É uma manhã fria e sombria. Alicia não sabe as horas, nem se chove ou faz sol. A única certeza é o frio cortante que a envolve, a umidade e a escuridão do lugar. Mas o pior de tudo é a memória: foi ali que ela foi terrivelmente abusada. A c.r.u.e.l.d.a.d.e de seu pai, Olavo, ao jogá-la novamente naquele i.n.f.e.r.n.o, a consome. "Por que ele me odeia tanto? O que fiz para merecer isso?", ela se pergunta, enquanto as lágrimas escorrem sem controle, e o desespero de não saber quando o tormento terminará toma conta.
O som da chave girando na porta a faz entrar em pânico. O que ele fará agora? Um suspiro de alívio escapa dos seus lábios ao ver que é dona Anastácia, a governanta, quem entra.
Anastácia lança um olhar severo aos seguranças que guardam a porta.
— Saiam, preciso verificar os machucados no corpo de Alicia. O seu Olavo pediu-me para ver como estão, para esconder a noite.
Um dos seguranças tenta retrucar:
— Mas...
— Querem que eu chame o senhor Olavo? — Anastácia o interrompe, erguendo as sobrancelhas num desafio silencioso.
O chefe da segurança se adianta, baixando o tom:
— Não, senhora. Saiam, façam o que ela pediu! — ele ordena aos outros. Todos se retiram, fechando a porta e deixando as duas sozinhas.
Anastácia suspira, a tensão diminuindo, e se aproxima de Alicia com suavidade.
— Alicia, querida. Eu trouxe um belo café da manhã. Aproveitei que o d.e.m.ô.n.i.o tem visita, então não me viu preparando tudo. Como você está, meu bem?
Entre soluços, Alicia responde:
— Eu não aguento mais, Tacinha... O meu corpo todo dói, o meu psicológico está acabado. Eu só quero morrer...
Anastácia a envolve num abraço apertado, cheio de carinho.
— Não diga isso, meu amor. Tenho fé de que as coisas vão melhorar, e você voltará a ser aquela menina linda e sorridente que conheci na infância. Agora, tente se acalmar e coma, antes que o d.i.a.b.o desça aqui.
Alicia assente, os olhos fixos na comida que Anastácia preparou com tanto cuidado.
— Comece pela vitamina de frutas, está bem reforçada.
— Ela bebe um pouco e seus olhos se enchem de um brilho tênue. — Está incrível. Obrigada, Tacinha, mas você precisa parar de se arriscar por mim. Se um dia eu sair daqui, eu prometo que te levo comigo! — Alicia diz, com a voz embargada pelas lágrimas que agora escorrem sem controle. — Você é minha segunda mãe, e eu sempre vou te amar.
Anastácia respira fundo, comovida.
— Saiba que é recíproco, meu amor. Sempre que eu puder, estarei aqui para te proteger, agora come.
Alicia sorri gentilmente, um vislumbre de paz em meio ao tormento. Mas essa frágil tranquilidade é brutalmente interrompida, de repente, o som de passos ecoa pelo corredor, cada batida fazendo o coração de ambas disparar. Anastácia, num movimento rápido, esconde as poucas porções de comida e coloca as sobras que trouxe, a vista, uma precaução para o caso de serem descobertas. A porta se abre de forma brusca, revelando a figura imponente de Olavo, um pesadelo materializado diante delas, e a pouca luz que entra pelo vão ilumina o terror nos olhos de Alicia.
— Senhor... — diz Anastácia, abaixando a cabeça, a voz tensa.
Olavo entra no casebre, o olhar frio e desdenhoso, voltado para Anastácia.
— Trouxe as sobras do café para essa ingrata? — ele diz com desprezo.
— Sim, senhor! — Anastácia responde, a voz firme apesar do medo.
Olavo sorri, um sorriso vazio de qualquer compaixão, virando-se para Alicia.
— Sabe, Alicia, hoje é seu dia de sorte. — Olavo começa, um sorriso forçado e c.r.u.el. brincando nos seus lábios. — Temos uma ilustre visita aqui em casa: o filho do homem mais rico e poderoso de Toronto, Dominic Frost, o famoso príncipe da máfia. Isso me deixa tão feliz, pois ele não costuma visitar ninguém. Se ele veio aqui, é porque me acha importante.
Ele ergue o pulso, exibindo um relógio luxuoso com um brilho arrogante.
— Olha só o relógio que ganhei dele, um Patek Philippe, que custa em torno de R$ 44 milhões. Nunca ganhei um presente tão caro. Além disso, ele trouxe três vestidos luxuosos: um para a sua mãe, um para sua irmã... e um para você.
Alicia o encara, o corpo ainda dolorido, tentando manter a compostura.
— Infelizmente, talvez você não possa usar o seu vestido novo — Olavo continua, com um sorriso c.r.u.e.l nos lábios. — A sua irmã deixou claro que prefere o seu vestido ao dela. Provavelmente, ela o usará esta noite. Você terá que optar por um dos seus vestidos antigos. Mas não tem problema, certo? Afinal, não é como se você fosse merecedora de um vestido caro e luxuoso.
A cada palavra, o peso da humilhação se intensifica, mas Alicia não responde. Ela simplesmente abaixa a cabeça, lutando contra as lágrimas.
— Levante-se e utilize a entrada dos empregados, suba para o seu quarto, tome um banho e coloque uma roupa um pouco mais apresentável, retirada do seu modesto lixo-closet. Cubra esses hematomas todos e, caso alguém pergunte sobre a sua boca, apenas diga que, sendo desastrada como sempre, acabou tropeçando, caindo e se machucando.
Olavo vira as costas e sai do casebre, deixando Alicia e Anastácia para trás, como se a cena não tivesse a menor importância para ele.
Assim que a porta se fecha, Anastácia se aproxima de Alicia, a dor nos olhos dela tão profunda quanto o carinho.
— Fique forte, querida. Eu estou aqui para você.
Alicia, com lágrimas nos olhos, assente silenciosamente e começa a seguir as ordens de Olavo. Ela se levanta devagar, o corpo frágil sob o peso da dor física e emocional. Enquanto Olavo caminha pelos corredores luxuosos da casa, exibindo orgulhosamente o relógio caríssimo que recebeu de Dominic Frost, Alicia segue para a porta dos fundos, o coração pesado. As lágrimas escorrem pelo seu rosto, mesmo enquanto tenta esconder a dor que consome a sua alma.
Respirando fundo, ela tenta controlar as emoções enquanto entra pelo acesso dos empregados. Cada degrau que sobe parece mais pesado que o anterior, como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. As lágrimas correm livremente por seu rosto, misturando-se com a dor física e o sofrimento emocional que parecem não ter fim.
No quarto, ela fecha a porta atrás de si e desaba sobre a cama, sem forças para continuar fingindo que tudo está bem. Permite-se chorar, deixando escapar toda a angústia que guardou por tanto tempo. Os soluços ecoam pelo quarto vazio, e quando finalmente levanta o olhar para o espelho, vê os vestígios dos hematomas e cicatrizes. Os olhos inchados e cansados refletem o que palavras não conseguem descrever.
Alicia limpa as lágrimas com as mãos trêmulas, respirando fundo mais uma vez. Ela sabe que precisa enfrentar isso com coragem, mesmo que cada fibra do seu ser clame por desistir. Levanta-se devagar e caminha até o banheiro, decidida a se lavar, não apenas da sujeira física, mas também do peso simbólico que carrega. O banho é breve, mas, para ela, parece uma tentativa de purificar-se das dores que a perseguem.
Após se secar, veste uma roupa simples, escolhida às pressas no armário. Ainda que os hematomas estejam cobertos, o espelho não mente: os seus olhos continuam tristes, incapazes de esconder a profundidade do sofrimento que carrega. Com passos hesitantes, Alicia sai do quarto e desce as escadas. O coração bate acelerado, mas ela se força a continuar, pronta para enfrentar o que o destino lhe reserva — inclusive a presença de Dominic Frost, o homem cuja visita parecia significar tudo para seu pai, mas para ela... apenas mais uma sombra no meio de tantas escuridões.
###Uma hora antes
Dominic não pregou os olhos durante toda a noite. Quando o relógio marcou 08:00 da manhã, ele tomou um banho rápido e vestiu um terno impecável, acompanhado por um luxuoso sobretudo, já que o frio do dia estava cortante. Borrifou um perfume caro e desceu. Dona Zila já estava sentada à mesa, esperando por ele com o café da manhã. Ela é o seu xodó desde que veio morar sozinho, cuidando de tudo para ele.
— Bom dia, dona Zizi.
— Bom dia, meu menino. Você está horrível, essas olheiras, crendios! — ela disse, olhando-o com preocupação.
Dominic riu.
— Para de implicar comigo já cedo, Zizi. É impossível eu estar horrível!
— Isso é verdade — ela sorriu —, mas hoje você está um caco. É o dia do seu casamento, e por mais que aquela menina seja um s.a.c.o, e eu não concorde com esse casamento, você devia estar feliz e bonito. Mas parece triste e acabado.
Nesse momento, Lian entra no cômodo.
— Bom dia! Meu Deus, Dominic, você está um desastre. O que são essas olheiras? — Lian comentou, sem rodeios. — Se a tua irmã te visse agora, ia te arrastar direto para uma esteticista ou um spa, aquelas coisas de mulher. — Ele se inclinou e beijou a cabeça de Zizi com um sorriso.
— Bom dia, querido Lian! — respondeu ela com carinho. — Tome café.
— Obrigado, Zizi, mas já tomei com os meus pais hoje.
— Não vai haver casamento — Dominic declarou, cortando o clima descontraído.
Lian franziu a testa, confuso.
— Quê? Como assim?
— Ai, a minha reza é brava mesmo! — exclamou Zizi, erguendo as mãos como se comemorasse. — Quero dizer, o que houve, filho?
— Apenas apareçam na hora marcada da cerimônia, e vocês verão.
— Vou até comprar um vestido novo! Adoro uma fofoca. — disse Zizi, sem esconder a satisfação.
— Zizi, para de botar lenha na fogueira — interrompeu Lian, tentando acalmá-la.
— Nessa relação, eu era o único que amava de verdade. Mas vou ficar bem, não se preocupem.
Zizi olhou para Dominic com ternura.
— Filho, um dia você encontrará alguém que te ame de verdade, e será feliz.
— Não sei se volto a acreditar no amor, Zizi — ele respondeu, com um toque de amargura.
— Pode parar com isso, ou o meu sapato vai te acertar na cabeça. Sou boa de mira, viu? — Ela brincou, mas com um fundo de verdade. Dominic sorriu, tentando aliviar o peso do momento.
— Então, antes que a senhora me atinja, estou de saída. Pode tirar o dia de folga e se arrumar para o grande dia de hoje. Lian te busca mais tarde. — Ele beijou a bochecha de Zizi e saiu.
Já no carro, o silêncio foi quebrado por Lian.
— Eu não entendo...
Dominic encarou a estrada à frente, os pensamentos ainda pesados.
— Cassandra está me traindo com o Diego. Ouvi eles ontem, enquanto estavam t.r.a.n.s.a.n.d.o e aquela v.a.d.i.a falava comigo ao telefone.
Lian arregalou os olhos.
— C.a.r.a.l.h.o, Dominic!
— Mas hoje eles vão me pagar. — O tom de Dominic era frio e decidido. — Agora, vamos comprar os vestidos para levarmos à casa dos Rizzuto. E o relógio, que pedi?
Lian sorriu, pegando o objeto no banco ao lado.
— Está aqui, com a escuta instalada. Baixa esse aplicativo no seu celular — disse ele, mostrando a tela do próprio telefone. — Assim, você poderá ouvir tudo quando quiser.
Dominic sorriu de volta.
— Adoro a minha equipe. Vejam só a eficiência com que vocês trabalham para mim.
Lian riu, agradecendo o elogio, enquanto o carro seguia em direção ao próximo passo do plano.