5- AULA

1186 Words
CAPÍTULO 5 ALANNY NARRANDO O despertador tocou cedo, mas eu já tava acordada. O sono não vinha mais do mesmo jeito desde aquele dia na quadra. Levantei devagar, o corpo pesado, como se o travesseiro tivesse sugado toda minha força. Fui direto pro banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água cair gelada, tentando acordar meus pensamentos. Fechei os olhos e por um instante imaginei que podia lavar também o peso que carregava, mas não tinha como. Era como se aquela marca tivesse grudado na minha pele pra sempre. Saí enrolada na toalha, olhei pro espelho e vi meu reflexo: olheiras, cabelo bagunçado, os olhos que já não tinham o mesmo brilho de antes. Vesti o uniforme devagar, ajeitei a saia, amarrei o cadarço do tênis com raiva, como se fosse nó de corrente. Na cozinha, meu pai já tava sentado, tomando café preto. Ele tentou puxar assunto, mas eu não dei espaço. Passei direto, peguei um pedaço de pão seco e joguei na mochila. — Bom dia, filha… — ele murmurou, mas minha resposta foi só silêncio. Prendi o cabelo num r**o de cavalo, botei a mochila nas costas e respirei fundo antes de sair. Cada dia que eu colocava o pé pra fora do barraco era uma batalha contra mim mesma. Do lado de fora, a viela já tava cheia de vida. Gente indo trabalhar, criança correndo descalça, som de rádio saindo das janelas. Mas nada disso abafava o que mais pesava: a certeza de que eu nunca tava sozinha. Lá estava ele. O mesmo vapor. Encostado na esquina, fuzil no ombro, fingindo que tava só de contenção. Mas eu sabia. Ele tava ali por mim. Apertei o passo, respirei fundo e segui o caminho pra escola. No fundo, eu só pensava: até quando vou viver com essa sombra me seguindo? Desci a viela e logo encontrei a Bruna e a Tainá no caminho, as duas já me esperando encostadas no muro da vendinha. Bruna tava mastigando chiclete, Tainá rindo de alguma besteira que só ela entendia. Eu tentei forçar um sorriso, mas era difícil quando eu sentia os olhos do vapor colados na minha nuca, acompanhando cada passo meu. — Bora logo, senão a gente se atrasa. — falei seca, ajeitando a mochila no ombro. A gente seguiu juntas, descendo a rua. Bruna, do nada, olhou pra mim com aquela cara de quem não sabe segurar fofoca. — Amiga, tu não vai acreditar… fiquei sabendo que o Carioca tá pegando a Priscila. Meu coração deu um tranco, mas eu mantive a cara firme, fingindo indiferença. — Priscila? — Tainá arregalou os olhos. — Aquela piranhä que vive no baile de short enfiado no r**o? Bruna assentiu, revirando os olhos. — Essa mesma. Ontem falaram que viram ele subindo a escadinha da laje com ela, rindo, todo cheio de graça. Eu apertei o punho dentro da mochila, senti a raiva me subir, mas não ia dar o gosto. Respirei fundo, ergui o queixo e soltei firme: — Que se fodä. — falei, engolindo o nó na garganta. — Ele pode pegar quem ele quiser, não é problema meu. Tomara que ele goste dela e me deixe em paz. Tainá me olhou de lado, meio desconfiada, como se tivesse lido o que eu escondia no fundo. Mas eu segui andando, pisando forte no chão, como se cada passo fosse um protesto contra aquele destino que tentavam enfiar na minha goela. Porque a verdade era simples: todo mundo achava que eu já era dele. Mas eu me recusava a aceitar. Quando cheguei na escola, tentei fingir normalidade. A fachada descascada, o portão azul sempre rangendo quando abria, o cheiro de merenda misturado com poeira… era como se tudo gritasse rotina. Mas dentro de mim, nada mais era igual. Eu, Bruna e Tainá seguimos pro corredor apertado, cheio de vozes, gente rindo, empurrando, contando novidade. As duas se enfiaram logo num papo sobre baile, roupa, maquiagem, mas eu só queria chegar logo na sala, me esconder atrás do caderno e esquecer o mundo lá fora. A gente entrou e eu sentei na minha carteira de sempre, perto da janela. Abri o livro, peguei a caneta, mas a mente não acompanhava. As letras dançavam na minha frente, embaralhadas com o peso que eu carregava no peito. Foi então que ouvi uma voz baixinha do lado. — E aí, Alanny, tá suave? — virei o rosto e era o Lucas, um colega da sala. Moreno claro, cabelo raspado, sorriso tímido. Ele se inclinou um pouco pra frente, como se tivesse receio de falar comigo. — Tu tá meio sumida… vi que tinha faltado esses dias. Forçei um sorriso fraco. — Eu tive crise de enxaqueca. Mas agora eu tô aqui, né? — respondi, tentando cortar o assunto. Mas ele insistiu. — Se tu quiser ajuda em matemática, eu te passo uns resumos. Vi que tu tava com dificuldade semana passada. Olhei pra ele, surpresa. Ninguém mais tinha coragem de puxar papo comigo desde aquele dia que a notícia correu no morro. Todo mundo sabia que eu tinha virado a prometida do Carioca. E quem ia querer arriscar a pele mexendo com a mina do patrãozinho? Antes que eu respondesse, Bruna apareceu atrás de mim, rindo. — Ihhh, olha o Lucas querendo ser professor particular, hein? Ele ficou vermelho na hora, coçou a nuca e deu uma risadinha nervosa. Eu respirei fundo, tentando não demonstrar nada, mas por dentro senti um misto de alívio e medo. Alívio por alguém ainda me tratar como gente normal… medo do que poderia acontecer se ele fosse visto demais perto de mim. A sala tava cheia de barulho — gente rindo, batendo régua na mesa, passando bilhete escondido. Mas pra mim, tudo parecia abafado. Eu só ouvia o barulho da caneta riscando o caderno e a voz do professor lá na frente, como se viesse de muito longe. Do meu lado, Lucas ainda tentava puxar conversa. Ele rabiscava no caderno, virava de leve pra me mostrar. — Olha… se tu fizer essa conta aqui desse jeito, fica mais fácil. — disse, apontando com a ponta do lápis. Assenti com a cabeça, sem conseguir evitar um sorriso rápido. Era estranho alguém me tratar como se eu fosse só… normal. Sem olhar de medo, sem cochicho atrás. Só um colega tentando ajudar. — Valeu… — murmurei, baixinho. Por um instante, quase esqueci do peso que carregava. Mas não demorou muito e eu vi duas meninas da sala cochichando lá no fundo, me olhando de r**o de olho. Uma delas apontou pro Lucas, depois pra mim, e caiu na risadinha venenosa. O gelo voltou a me tomar. Baixei a cabeça, voltei a escrever qualquer coisa no caderno. Meus dedos tremiam de raiva e medo ao mesmo tempo. Porque eu sabia a verdade, se alguém espalhasse que o Lucas tava de papo comigo, a notícia ia chegar no ouvido errado. E no morro, todo mundo sabia o que acontecia quando mexia com o que já tinha dono. Apertei os dentes, engoli seco e pensei comigo mesma. – Eu não pedi isso, caralhø. Eu não pedi nada disso. Continua.....
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