. — ela disse, mordendo o canto da boca. — Pensei que tu não curtia mais me ver.
Dei um passo pro lado, sem desgrudar o olho dos vapores contando o dinheiro na mesa.
— Agora não, Priscila. Tô trampando. — falei frio, ajeitando o boné pra frente. — Corre grande hoje, não dá pra perder tempo não, pô.
Ela riu, debochada, passando a língua nos lábios.
— Ah, eu espero… — sussurrou no meu ouvido. — Passa lá em casa mais tarde. Tu sabe onde me encontrar.
Se afastou rebolando, deixando um rastro de perfume barato misturado com desejo. Alguns moleques olharam, cochichando, mas eu nem dei moral.
Acendi um baseado, puxei a fumaça e pensei comigo mesmo:
— Essas mina podem até tentar, mas nenhuma delas mexe comigo do jeito que a ruiva mexe. Na moral. Pego mesmo porque sou homem e não vou nunca negar uma bucetä.
Dei mais uma tragada no beck, soltando a fumaça devagar enquanto olhava o corre rodar na minha frente. Vapores correndo de um lado pro outro, rádio estourando notícia, o dinheiro passando de mão em mão. Era o caos organizado que eu sempre curti ver.
Mas a mente? A mente não parava de rodar na ruiva. Caralhø… a foto dela na pasta grudada na minha cabeça. O jeito que me encarou aquele dia na quadra, tentando segurar a coragem no olhar mesmo tremendo por dentro. Era isso que me prendia. Priscila podia rebolar o quanto fosse, qualquer outra mina do baile podia se jogar, mas nenhuma tinha aquele fogo escondido que eu vi nela. Sei lá, pode ser fissura, quando eu comer ela, eu desapego nesse caralhø.
Joguei a bituca no chão, pisei com força e puxei o rádio.
— Visão, Juninho… confirma a hora do caminhão. Quero essa porrä no papel.
— Tranquilo, patrão. — a voz dele chiou do outro lado. — Tá marcado pra uma da manhã. Eu e os cria já tamo no esquema.
— Já é. — respondi. — Fica na contenção e qualquer movimento estranho me avisa na hora.
Desliguei o rádio e subi de volta na Hornet. A viela abriu na mesma hora. Gritei pros moleques:
— Quero tudo redondo, hein! Hoje ninguém vacila!
— Fé! — eles responderam em coro, o som ecoando pelos becos.
Continua.....