Capítulo 6

1010 Words
Ryan Walker Depois de Patrick esclarecer a situação para toda a família, ele me chamou para sentar à mesa com eles para o café da manhã. Era uma oportunidade de ouro para observar de perto aquela família peculiar. Aceitei sem hesitar, fingindo uma postura relaxada, mas atento a cada detalhe. Meu objetivo era simples: entender o funcionamento daquela casa, as dinâmicas entre eles e, principalmente, identificar os seus segredos. Eu sabia que havia algo de muito errado com os Harringtons, e cada minuto ali só confirmava minhas suspeitas. A madrasta, Elizabeth, era uma personificação da futilidade. Vestida impecavelmente, com joias chamativas que brilhavam tanto quanto seu sorriso artificial, ela parecia mais preocupada em exibir sua riqueza do que em lidar com as ameaças à enteada. Observei enquanto ela mexia em seus anéis, como se não tivesse outra preocupação no mundo além de sua aparência. Jonathan, o irmão do meio, era outra peça interessante. Ganancioso e arrogante, ele parecia mais interessado na empresa da família do que na segurança de Madison. Os seus comentários eram sempre pontuados com desdém, como se quisessem provar sua superioridade. Victor, o irmão mais velho, era um enigma. Ele mantinha uma postura neutra, quase desinteressada, mas eu sentia que havia algo escondido por trás daquela fachada. Pessoas que se fazem de desentendidas geralmente escondem mais do que mostram. Patrick, o patriarca, era a peça central desse quebra-cabeça. Um homem que construiu um império do nada, mas cujo olhar carregava um peso, talvez culpa ou segredos sombrios. Tudo nele gritava mistério. E Madison... Ela parecia a única diferente ali. Apesar do tom de desafio em sua voz e de sua clara insatisfação com a situação, algo em seus olhos mostrava que ela também não confiava plenamente na própria família. Talvez fosse a única que eu pudesse, eventualmente, entender. Ou talvez não. Saí dos meus pensamentos quando Jonathan lançou sua primeira farpa, com um sorriso que mais parecia um deboche. - Então, Ryan, como exatamente alguém como você vai proteger minha irmã? – ele enfatizou o “alguém como você” com desdém, deixando claro o que pensava de mim. Mantive o meu rosto impassível, encontrando seu olhar. - Garanto que sou qualificado para isso. – respondi calmamente. – Tenho treinamento militar e sou ex-fuzileiro das forças armadas. Jonathan arqueou uma sobrancelha, mas antes que pudesse responder, Patrick interveio. - Onde você serviu, Ryan? Tomei um gole do café antes de responder, sem pressa. - Afeganistão, Iraque, Kosovo e Sudão. – minha voz saiu firme, mas sem arrogância, apenas o suficiente para deixar claro que sabia o que fazia. Victor finalmente falou, sua voz tranquila, mas com um tom que não consegui decifrar completamente. - Parece que minha irmã estará de boas mãos, então. Elizabeth, que não fez questão de disfarçar os seus olhares para mim, disse. - Concordo, Patrick. Ele parece uma escolha certa. A única que ficou em silêncio foi a esposa de Jonathan. Seus olhos estavam fixos no prato, como se não quisessem fazer parte da conversa. Mais uma peça para o quebra-cabeça. O café da manhã, que mais parecia um interrogatório, finalmente chegou ao fim. Madison foi a primeira a se levantar, declarando que eu precisava ir. Aproveitei para me despedir da família e sair logo atrás dela. Já do lado de fora da casa, na garagem, Madison parou abruptamente, virando-se para mim com as mãos nos quadris. Seu olhar era de pura frustração. - Não há necessidade de você ficar me seguindo, sabia? – sua voz estava cheia de frustração. Mantive a minha postura calma, mas firme. - Seu pai me contratou para isso. Queira você ou não, vou ficar de olho em você. Ela bufou, cruzando os braços como uma criança mimada. - Ótimo. É disso que preciso mesmo, ser seguida por aí. Ignorei a sua provocação, e estava dando a volta para entrar no carro. Mas, para minha surpresa, ela continua parada, olhando para mim com uma expressão desafiadora. - Não vai abrir a porta para mim, não? – sua voz estava cheia de ironia. Encarei-a diretamente, sem esconder o tom de provocação em minha resposta. - Você tem algum problema nas mãos? Ela bufou novamente, mas abriu a porta sozinha e entrou no carro. Aproveitei a situação para esconder um pequeno sorriso enquanto dava a volta e entrava no lado do motorista. O silêncio no carro era quase palpável, era como se ambos estivéssemos em um campo de batalha invisível. A trajetória até o estúdio de fotografia foi marcada por um clima tenso. Ela olhava pela janela, claramente irritada, enquanto eu mantinha os olhos na estrada. Em determinado momento, ela não conseguiu se conter. - Olha, Ryan, vou deixar claro desde já. Eu não preciso de você. E pode ter certeza que não irei precisar. Soltei uma leve risada, o que pareceu irritá-la ainda mais. - Ótimo. Isso torna meu trabalho mais fácil. Ela virou a cabeça na minha direção, os olhos faiscando de raiva. - Você acha isso engraçado? Dei de ombros, mantendo minha atenção na estrada. - Não estou aqui para ser engraçado, Madison. Estou aqui para garantir que você fique segura. Ela balançou a cabeça, voltando a olhar pela janela. O restante do caminho foi silencioso, mas eu pude sentir sua raiva no ar. Para ser honesto, aquilo me divertia mais do que deveria. Se Madison quisesse me provocar, teria que se esforçar muito mais. Eu já estava acostumado com situações muito piores. Quando finalmente estacionamos em frente ao estúdio, desci primeiro e fiquei aguardando ela sair do carro. Dessa vez, ela saiu sem reclamação, mas seus olhos ainda mostravam que estava longe de me aceitar como parte de sua rotina. - Bom trabalho. – comentei, recostando-me no carro. Ela me lançou um último olhar antes de entrar, murmurando algo que preferi ignorar. Observei-a entrar no estúdio o que me deu tempo para pensar. Aquela garota era um desafio, mas eu já tinha enfrentado muitos outros. Madison poderia não gostar de mim agora, mas ela logo entenderia que minha presença não era uma escolha, era uma necessidade.
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