*Rico PoV*
Quando chegamos na propriedade do El Viejo, a chuva já havia cessado e fico impressionado com a mansão. É tanto luxo que, nem em mil vidas, acho que veria algo assim. Meu hermanito está completamente deslumbrado, empolgado com a ideia de ficarmos ali. Eu já tenho minhas dúvidas.
Uma chiquitita com longos cabelos pretos e lisos, um pouco mais nova que Juan, nos recebe logo que saímos do carro. Ela é engraçada e desastrada, até cai no gramado antes do seu papá pegá-la.
ㅡ Helena, hija, cuidado… ㅡ Ele se vira para nós, com ela no colo. Até sinto inveja, pois não me lembro mais de como é estar no colo de um papá ou uma mamá. Juan muito menos. ㅡ Quero te apresentar Henrico e Juan. Eles vão ficar um tempo conosco.
ㅡ Oh… ¿Más hermanos?
Sua pergunta me faz olhar para a entrada da enorme casa. Vejo pelo menos duas dezenas de niños e niñas, das mais variadas idades. Encaro esse estranho homem, que parece ser bom demais para ser verdade.
ㅡ ¿Sus hijos?
Ele dá uma breve risada e ajeita a pequena Helena no colo.
ㅡ Do meu sangue, apenas Fernando e Helena. Os demais são hijos do coração que tirei das ruas. Agora, que tal entrarmos? Está frio e vocês têm que trocar essas roupas molhadas. Não querem ficar doentes, certo?
Nisso ele tem razão. Juan está tremendo muito e sua mão está gelada. Vamos passar a noite aqui, mas, de manhã, iremos embora.
E assim foi o meu pensamento nos meses que se seguiram, porém a ideia caiu por terra. Juan se apegou ao El Viejo como um novo papá e, por mais que eu não quisesse admitir, eu também. Fernando e Helena eram como nossos hermanos, assim como os demais.
Por falar nessa niña, ela grudou em mim como um carrapato, me seguindo com seus grandes olhos castanhos para todo o lado. No começo, era uma perturbação. Mimada, cheia de vontades e um gênio horrível eram adjetivos muito suaves para defini-la. Entretanto, com o passar do tempo, aprendi a gostar dela. E, o gostar, virou algo mais.
El Viejo arrumou atividades para eu e Juan termos o que fazer. Principalmente, Boxe, já que éramos tão bons de briga. Ele dizia que tínhamos que gastar toda a energia acumulada dentro de nós. O apelido “Irmãos Tormenta” fixou como cola.
No meu aniversário de dez anos, El Viejo me chama até a entrada da mansão e fico surpreso com o que vejo. Uma moto preta reluzente está atrás dele, que balança as chaves com uma das mãos.
ㅡ ¡Feliz cumpleaños, mi hijo!
Fico muito sem graça, ele sempre me tratou como um hijo, porém nunca o chamei de papá. Ele jamais fez qualquer exigência, entendendo que esse lugar não poderia ser ocupado.
ㅡ Eu não sei dirigir e essa moto é tão grande…
ㅡ Não tem problema. Eu te ensino. E, do jeito que você está crescendo, logo, logo, irá conseguir pilotá-la sozinho.
Fico empolgado com a ideia e monto na garupa sem pensar duas vezes, me agarrando a ele. Quando ouço o ronco do motor, é como se uma chave ligasse o meu coração, fazendo-o acelerar tanto quanto a moto. Damos voltas pelo bairro para depois pegarmos uma estadual, em direção a Jones Beach Island. O lugar não tem muito movimento, então El Viejo aproveita para me colocar na frente e me ensinar a dirigir. É claro que ele não me deixa fazer tudo sozinho, está no controle o tempo todo. Mesmo assim, é uma sensação libertadora que, anos mais tarde, se tornaria a minha ruína.
Aos doze, eu já participava de lutas, juntamente com Juan. Éramos a sensação dos Soultakers, uma das gangues mais fortes do Brooklyn. Eu sempre soube que El Viejo tinha negócios escusos, porém nunca imaginei a dimensão do que era. Acho que preferi ignorar, para não quebrar a imagem paterna que ele passou a representar para nós.
Em uma dessas lutas, conheço Michael. Sabe aquela pessoa que você bate o olho e sabe que foi um hermano em outra encarnação? Foi essa a sensação que tive com ele. Nossa amizade se deu de forma espontânea, apesar do papá dele ser intragável. Um bêbado violento. Perdi as contas das vezes que fui ver o Michael no hospital.
Eu e Helena criamos um vínculo muito forte e, quando me dei conta, estava apaixonado por ela e, ela, por mim. Um terrível dilema, já que fomos criados juntos. Fernando, por ser extremamente protetor, nunca deixava qualquer cara se aproximar dela. Ninguém era bom o suficiente para ela, no conceito dele. Então, mantivemos nossos sentimentos em segredo por um bom tempo. A surpresa veio na festa de quinze anos dela, eu com dezessete, quando ela me chamou para ser seu príncipe.
ㅡ Você dança tão bem, Rico…
Eu sorrio para Helena, enquanto a levo pelo salão.
ㅡ Não sou um brutamontes… ㅡ Ela me encara com uma sobrancelha erguida de pura ousadia e eu me rendo. ㅡ Tudo bem, admito. Mas, não a maior parte do tempo.
Sua linda risada me contagia. Então, ela faz algo que eu jamais esperaria. No meio do salão, na frente de todos, ela me beija. Fico sem ação por um instante, até o calor de sua boca me conquistar completamente. Não é a primeira vez que beijo uma chica, mas é a primeira vez que nos beijamos e sinto a magia acontecer no meu coração. Infelizmente, o encanto não dura muito, já que Fernando se mete no meio e me arrasta para uma sala reservada, me colocando sentado em uma cadeira, como se eu fosse um criminoso a ser interrogado. No lugar também estão Ernesto e mais dois capangas. Confesso que estou quase me borrando aqui.
ㅡ É assim que você paga os cuidados que mi padre teve com você esses anos todos? Ele salvou a sua maldita vida, só para que desgraçasse a minha hermana?
ㅡ Fernando, eu… Não esperava…
ㅡ A culpa é dela agora? Está chamando a Helena de desfrutável? Ela só tem quinze anos, cabrón de mierda!
ㅡ Não! ㅡ Estou suando como um porco pela tensão. Os capangas não têm uma boa cara e a expressão de Ernesto também não é lá essas coisas. Engulo com dificuldade e tento me explicar. ㅡ Não foi o que eu quis dizer… Juro que não planejei nada disso, simplesmente aconteceu. Nós… Nos apaixonamos…
Fernando está de dentes cerrados e olha para um capanga, passando o dedo no próprio pescoço como se o cortasse. Eu entro em pânico.
ㅡ De todas as pessoas, jamais imaginei que justamente você pudesse ser um traidor, Rico! Quero ver bancar el casanova com ela, quando estiver sem as bolas!
Arregalo os meus olhos e instintivamente fecho as pernas, com as mãos entre elas, protegendo as minhas partes.
ㅡ Você não pode estar falando sério, Fernando!
Então, ouço a gargalhada do El Viejo. Ele se levanta e coloca uma mão no meu ombro.
ㅡ Acho que o susto já lhe serviu de lição, não é, hijo?
Ele me encara seriamente e aperta sua mão na minha pele, dando a entender que estou em um beco sem saída.
ㅡ Si, señor! Nunca mais vou olhar para Helena!
Ele franze a testa e fico confuso com seu comentário seguinte.
ㅡ Maridos devem olhar para suas esposas. Não seria certo de outra forma.
ㅡ Marido? ㅡ Dou-me conta do que ele está propondo e fico assustado. ㅡ Eu nunca toquei nela! Eu juro!
Ele acena com a cabeça, mantendo o ar sério.
ㅡ Isso não quer dizer que não deva reparar o seu erro. Helena é uma preocupação na minha cabeça vinte e quatro horas por dia. Se ela tiver que se amarrar a alguém, que seja com você. É o melhor de todos que tenho aqui. Porém, não aceito sem-vergonhices debaixo do meu teto. Então, não a tocará até o casamento, fui claro?
Balanço a minha cabeça concordando, completamente apavorado.
Casar é melhor que ser capado, certo?
Nesse momento, a porta da sala é escancarada e o pivô de toda essa confusão entra em seu vestido de baile lilás.
ㅡ Papá! Hermano! O que estão fazendo com o meu namorado?
Nem eu sabia que éramos namorados, mas El Viejo já me colocou na posição de noivo, então acho que não importa mais…
ㅡ Nunca teve nada com ela, não é, Rico?
A voz do Fernando esbanja veneno. Helena o ignora e se aproxima de mim, sentando no meu colo e me abraçando pelo pescoço. Juro que tento me livrar dela, mas ela é impossível.
ㅡ O coitadinho do Rico não teve culpa. Vocês não viram que fui eu quem o beijou? Começamos a namorar hoje.
El Viejo a retira do meu colo e declara em tom solene, sem soltar seu braço.
ㅡ Comporte-se, hija. Já combinei tudo com seu noivo. É só o tempo de correr os papéis na igreja. Até lá, nada de safadezas dentro de casa.
ㅡ Noivo? ㅡ Ela me encara de olhos arregalados e eu só posso dar de ombros. Não tive muita escolha no assunto. ㅡ O señor vai forçar um casamento por causa de um beijo?
ㅡ É isso, ou deixo Fernando capar o seu namorado. Escolha, Helena.
Ela se solta bruscamente dele e me puxa pelo braço porta afora. Antes, porém, o encara e esbraveja.
ㅡ Pois, a minha vida quem decide sou eu!
Ela me puxa para fora da mansão até a minha moto. Veste um capacete e me passa o outro.
ㅡ Helena, o que está fazendo? Não podemos sair assim!
ㅡ Rico, ninguém vai me dizer o que fazer com a minha vida! Muito menos ameaçar a sua! Vamos!
ㅡ Para onde?
ㅡ Qualquer lugar, desde que seja bem longe daqui!
Ela arranca a parte fofa da saia do vestido e rasga uma f***a na anágua que está por baixo até o meio da coxa. Respiro fundo e subo na moto, com ela na garupa. Olho uma última vez para as portas da casa e vejo Ernesto nos observando. Eu aceno com a cabeça para ele, que retribui o gesto. Ele sabe como Helena é e só eu posso acalmá-la. Sempre foi assim, desde pequena. Dou partida e seguimos pela escuridão da estrada.
Decido pegar a rodovia onde aprendi a dirigir. A vista do mar é panorâmica, acredito que vá deixá-la mais mansa para conversar. Estaciono em um mirante e caminhamos pela praia deserta de mãos dadas. Nós nos sentamos na areia e ainda posso ver as lágrimas que ela tenta afastar.
ㅡ Com que direito ele acha que pode me dizer o que fazer? Não sou um daqueles sem cérebro analfabetos que o servem! Ele ainda te ameaçou!
ㅡ El Viejo está preocupado com o seu futuro. E, sinceramente, a ideia de me capar foi do Fernando, não dele.
Ela dá uma risada debochada.
ㅡ Só podia mesmo ter sido ideia daquele i****a… ㅡ Ela suspira rapidamente e sorri para mim. ㅡ Pelo menos, teve uma coisa boa nessa história…
ㅡ O quê?
Helena se vira na minha direção e me abraça pelo pescoço, seus lábios a milímetros dos meus.
ㅡ Não precisamos mais esconder o que sentimos. Acho que eu me apaixonei por você no instante em que te vi, mas eu era tão nova, que não entendia o que era. Conforme fui crescendo, as coisas foram ficando mais claras na minha cabeça. Yo te amo, Rico…
Sua declaração me aquece e me faz esquecer todo o terror que passei com Fernando e Ernesto.
ㅡ Ah, nena… Yo también te amo…
Arrumo alguns fios de seu cabelo, esvoaçados pela brisa, e ela sorri ainda mais.
ㅡ Eu sempre adorei esse apelido…
Nossos lábios se encontram e, em nossa ansiedade adolescente, consumamos o nosso amor com o oceano e as estrelas como testemunhas. De certa forma, me casar com ela não parece uma ideia tão r**m afinal. Estaremos juntos para sempre. Ao menos, era o que eu acreditava.
Duas semanas depois, há uma corrida importante, com muito dinheiro envolvido. Imaginei que seria quando El Viejo anunciaria o casamento entre Helena e eu. No entanto, quando ele entra no vestiário onde eu e Juan estamos, alguns minutos antes, e fala sobre tudo, menos a respeito da cerimônia, me sinto perdido.
ㅡ O que foi, Rico? Parece tenso?
ㅡ Não me leve a m*l, Ernesto. Mas, e o casamento? Não vi nenhum preparativo.
Juan se mete na conversa e eu respiro fundo para não dar uma moca nele.
ㅡ Que casamento, hermano? Engravidou a hija de alguém?
Ele ri de forma exagerada e eu rezo para que El Viejo leve na esportiva. Contudo, o homem que me criou me surpreende, rindo com meu hermano.
ㅡ Espero que não, afinal Helena é muito nova para isso, certo?
Juan fica boquiaberto.
ㅡ Vai se casar mesmo com a Helena?
Com toda a tensão e preparativos para a corrida nos últimos dias, não conversamos muito sobre isso, esperando que fosse uma pegadinha. El Viejo solta uma alta risada e dá uns tapinhas nas minhas costas.
ㅡ Em um futuro, faço muito gosto. No momento, vocês são muito jovens para um compromisso tão sério assim.
Agora é a minha vez de ficar chocado.
ㅡ Mas, o señor disse que…
ㅡ Sim, eu sei. Eu só queria dar um susto em você, Rico. Helena é o meu tesouro mais precioso, não quero ninguém brincando com os sentimentos dela. Parta seu coração e perderá muito mais que suas bolas. Estamos entendidos? ㅡ Engulo em seco e afirmo em silêncio. ㅡ Ótimo! Agora se concentrem! Hoje será um dia de glória!
Assim que ele sai, Juan fecha a minha boca, sem esconder seu divertimento.
ㅡ Dessa vez ele te pegou, não foi, hermano? Mas, eu te disse que ele só estava querendo te assustar. Agora, foi burrice se meter justamente com a Helena…
Dou de ombros e suspiro.
ㅡ Aconteceu, Juan. O que está feito, não tem retorno. Vamos nos preparar para a corrida.
Como sempre, consigo a vitória, com meu hermanito em segundo. Somos uma dupla imbatível. Fico dando voltas com a moto no mesmo lugar, na pista de terra batida que faz parte do circuito clandestino, comemorando. Voa lama para todo lado, pois está chovendo. Assim que paro, Helena pula no meu pescoço e me beija.
ㅡ Vamos comemorar, Rico!
Ernesto faz um gesto com a mão nos liberando, depois de dar um sorriso. Somos jovens, com a vida toda pela frente. Temos que aproveitar os bons momentos.
Seguimos pela mesma estrada de duas semanas atrás, para alcançar o lugar deserto onde nos amamos pela primeira vez. Queremos ficar sozinhos. A chuva bate na viseira do capacete e, apesar disso, ouço Helena gritando no meu ouvido.
ㅡ Mais rápido, Rico! Eu quero voar!
Obedeço seu pedido, acelerando ainda mais. Seus braços me agarram fortemente e sua risada me contagia. Quando estamos quase no lugar, o asfalto parece coberto de sabão por causa da chuva torrencial. A partir daí, tudo é um borrão. Flashes de um desastre que jamais vou esquecer. Os controles da moto param de me obedecer. As mãos de Helena me soltam e perco o contato com seu corpo, enquanto eu e a moto voamos pelo ar. Sinto um impacto nas minhas costas e tudo se torna escuridão.
Quando acordo, meu corpo parece ter passado por um moedor de carne, literalmente. Tudo dói e estou cheio de hematomas e arranhões, além do gesso em um dos braços até o punho. No entanto, quando me lembro da sensação da minha namorada se soltando de mim, o desespero bate.
ㅡ Helena!
ㅡ Calma, hermano!
Vejo Juan e Michael ao lado da cama de hospital onde estou. Seus tristes olhares mostram a verdade que eu não quero ouvir. Mesmo assim, meu hermano me conta que ela não sobreviveu ao acidente. A dor física não é nada comparada à que sinto dentro da minha alma. Então, El Viejo surge pela porta, com o semblante mais frio que já vi em toda a minha vida.
ㅡ Saiam. ㅡ Michael fica receoso de me deixar sozinho com Ernesto, porém meu hermano o leva para fora. ㅡ Será a última vez que iremos nos falar. Juan já lhe contou? ㅡ Eu somente aceno com a cabeça. ㅡ Eu deveria cobrar a vida da minha hija e do meu nieto com a sua…
Fico de boca aberta, enquanto lágrimas descem pelo meu rosto.
ㅡ Helena estava… Grávida?
ㅡ Sim… Duas semanas.
Meus pensamentos todos se voltam para aquela noite. Sim, fomos irresponsáveis, mas, afinal, El Viejo nos forçaria a casar e não pensamos nas consequências. Acreditávamos que ficaríamos juntos para sempre.
Abaixo a minha cabeça, decidido a me entregar ao meu destino. Sem Helena, nada mais faz sentido.
ㅡ Vá em frente e me mate. Eu mereço…
Ernesto se aproxima de mim e me encara friamente.
ㅡ Merece… Entretanto, sua punição será conviver com a culpa de ter causado a morte dela e de seu próprio hijo. Não ouse se aproximar de mim novamente, Rico. Muito menos, contar a quem quer que seja sobre essa nossa conversa, nem mesmo o Juan. Caso contrário, não terei tanta piedade de você e começarei com seu hermanito. Hoy, perdí una hija, un hijo y un nieto.
Ele se retira, levando embora consigo a minha sanidade.
Saber que, por minha causa, ela morreu carregando um hijo meu, é uma sentença pior que a própria morte.