Capítulo 28

1405 Words
Lila Anderson Acordei com a cabeça latejando e a sensação de que um caminhão de onze toneladas tinha passado sobre mim. Duas vezes. Levei um tempo pra abrir os olhos, e quando fiz me arrependi amargamente, a nossa a dor na cabeça piorou. Levei mais alguns segundos deitada tomando coragem para levantar. Sentei devagar, piscando contra a luz que entrava pela janela. O quarto girava um pouco. O meu cérebro tentava conectar os pontos da noite anterior. Havia vinho. Uma DR meio torta. Um beijo. Um beijo. Ah, Deus… Levei as mãos ao rosto. - Não, não, não… – murmurei. – Me diz que eu não pedi pra ele me beijar. Mas as lembranças voltaram com nitidez: o toque dele, a respiração entrecortada, o calor do corpo de Asher sob o meu… e aquela frase que ficou martelando na minha cabeça: “Quando eu tiver você na minha cama, vai ser com você sóbria.” Senti o rosto pegar fogo. Poderia cavar um buraco e me enterrar viva agora, como eu vou encarar ele agora. Apertei os olhos, tentando lembrar o que veio depois, mas só consegui flashes: ele me ajudando a levantar, a voz dele suave dizendo pra eu dormir… e depois que ele subiu, eu subi logo atrás dele e me deitei. Olhei para meu corpo e levei outro susto, eu não estava com essa roupa, eu estava com short jeans e uma camiseta regata, e agora… estou de pijama — o que significava que alguém me trocou. Não qualquer pessoa, Asher! - Ok, respira, Lila. Talvez eu mesma tenha feito isso. Talvez. Saí da cama tropeçando um pouco, e o espelho do banheiro me mostrou o desastre completo: cabelo parecendo ninho de corvo, um olho mais borrado que o outro, e uma marca vermelha no pescoço. Olhei fixamente pro reflexo e sussurrei: - Maravilhoso. Agora, além de bêbada, pareço ter participado de uma luta. – eu estava um desastre. Tomei um banho bem demorado, e quem sabe Asher não fazia igual os outros dias e já tivesse saído, depois do banho, coloquei um vestido, passei um pouco de maquiagem para esconder o vermelho no pescoço, terminei de pentear o cabelo, deixei secar naturalmente. Então abri a porta do quarto, olhei pelo corredor e sem barulhos, fui até a escada, e também não escutei nada, então desci. Fui até a cozinha, rezando pra Asher ainda estar dormindo. Mas claro, porque o universo adora me humilhar, lá estava ele — impecável, de camisa branca, mangas dobradas, preparando café com uma pose toda segura. Fechei os olhos e quando pensei em dar meia volta, escuto a sua voz: - Bom dia – disse ele, sem sequer erguer o tom de voz. - Bom… dia – respondi, tentando parecer natural, mas minha voz soou rouca e culpada, eu estava morrendo de vergonha. Ele me olhou por um segundo e depois apontou pra cafeteira. - Café forte. Pra dor de cabeça. Ok, ótimo, então ele sabe. É claro que ele sabe, é a segunda vez que bebo na vida. Peguei a caneca que ele me estendeu e murmurei: - Obrigada… por, hã… me ajudar a trocar de roupa. Um sorrisinho discreto apareceu no canto da boca dele. - Achei que seria mais confortável você dormir com uma roupa mais… leve. - Claro. – balancei a cabeça, fingindo que estava tudo bem. – Super confortável. Então veio o silêncio. Ele se virou pra pegar algo no balcão, e eu juro que precisei me apoiar na pia pra não afundar no chão de vergonha. Como ele consegue agir como se nada tivesse acontecido? Como consegue preparar café tranquilamente depois de termos nos beijado daquele jeito, e principalmente depois de me dizer... aquilo? - Dormiu bem? – ele perguntou casual, mexendo em algo no balcão. - Dormi sim – respondi, tomando um gole do café que queimou a língua, mas foi melhor que encarar a lembrança do beijo. – E você não saiu cedo hoje? - Vou trabalhar de casa hoje. - Ah… – murmurei, sem saber se sentia alívio ou decepção. Ele se aproximou, apoiando-se no balcão, e cruzou os braços. O olhar dele era tranquilo demais. E isso só aumentava o meu caos interno. - Você lembra de tudo o que aconteceu ontem? – perguntou, sério, mas o canto da boca denunciava diversão. O meu estômago deu um nó. - Defina “tudo”. - O suficiente. – ele ergueu uma sobrancelha. – Tipo o momento em que você abriu uma garrafa de vinho de mil dólares só pra discutir a nossa “relação profissional”. Abri a boca, chocada. É claro que eu sabia o valor, pesquisei antes de abrir, mas não sabia que ele falaria sobre isso. - Mil dólares?! – fingi surpresa eu era uma péssima mentirosa, e com certeza ele viu isso. - É. E você tomou a garrafa toda. Levei as mãos à cabeça. E a minha vergonha só aumentava. Ele riu, e o som foi suave, gostoso. - Foi divertido assistir você me acusando de querer fazer ciúmes pra Ivone. - Você lembra disso?! – exclamei, horrorizada. – Eu falei mesmo?! - Falou. Com convicção. – ele deu um passo em minha direção, e o meu coração parecia um tamborim. – Disse que eu era um clichê ambulante de filme rüim. - Eu… – coloquei a caneca na pia – … retiro o que disse. Você é só um clichê caro. – tentei fazer piada, mais eu queria muito que um buraco se abrisse e me engolisse. Ele riu outra vez, balançando a cabeça. - A parte do beijo você lembra também? Pronto. Que alguém me enterre viva pelo amor de Deus,Como eu encararia Asher agora. - Hm… depende. Você lembra? – retruquei, tentando escapar com humor. Ele se aproximou o suficiente pra eu sentir o perfume amadeirado que me deixava tonta. - Lembro. – a voz dele saiu baixa, rouca, e o olhar cravou no meu. – Como esquecer? Engoli em seco, desviando o olhar. - Pois é… – murmurei, pegando uma torrada só pra ter o que fazer com as mãos. – Foi… um erro. - Foi? Você acha mesmo isso? – perguntou, e havia um desafio ali, escondido. Olhei pra ele, tentando manter a firmeza. - Não era pra ter acontecido, me desculpa Asher, eu estava bêbada. – joguei a culpa toda na bebida Ele assentiu, sério. Então continuei: - Certo. – respirei fundo. – Então, podemos fingir que nada aconteceu. - Se é isso que você quer. A resposta dele deveria ter me deixado aliviada, mas, de algum jeito, doeu. Não por orgulho. Mas porque parte de mim queria que ele tivesse dito o contrário. - É. – menti. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Só o barulho da cafeteira preenchia o ambiente. E, por um instante, desejei poder voltar na noite anterior e… parar. Ou continuar. Eu já nem sabia. Pra quebrar o clima, ele pegou um tablet e começou a ler algo, como se nada tivesse acontecido mesmo. - Ah, quase esqueci – disse, sem levantar os olhos. – Hoje à noite teremos um jantar com a minha família. - Com seus pais? – perguntei, tomando um gole do café. - Não só eles. Meus tios, meu primo, e… Ivone. Engoli seco. - O que?! Ela vai estar lá? - Vai. – ele finalmente olhou pra mim, sério. – Mas não se preocupe. Você não tem nada com que se comparar. As palavras dele foram suaves, mas o olhar… aquele olhar me desmontou. E antes que eu respondesse qualquer coisa, ele completou: - Só… tenta não abrir outra garrafa de mil dólares antes do jantar, ok? Cruzei os braços, fingindo indignação. - Não prometo nada. Ele sorriu — aquele sorriso de canto que faz o coração perder o ritmo — e saiu da cozinha. Fiquei ali, sozinha, encarando a xícara, o reflexo trêmulo do café e o turbilhão dentro de mim. Tentei me convencer de que era apenas o vinho. Que o beijo, o toque, o olhar dele não significavam nada. Eu seria uma tola se achasse isso de verdade, assim que as palavras saíram da minha boca dizendo para gente esquecer, me arrependi. Porque mesmo sóbria, eu ainda queria que ele me beijasse de novo, e queria ir mais além, meu Deus eu devo estar louca mesmo. E agora ele acha que foi um erro graças a minha boca grande, preciso consertar isso.
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