*Alex PoV*
ㅡ Bryan, veja isso!
Chamo meu noivo e companheiro no laboratório, sacudindo a mão de forma empolgada, sem tirar os olhos do microscópio. Ele está tão ansioso quanto eu, foram meses de trabalho árduo, em busca de uma cura quase impossível para o m*l que eu mesma me causei.
ㅡ Deixe-me ver! ㅡ Eu me afasto e ele analisa as amostras com seriedade. Depois, me encara com um largo sorriso. ㅡ Você é genial, sabia, Alex?
Apoio as mãos na cintura, com o orgulho estampado na face.
ㅡ Eu sei, gato. Fiz besteira naquela vez, porém agora tenho certeza que estamos no caminho certo!
Ele me abraça pela cintura e me tira do chão, dando voltas no próprio eixo. Ambos rimos, felizes como se não houvesse amanhã.
ㅡ Posso saber porque o casal está tão contente?
Bryan rapidamente me coloca no chão e ajeitamos nossos jalecos brancos desalinhados. Eu respiro aliviada por ver minha amiga de faculdade.
ㅡ Sharon! Você não vai acreditar! Venha!
Aponto com a cabeça para o microscópio e ela arregala os olhos ao analisar o conteúdo.
ㅡ Você conseguiu… ㅡ Os olhos pretos dela se enchem de lágrimas e seu abraço apertado me envolve. ㅡ Isso quer dizer que você vai ficar boa…
Dou alguns tapinhas gentis em suas costas e tento conter as minhas lágrimas. Depois, eu a afasto e a encaro com seriedade.
ㅡ Ainda não está finalizado. Precisamos da autorização para os testes finais.
ㅡ Eu cuido disso.
Bryan rapidamente reúne todas as pastas do projeto e se apressa para sair. Eu tusso contra o punho e ele pára na porta um momento.
ㅡ Não se esqueceu de nada?
Batuco com o indicador na minha boca e ele sorri lindamente, salientando aquelas covinhas maravilhosas. Retorna como um raio e me beija os lábios lentamente.
ㅡ Talvez, eu demore um pouco. Vou protocolar tudo antes de enviar. Não quero nada atrasando a liberação.
Eu bagunço seus curtos cabelos castanhos e suspiro.
ㅡ É… Já basta que eu tenha cometido um grande erro da última vez…
Sharon se aproxima e coloca uma mão no meu ombro.
ㅡ Alex, não se martirize dessa forma. Você é genial e…
ㅡ E arrogante. Eu tinha certeza que tinha feito a descoberta do século. Até sonhei com o meu Pulitzer. Quando os testes não foram autorizados na primeira vez, eu não quis acreditar. Acabei me condenando ao me usar como cobaia.
Bryan arruma as pastas nos braços e me encara com ternura.
ㅡ E está descobrindo como consertar as coisas. Seu Pulitzer virá, assim como Acapulco.
Sua menção ao lugar que escolhemos para passar a nossa lua-de-mel me enche de esperança. Bryan jamais desistiu de mim, mesmo sabendo que eu poderia não sobreviver. Sou muito grata por tê-lo ao meu lado.
Leva cerca de três semanas para termos o parecer sobre o nosso requerimento. A negativa me deixa desolada. Aos olhos dos avaliadores, o composto ainda não é seguro para testes em humanos.
ㅡ Bryan, eu não entendo o que estamos fazendo de errado… Como eles podem negar esse avanço farmacêutico tão significativo?
ㅡ Vamos dar um jeito nisso, Alex. Não se preocupe.
ㅡ Eu refiz todos os testes de laboratório dezenas de vezes! Todos deram o mesmo resultado! Como…
As palavras travam na minha boca. Os comandos estão em algum lugar do meu cérebro, porém não consigo alcançá-los. Vejo os lábios do meu noivo se moverem em sua face preocupada, contudo não entendo o que dizem. É como se a minha mente estivesse presa dentro de uma bolha de silêncio, cercada por um barulho infernal. Tudo é muito confuso. Fecho os meus olhos e tento me concentrar. Uma luta impiedosa para manter meus neurônios ativos e com alguma coerência. Quando dou por mim, me vejo sentada em uma cadeira no laboratório, com um homem familiar segurando uma seringa nas mãos trêmulas.
ㅡ Alex!
Consigo finalmente ligar o rosto ao nome, que sai espremido pela minha garganta.
ㅡ Bryan?
ㅡ Graças a Deus!
Ele me abraça forte e eu permaneço confusa.
ㅡ O que aconteceu?
ㅡ Você teve outro apagão. Foram dez minutos de ausência. Tive que te dar uma injeção, com medo que você não voltasse mais…
Esse é o nosso dia a dia aterrorizante. A cada crise, meu corpo pode esquecer como funcionar. Então, desenvolvemos um medicamento para aliviar os sintomas.
É temporário apenas. Nossa luta é por um composto que resolva o problema definitivamente. Justamente esse que foi rejeitado.
Eu o abraço com todas as forças, as lágrimas lavando o meu rosto, e sussurro em seu ouvido.
ㅡ Talvez… Seja melhor me deixar partir…
Ele se afasta de olhos arregalados, cheio de incredulidade.
ㅡ Como você pode pensar em uma coisa dessas? Alex, eu amo você!
ㅡ Eu também te amo, mas olha a vida que estamos levando! Não é justo com você!
ㅡ Nem com você! Vamos dar um jeito, então não desista! Não vou deixar!
Observo os frascos sobre a mesa e decido que é tudo, ou nada.
ㅡ Tenho certeza que fiz tudo certo. Você e Sharon viram os resultados… Se aqueles engravatados não querem aprovar, eu mesma faço o teste. ㅡ Bryan me encara com preocupação, quando tento encher uma seringa com o composto. Minhas mãos tremem tanto, que a deixo cair. Ele pega a seringa e faz isso por mim. Entretanto, ele não me entrega. ㅡ Bryan?
ㅡ Você ainda está muito debilitada. Confio em você e na sua capacidade. Farei eu mesmo o teste.
Meu corpo ainda está se religando, então sequer tenho forças para impedi-lo. Vejo-o se injetar a medicação no braço, sem ser capaz de fazer qualquer coisa a respeito.
Se não foi aprovado, é porque talvez ainda não seja seguro. Eu já estou na merd@ mesmo, então não faz diferença, mas ele é saudável…
ㅡ Não…
É só o que eu consigo sussurrar. Meus temores se confirmam quando Bryan cai ao chão, em convulsão. Eu me jogo sobre ele, tentando evitar que se engasgue com a própria saliva. Meu esforços são em vão e posso apenas testemunhar a vida desaparecer de seus olhos. Logo, seu corpo não mais se move e consigo finalmente gritar.
ㅡ Socorro! Alguém me ajude!
A partir daí, tudo é uma nova confusão. Funcionários surgem e nos separam, tentando reanimá-lo. Eu me debato nos braços de alguém que me segura. Policiais me fazem perguntas, enquanto meu noivo é colocado em um saco preto. Minha dor é tão grande, que não consigo responder nada de forma coerente. Apenas choro.
Sou jogada em uma cela como uma criminosa. No julgamento, ninguém tem piedade de mim, a não ser a Sharon. Ela tenta me defender, porém, por causa do nosso relacionamento próximo, seu testemunho não é levado em consideração, já que há uma vítima fatal. Sou acusada de quebrar as normas do comitê de saúde, criar um agente químico nocivo à vida humana e assassinato. No meu estado, Texas, a pena de morte vem para crimes hediondos. Sou lançada no corredor da morte, apenas esperando pelo dia da minha execução.
Sharon me visita com frequência, para cuidar da minha saúde. Pedi a ela que mantivesse segredo sobre o meu estado. Nesse inferno, se alguém souber como posso estar frágil, eu seria uma presa fácil. Ela contratou um bom advogado, na tentativa de reverter a minha sentença. Ela não quer desistir de mim. Meses se passam e essa espera angustiante só me faz desejar que eu seja executada rapidamente, então lhe peço que pare com suas tentativas inúteis de me salvar. Eu não quero.
Assim, não terei que conviver com a lembrança de ver a pessoa que mais amei nesta vida morrer em meus braços. Por minha causa.
Um dia, que parece como outro qualquer, sem luz e sem vida, um homem bem trajado entra na minha cela. Ele me mostra um distintivo do FBI e se apresenta.
ㅡ Alexandra Hamilton? Sou o agente Roland, do FBI.
Eu dou uma risada debochada, sentada no chão no canto da cela.
ㅡ Você está atrasado, agente Roland. Já colocaram a corda no meu pescoço.
ㅡ Na verdade, cheguei bem a tempo de retirar essa corda.
O sorriso dele é arrogante. De qualquer forma, não tenho interesse em me livrar. Há tempos, aceitei o meu destino de pagar pelo erro que cometi.
ㅡ Vá embora… Não há nada aqui para você…
ㅡ Está enganada, Hamilton. Você ainda tem muito a contribuir para a nação. Seu projeto era espetacular. Não foi aprovado por questões escusas. Você não é conhecida e alguém estava querendo ganhar tempo para te passar para trás. Levar o crédito que deveria ser seu.
Confesso que essa possibilidade passou pela minha cabeça…
ㅡ Eu já imaginava isso. Mas, o que importa agora? Ainda foi um erro desde o começo! Bryan está morto!
ㅡ Seu noivo não morreu por um erro seu. Ele apenas era alérgico a um dos componentes da fórmula que você criou.
ㅡ O quê?
Fico chocada com essa informação. Não havíamos feito testes alérgicos, pois estávamos aguardando a aprovação para o uso em humanos. Depois, tudo ficou tão confuso, que não me atentei a esse detalhe.
ㅡ Isso mesmo. Veja bem, nada pode trazer o seu noivo de volta e o seu trabalho foi destruído por causa do escândalo. Um tiro no pé de quem fez isso. No entanto, você é uma especialista no que se refere a compostos químicos. Imagine quantas vidas poderia salvar com o seu conhecimento. Vai deixar que a morte dele seja em vão?
Eu paro para pensar um pouco, pois numa coisa ele tem razão.
Se realmente eu fui sabotada, não posso deixar a morte do Bryan impune. Mas, se Roland soubesse que, daqui há alguns meses, esse meu conhecimento vai escoar como água pelo ralo, não estaria aqui. Vou escutar o que ele tem a dizer. Talvez, seja a chance de fazer justiça para o Bryan, mesmo que seja a última coisa que eu faça na vida.
ㅡ O que você sugere?
ㅡ Eu lidero uma divisão antiterrorismo, que atua de forma… Discreta. Não posso te dar o perdão presidencial, mas posso conseguir que sua pena seja convertida em perpétua, tempo esse que você prestará serviços à sua pátria. Existem muitos crimes relacionados a compostos químicos e doenças. Seu conhecimento no assunto seria muito bem aproveitado.
ㅡ Como vai fazer isso? Eu fui julgada e condenada à morte! Você não acha que a mídia e o público irão correr atrás disso, se a minha sentença for simplesmente mudada?
O sorriso maquiavélico que se apodera de seu rosto é assustador.
ㅡ Você cumprirá perpétua trabalhando para mim. Quanto a mídia e o público, nada que não possa ser manipulado e jogado no esquecimento. Isso é feito o tempo todo, não sabia?
Meu queixo vai ao chão, enquanto tento digerir o que ele acabou de dizer.
ㅡ Isso não seria um crime contra a sociedade? Você é um agente federal! Como pode dizer algo assim tão friamente?
ㅡ Hamilton, você é tão ingênua… O verdadeiro poder está na informação e no controle sobre ela. Concordo que não é algo tão ético, mas, às vezes, é necessário quebrar alguns ovos para se fazer um omelete. Sair da caixa e caminhar nas sombras da lei, se quiser fazer com que ela seja cumprida.
Simplesmente é chocante o seu ponto de vista. Jamais imaginei que pudesse ouvir algo assim de alguém na posição dele. Ele continua, me dizendo que mudarei de estado, indo para Nova Iorque, ficando isolada e sob vigilância federal. Assim, seria mais fácil que eu fosse esquecida. São tantos detalhes tão bem elaborados, que começo a imaginar o poder que esse homem tem nas mãos.
ㅡ Se eu aceitar, quanto tempo vou ficar presa a você?
ㅡ Perpétua, minha cara. Isso quer dizer a vida inteira.
Mordo meu lábio inferior, enquanto penso nas possibilidades.
É o único jeito de descobrir a verdade e fazer o cretino que me sabotou pagar. De qualquer forma, não vou viver tanto tempo assim. Uns três ou quatro anos mais? Então, mesmo que esse agente se ache tão esperto e esteja apenas tentando me enganar, no final, ele vai quebrar a cara.
ㅡ E quanto a pessoa que me sabotou? Se não fosse isso, Bryan não teria…
As palavras engasgam na minha garganta. Toda vez que me lembro da vida dele se esvaindo em meus braços, é sufocante.
ㅡ Não se preocupe. Seja lá quem for, descobriremos. Mas, para isso, você tem que estar viva e fora da cadeia. O que me diz?
Eu me levanto e estendo a mão para ele.
ㅡ Está bem.
Roland segura a minha mão firmemente.
ㅡ Bem vinda ao Bureau, Alexandra Hamilton.