###Mansão Rizzuto
— Me soltem, vocês estão me machucando! — o grito de Alicia ecoou assim que ela foi arrastada para dentro de casa.
— Solte essa v.a.d.i.a e saiam! — Olavo rosnou, a raiva na sua voz cortando o ar.
— Cala a boca, garota! Você vai acordar a minha princesinha que está no seu sono de beleza! — Valquíria esbravejou, a irritação estampada no seu rosto. — Eu falo, amor, essa menina está impossível. Você precisa pôr rédeas nela. Vê se isso são horas de chegar? Se alguém importante vê, a nossa família vira um falatório. Por que você não é igual à sua irmã? Enquanto os seus clientes te trazem, a sua irmã continua pura.
— Astrid, pura? — Alicia soltou uma risada sarcástica, um som amargo que desafiou a atmosfera opressora.
Num instante, Valquíria avançou sobre Alicia, mas a jovem reagiu instintivamente, empurrando-a com força e fazendo-a cair no sofá.
— Ai, minhas costas! Sua piralha! — Valquíria gemeu, o drama evidente na sua voz.
— Meu amor, você está bem? Como você ousa? — Olavo perguntou, os olhos faiscando de fúria ao encarar Alicia.
— É claro que não, essa ingrata! Criei ela até hoje, como se fosse a minha filha! — Valquíria disparou, encenando um choro convincente.
— Sua m.a.l.d.i.t.a, como ousa machucar a sua mãe! — Olavo gritou, visivelmente enfurecido, a ameaça clara nas suas palavras.
— Ela nunca foi e nunca será a minha mãe! — Alicia retrucou, o desprezo evidente no seu olhar para Valquíria, que levou a mão ao peito, fingindo dor e mágoa.
— Você vai se arrepender por isso! Eu tento, mas você não colabora! — Olavo respondeu, a irritação atingindo o auge na sua voz. Ele chamou novamente os seguranças que, sem hesitar, agarraram Alicia com força pelos braços, arrastando-a para fora da casa.
— Pai, o que eles vão fazer?? — Alicia perguntou, a voz tremendo de pavor ao perceber o destino.
— Você vai ver... — Olavo respondeu com uma expressão fria e inabalável, seguindo de perto os seguranças que arrastavam Alicia. No seu desespero crescente, ela reconheceu o caminho, e um pavor gélido a invadiu.
— Não, eu não quero voltar para aquele lugar! Por favor, pai! Me perdoe. Socorro, alguém... — ela implorou, a angústia rasgando a sua voz.
— CALA A BOCA! — Olavo bradou, desferindo um soco em Alicia que a fez cair, desacordada.
Arrastando a filha para trás da casa, ele abriu a porta de um pequeno casebre isolado no jardim. Os homens jogaram Alicia lá dentro com descaso, e Olavo sorriu, um gesto frio e c.r.u.e.l. Ao sair, ele proferiu ordens incisivas aos seguranças:
— Cuidem para que ela não fuja e para que ninguém entre sem a minha permissão! Ela só vai sair quando eu decidir que será a hora.
— Sim, senhor! — os seguranças responderam em uníssono, a disciplina militar nas suas vozes.
Lian, que ainda permanecia ali, sentiu o ímpeto de intervir, de resgatar Alicia, mas a razão lhe alertou: seria suicídio. Engolindo a impotência, ele pegou o telefone, discando o número de Dominic.
— Lian... — a voz de Dominic soou atenta do outro lado.
— Eu achei a pessoa por trás de tudo — Lian informou, a urgência no seu tom inconfundível.
— Você sabe onde me encontrar. Te espero! — Dominic respondeu, a determinação na sua voz evidente.
— Sim, senhor — Lian finalizou, encerrando a chamada.
Lian ligou o carro e seguiu para a casa de Dominic. Ao chegar, encontrou-o sentado, as mãos tingidas de sangue fresco, as mesmas roupas de horas antes e os machucados visíveis, ignorados.
— Senhor... você nem se limpou. Está com dor devido ao acidente mais cedo? Quer remédio? Você nem se preocupou consigo mesmo — Lian começou, hesitante, preocupado com o estado do chefe.
— Você não precisa ser formal comigo, já te disse isso. Não quero nada disso, estou bem, obrigado — Dominic respondeu, sem desviar os olhos da lareira, sua voz contida.
— Sim, desculpe-me — Lian disse, enquanto tirava o terno e a gravata. — Ela ficou se questionando sobre quem era você. Eu não disse nada.
— Ela ficou bem? — Dominic ponderou, a expressão preocupada substituindo a anterior. — O que você tem de informação?
— Na verdade, não. E confesso que estou bem preocupado com o estado dela agora. A casa em que levei Alicia é dos Rizzuto — Lian respondeu, abrindo uma cerveja para si.
— Como assim? Dos Rizzuto? — Dominic perguntou, confuso. — Então...
— Sim, ela é filha do Olavo Rizzuto! — Lian interrompeu, a revelação pairando pesadamente no ar.
— Continue... — Dominic insistiu, a sua atenção agora totalmente voltada para Lian.
— Quando cheguei lá, Alicia desceu e insistiu para eu ir embora antes dela entrar. Eu... — Lian suspirou profundamente. — Não fiz o que ela pediu. Apenas entrei no carro e esperei até que ela estivesse em segurança dentro dos portões, mas ali eu estava enganado.
— Ele suspirou novamente. — Quando os portões se abriram, lá estava Olavo. Alicia olhou para mim como se quisesse que eu saísse dali naquele momento. Agora eu entendo, ela estava com vergonha da cena que viria. Olavo aproximou-se da filha e, em seguida, bateu no rosto de Alicia com tanta força que a fez cair no chão. Ela levantou, tentando recuar em direção aos portões, mas os seguranças a arrastaram para dentro de casa. Eu queria ter tirado ela de lá, mas eu era o intruso ali.
— Aquele... m.a.l.d.i.t.o! — Dominic exclamou, os seus olhos brilhando com uma raiva gélida e perigosa.
— Ainda não acabou. Abri um pouco o vidro do carro para ver se ouvia gritos, mas tudo ficou em silêncio. Quando pensei em ligar o carro para sair dali, a porta da frente se abriu. Alicia dizia algo, que não queria voltar para algum lugar, quando gritou por socorro. Ele novamente a agrediu, mas o golpe foi mais forte, fazendo-a apagar. Depois, ele a arrastou, levando-a para trás da casa. Eu não consegui ver mais nada; os muros não deixaram. Minutos depois, ele voltou sozinho. Ou seja, os seguranças ficaram lá vigiando?
Dominic se levantou, bufando, a fúria em ebulição nos seus olhos.
— Amanhã cedo. Vamos visitar o nosso "amigo" Olavo.
— Mas se chegarmos assim, do nada, ele... — Lian começou, mas Dominic o interrompeu, um sorriso gélido brincando nos seus lábios.
— Quem disse que iremos do nada?! Vamos levar belos vestidos de presente para as víboras usarem no meu casamento e um belo relógio para o meu amigo Rizzuto. Quero saber o que ele anda aprontando. Pegue várias mini câmeras e escutas; quero esse kit em cada cômodo daquela casa. Vou derrubar aquele filho da p.u.t.a, mas primeiro, quero que ele sofra de uma forma que você nunca viu, Lian. A regra é clara: respeitar mulheres e crianças. Mas vimos que ele não usa essa regra; ele não respeita Alicia, que além de ser mulher, é a própria filha daquele c.r.e.t.i.n.o. Pelos órgãos responsáveis da máfia, isso é uma afronta.
— Vou preparar tudo, com perfeição! E te encontro de manhã.
— Obrigado, meu amigo. Vou tomar um banho para tirar esse sangue seco, preciso pregar os olhos um pouco. Você também. Depois que arrumar tudo, descanse, nem que seja por algumas horas. O dia será longo.
— Sim, pode deixar! Bom descanso — Lian respondeu, sua voz firme.
— Obrigado, irmão. Pra você também — Dominic retribuiu, antes de subir as escadas.
Enquanto Dominic se afastava, Lian permaneceu ali, com um foco renovado, formulando os próximos passos em sua mente com minuciosa cautela.
###Dominic
Debaixo do chuveiro, a água escorrendo pelo meu corpo, a minha mente girava, obcecada por como o caminho de Alicia se cruzou com o meu e como toda essa trama sombria se revelou. Era surreal perceber que ela era filha do homem que fazia parte do mesmo círculo de amigos do meu pai e, ao mesmo tempo, já esteve envolvido com a mesma máfia que ele. O mundo parecia estranhamente pequeno naquele momento, e eu me questionava sobre os desígnios que levaram as nossas vidas a se entrelaçarem de forma tão intensa.
Depois do banho, olhei para o relógio: já passava das quatro da manhã. A noite tinha sido intensa, repleta de revelações perturbadoras. Enquanto me secava, o meu celular começou a tocar, mostrando o nome de "Amor". A atmosfera pesada da situação desapareceu. Atendi, colocando no viva-voz, pois ainda estava me enxugando.
— Olá, sumida! Senti saudades, sabia? — Dominic disse com uma ternura que raramente demonstrava.
— Oi, meu docinho! Me desculpe por não ter te respondido antes; estava correndo com as coisas do grande dia — Cassandra respondeu, mas um gemido masculino ecoou, inconfundível, ao fundo.
— Isso... foi um gemido? Onde você está? — Dominic franziu a testa
— Gemido? Não, meu amor, você está ouvindo coisas. Estou em casa, inclusive, indo relaxar na banheira com rosas — ela apressou-se em justificar, a voz um pouco mais alta do que o necessário.
— Devo estar ouvindo mesmo — ele ironizou, embora a suspeita já se instalasse na sua mente. — Banheira? A essas horas? Posso ir aí, entrar com você?
— Claro que não! Quer dizer... Está tão tarde, meu amor, você deve estar cansado. Deixa para aproveitarmos na lua de mel — ela respondeu, com uma hesitação que não passou despercebida.
— Não vejo a hora! Só de pensar, o meu amigo aqui em baixo fica animado — Dominic provocou, forçando um tom leve.
— Eu também, não vejo a hora. Mas agora, preciso desligar aqui. Até, meu amor — disse, apressada.
— Até, princesa! — ele respondeu, com um nó na garganta.
Cassandra não desligou o celular e, ocupada demais, nem percebeu. Eu olhei para a tela: a ligação ainda estava em andamento. Tirei do viva-voz e levei o celular ao ouvido.
— Cassandra, alô... — Ninguém respondeu.
Continuei com o celular no ouvido e, logo, ouvi a voz de Diego, meu melhor amigo.
— [Diego: Isso, Cassandrinha, rebola, meu amor... hummmmm...] — [Cassandra: Assim?] — [Diego: Isso, assim... aahhhhhh... que t.e.s.ã.o.]
Peguei o outro celular e liguei para Diego, mas não obtive resposta. Enquanto aguardava, continuei ouvindo:
— [Diego: Eu vou g.o.z.a.r... minha linda.] — [Cassandra: Vai, meu amor, g.o.z.e para mim... aahhhhh.]
Quando Diego e Cassandra finalizaram, Diego comentou:
— [Que saco, Dominic me ligou! Ele deve estar chateado porque faltei à despedida de solteiro dele. Se ele soubesse que fiz uma particular para você. Fica quietinha, vou ligar para ele.]
Cerrei os dentes, incapaz de conter a frieza que invadia o meu coração.
— Frieza, sumiço... — Desliguei com raiva, os meus olhos faiscando. Um sentimento fervente de raiva e mágoa tomou conta do quarto. Ignorei o toque do celular, deitando-me com a vingança pulsando na minha mente, decidido a desmascarar os dois na frente de todos na manhã seguinte.
Eu me virei na cama, incapaz de encontrar conforto no sono. Os meus pensamentos tumultuavam na escuridão do quarto, questionando como eu, conhecido por minha astúcia e sagacidade nos negócios e na vida, pude ter sido tão cego em relação à traição de Cassandra e Diego.
A luz fraca da lua espreitava pela janela, lançando sombras nas paredes que ecoavam a confusão na minha mente. Eu me perguntava como tudo isso aconteceu, como não percebi os sinais, como não vi as brechas na fachada que sustentava o relacionamento. No escuro, eu refletia sobre os momentos compartilhados, as palavras trocadas e os gestos de carinho que agora pareciam distorcidos pela traição, o que eu pensava ser sólido e confiável ruiu em desilusão.
A noite avançava, mas o sono se esquivava de mim. A jornada pela frente era incerta, mas a determinação nos meus olhos permanecia, alimentada pela chama da vingança. O amanhecer traria consigo não apenas um novo dia, mas a promessa de uma revelação que mudaria tudo.