004 - A inocente

1847 Words
*Daisy PoV* Eu nasci em Columbus, capital de Ohio. Meus pais eram donos de uma montadora de carros, muito bem conceituada no mercado. No entanto, para se dedicar ao trabalho e me dar um futuro melhor, eles tinham que trabalhar muito. Então, havia essa vizinha, a senhora Salete, que se ofereceu para ser minha babá. Ela me viu nascer e meus pais acreditavam que ela era de confiança. Todo o tempo que passei na casa dela foi uma tortura sem fim. Ela não tomava conta de mim e me deixava nas mãos de seu filho mais velho, na época com dezoito anos. Nunca gostei da forma como ele me olhava, parecia um lobo. Tive a certeza do monstro que ele era quando fiz oito anos. ㅡ Não! Por favor! Eu quero a minha mãe! ㅡ Fique quieta, mon petit. Vou ter que te punir de novo? Se bem que eu acho que a sua mãe seria bem mais colaborativa comigo. Fico congelada sobre a cama, completamente apavorada. Não quero apanhar de novo e também não gosto de como ele me toca. Ele é horrível e sempre me maltrata. Mas, eu permaneço quieta enquanto ele tira a minha roupa, pois não quero que machuque a mamãe, assim como faz comigo. Ele começa a tirar a própria roupa e eu viro o rosto, apertando os olhos bem forte, desejando que seja apenas um pesadelo do qual vou logo acordar. Porém, quando ele se deita sobre mim, sei que é real. Eu choro e sufoco com sua mão cobrindo a minha boca. ㅡ Não seja tão barulhenta, mon petit… Na minha luta desesperada por ar, acabo mordendo seus dedos. Ele grita e me bate forte na lateral da cabeça. ㅡ Sua m*l agradecida! Vou te ensinar uma lição! Quando ele ergue a mão para me bater de novo, a porta do quarto se abre e ouço a voz surpresa do irmão mais novo dele. ㅡ O que está fazendo com a Daisy? ㅡ Cai fora! Estou ocupado! O irmão mais velho salta da cama e tenta empurrar o caçula para fora de forma grosseira. O garoto de apenas doze anos parece petrificado, mesmo assim eu grito. ㅡ Por favor, me ajuda! Ele não responde e, logo, os dois estão fora do quarto. Ouço uma discussão aos gritos, porém não consigo entender o que falam. Eu me encolho sob o lençol, quando o monstro retorna minutos depois. Ele está ofegante e com um sorriso de pura maldade no rosto. ㅡ Então, onde estávamos? O caçula foi morar com uma tia pouco tempo depois, me deixando à própria sorte. Foram meses nesse sofrimento. Eu não comia direito e perdi o interesse pelos estudos. Mesmo dormir era difícil, pois tinha medo que ele aparecesse a qualquer momento. Não conseguia falar para os meus pais o que estava passando. Eu tinha muita vergonha e ele sempre dizia que, se eu não fosse boazinha, faria a mesma coisa com a mamãe. Não queria que ela sentisse tanta dor quanto eu. Papai diminuiu o ritmo de trabalho quando a mamãe foi hospitalizada, o que resultou no fato dele tomar conta de mim. Por um lado, eu estava feliz por não ir mais para a casa da vizinha, mas me sentia culpada pela minha mãe ter ficado doente. Acho que é castigo… ㅡ Filha, vou pedir a senhora Salete que fique com você hoje. Preciso ver umas coisas na empresa e passar no hospital para ver sua mãe. Só a simples menção do nome da mãe do monstro me deixa apavorada. Eu me agarro nas roupas dele, como se a minha vida dependesse disso. ㅡ Não posso ir com o senhor? Ele me encara com aquele cansado e impaciente olhar. ㅡ Infelizmente, não, Daisy. Seja uma boa garota e obedeça. Inflo minhas bochechas e cruzo os meus braços. ㅡ Eu não quero ir! ㅡ Daisy… Esse não é o momento para malcriações! Ele me dá as costas para ligar para a senhora Salete e eu começo a chorar. Mesmo assim, não sou ouvida. Nunca fui, como em todas as vezes que implorei para não ir para lá. ㅡ Se me mandar para aquele monstro horrível de novo, eu juro que fujo de casa! Papai me olha confuso e se ajoelha diante de mim. ㅡ Que monstro horrível? Está falando do filho mais velho dela? O que ele fez, Daisy? Minha voz está apertada na garganta e os soluços picotam a minha fala. ㅡ Ele… Eu não gosto quando ele me toca… Ele me machuca… Pela primeira vez, vejo algo diferente no rosto dele, além da distância que sempre manteve de mim. Ele fecha os olhos um momento, respirando fundo. ㅡ Como e onde ele te toca? Junto as minhas mãos abaixo da barriga, ainda com muita vergonha. ㅡ Aqui… Papai se levanta, urrando com uma raiva que nunca vi antes. Ele até quebra uma cadeira ao chutá-la. ㅡ Aquele desgraçado! Vou lá agora ensinar-lhe uma lição! ㅡ Não, papai! Por favor, não diga para ele que contei, se não ele vai machucar a mamãe! Ele ignora minhas súplicas e sai de casa, indo para a da vizinha. Quase arromba a porta de tanto que bate nela, porém ninguém aparece. Eu fico no quintal, chorando e ouvindo-o xingar o monstro de nomes que eu jamais tinha escutado antes. Logo, outros vizinhos saem de suas casas, tentando saber o que está acontecendo. Um deles diz que mãe e filho tinham se mudado no dia anterior, às presas. Eu fico aliviada por saber que ele não está mais aqui. Papai continua transtornado e me pega pela mão, para me levar de volta para dentro de casa. Ele diz que vai ligar para a polícia, porém seu celular toca. É do hospital. Quando seu rosto se distorce com a dor, eu temo pelo pior. Assim que desliga, ele me abraça forte, chorando mais que eu. ㅡ Filha, eu sinto muito. Sua mãe… Ele não consegue terminar e também não precisa. Sei que ela se foi. ㅡ A culpa é minha… ㅡ Não, Daisy! Por que diz isso? ㅡ Eu rezei para o papai do céu me livrar do monstro! Ele tirou a mamãe da gente como castigo, porque eu não fui uma boa menina! Suas grandes mãos envolvem o meu rosto e limpam minhas lágrimas, enquanto as dele ainda caem. ㅡ Escute bem o que vou te dizer, Daisy. Você não é culpada de nada! Eu juro, pela alma da sua mãe, que ninguém nunca mais vai te machucar! Você vai aprender a se defender, não importa o tamanho do monstro que tentar te tocar de novo! Você me entendeu? Não entendo o que ele quer dizer, mas concordo com a cabeça mesmo assim. Após o funeral da mamãe, papai passou semanas procurando pelo monstro, porém ele e a mãe sumiram sem deixar vestígios. Ele até contratou um detetive particular, que perdeu o rastro deles na Filadélfia. Nunca entendi essa coisa de escândalo até ficar mais velha, mas foi a razão que papai deu para não acionar a polícia. Sem um criminoso ou provas concretas, seria muito difícil conseguir qualquer coisa. O covarde do irmão caçula, que seria a única testemunha, não quis falar. Mentiu dizendo que não sabia de nada. Aprendi a odiá-lo, tanto quanto odiava seu irmão mais velho. Papai cumpriu sua promessa de me ensinar a me defender. Ele contratou professoras de Boxe e Muay Thai, pois não queria mais homens perto de mim. Pensei que isso fosse nos aproximar, porém ele se trancou ainda mais dentro de si mesmo. Ele se preocupava com a minha segurança, porém ficou tão frio e distante, que acabamos nos tornando dois estranhos vivendo debaixo do mesmo teto. Aos quinze, fui morar com a minha tia, pois não aguentava mais a solidão dentro de casa, mesmo quando ele estava por perto. Aos dezoito, me afastei de tudo e todos e decidi morar sozinha, tentando encontrar a paz de espírito que tanto me faltava. Trabalhei em lanchonetes e restaurantes para pagar a faculdade de Marketing. Tudo porque não queria depender do dinheiro do meu pai. Aos poucos, nosso relacionamento se reduziu a alguns telefonemas por ano. O terror da inocência perdida durante a infância, me perseguiu sem piedade até a vida adulta. Tive alguns namorados, mas nunca entreguei meu coração a ninguém. Simplesmente, não conseguia. Foquei na minha carreira para suprir a carência afetiva. Os treinos tornaram-se minha válvula de escape da raiva e frustração. Ao terminar a faculdade, me mudei para Nova Iorque e enviei currículos para todos os lugares, porém, sem experiência, era difícil conseguir uma vaga em qualquer ambiente de respeito. Um dia, andando pela rua, passo em frente a uma vitrine de um pet shop. Vejo vários cachorrinhos brincando uns com os outros, porém há um deitado no canto, afastado de todos. Quando ele me vê, levanta sua cabeça e abana o rabinho com empolgação. Um beagle branco com orelhas pretas. Mergulhar em seus olhos escuros e brilhantes me faz sentir uma enorme paz. ㅡ Olá, garoto… Porque não está brincando com seus irmãos? Eles foram maus com você? O filhote apenas late, como se tentasse me responder. Eu sorrio e entro na loja. Ao pegá-lo no colo e sentir suas lambidas no meu rosto, percebo ter encontrado um companheiro fiel. Um que nunca me decepcionará. ㅡ Moça, qual o nome dele para colocarmos na licença? Encaro esse bichinho carinhoso e me lembro de um desenho que gostava muito na infância. Um dos raros momentos em que eu realmente soube o que era ser criança. ㅡ Snoopy. Saio da loja com meu novo amigo de quatro patas e mais um monte de acessórios para ele. Agora, somos eu e Snoopy contra o mundo. Eu me sinto menos só. Consigo uma vaga em um escritório de uma firma pequena. Não é o emprego dos meus sonhos, porém vai ajudar a pagar o aluguel e a comida. Uma preocupação a menos. Minha busca por uma posição de trabalho melhor não cessa. Enquanto checo meus e-mails no celular, vejo uma resposta da McGregor Corporation. Ainda bem que estou sentada no sofá, caso contrário, teria ido ao chão. Há uma vaga no setor de Marketing e estão me convocando para uma entrevista. Olho empolgada para o meu cachorro, sentado aos meus pés. ㅡ Você não vai acreditar, Snoopy! Vou ter a chance de trabalhar na maior empresa do país! Ele late, abanando o r**o. Acredito que esteja me parabenizando. Eu rio com essa perspectiva. Acho que todo tutor deve ter essa paranoia de tratar o pet como se fosse gente. Embora, acredito que os animais sejam menos monstruosos que a maioria dos seres humanos… Eu me preparo como nunca para o processo seletivo e sinto meus esforços serem recompensados quando sou aprovada. Hoje é o meu primeiro dia de trabalho na McGregor Corporation. Sequer posso explicar como estou ansiosa. É uma empresa com uma ótima reputação no mercado, graças ao seu CEO, que é um gênio dos negócios à frente de seu tempo. Certamente, algo muito grandioso me espera nesse lugar.
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