"A Mansão Rizzuto"

1987 Words
###Dominic Chegamos à casa de Olavo com as compras em mãos. Ele veio nos receber com um sorriso tão largo que parecia forçado, quase grotesco. Tudo o que eu mais queria era esmagar aquele sorriso cínico, mas sabia que ainda não era o momento certo. Logo atrás dele, as duas cobras surgiram: Valquíria e Astrid. Astrid era bem conhecida, já que Olavo e Valquíria adoravam exibir a filha em todos os eventos sociais, ao contrário de Alicia, que raramente era vista com eles em público. Essa diferença já me causava um arrepio. Olavo nos convidou para entrar, e assim fizemos. Nos acomodamos na sala de estar, um cenário de luxo superficial, e logo entregamos os presentes. Valquíria e Astrid ficaram deslumbradas com os vestidos luxuosos e caríssimos, cada um cuidadosamente nomeado para realçar a exclusividade. Percebi que Astrid não conseguia tirar os olhos do vestido que escolhi para Alicia, elogiando-o várias vezes com uma admiração disfarçada de inveja. A inveja que ela sentia pela irmã era palpável, clara no seu olhar. Foi então que perguntei sobre Alicia, o desgraçado de Olavo inventou que a filha estava deitada com dor de cabeça, mas que logo desceria. Como se eu não conhecesse a verdade por trás daquela cena. Minutos depois, Alicia apareceu no topo da escada. Vestia roupas simples, que cobriam o seu corpo da cabeça aos pés, e mancava visivelmente. O seu olhar estava carregado de uma tristeza tão profunda que doía só de olhar. Quando me viu, os olhos dela se arregalaram. Senti o medo dela de longe. Entendendo a situação e o papel que precisava desempenhar, fiz de conta que não a conhecia. — Então, esta é a filha mais velha? — perguntei, caminhando lentamente na sua direção, ignorando a surpresa de todos. — É um prazer te conhecer, sou Dominic! — Com um movimento calculado, tomei a sua mão delicadamente e a beijei, sentindo a pele fria e um leve tremor. Valquíria e Astrid ficaram boquiabertas, a cena claramente as pegou de surpresa. — O prazer é todo o meu, senhor! Sou Alicia — respondeu ela, sua voz suave, quase um sussurro. — Um belo nome, Alicia. O vestido que escolhi para você combina perfeitamente com os seus olhos. E, acredite, eu nem sabia. — os meus olhos se fixaram nela, analisando cada detalhe. — Hoje, depois da minha noiva, você será a atração da noite. — Virei-me para Olavo, com um tom de quem realmente não entendia a situação. — Mas sabe, Olavo, tem algo que não compreendo. Se ela é a mais bonita, sem ofensas, Astrid — lancei um olhar de puro desdém para a outra filha, que encolheu os ombros —, por que Alicia quase nunca aparece nos eventos? Olavo forçou um sorriso, claramente desconfortável. — Ela não gosta de aparecer, é muito tímida e desastrada. Olha só esse machucado na boca dela, foi uma bela queda, não é, querida? — Ele se virou para Alicia, buscando a sua confirmação. Alicia apenas assentiu, abaixando a cabeça. A minha voz se endureceu, cortando o ar como uma lâmina. — Com a minha experiência em lidar com situações... intensas, consigo distinguir claramente entre um ferimento acidental e um resultado de agressão. E você também, não é? — O rosto de Olavo endureceu, e ele engoliu em seco, o nervosismo evidente. — Alicia, alguém te machucou, querida? Como ousam tocar na filha de Olavo Rizzuto? — perguntou ele, com um tom que tentava soar protetor, mas que era carregado de cinismo e falsidade. Alicia, com os olhos marejados, abaixou a cabeça, incapaz de responder, presa entre o medo e a humilhação. — Papai te fez uma pergunta, irmãzinha! — provocou Astrid, cruzando os braços e observando Alicia com um desprezo que m.a.l conseguia disfarçar. — Não pressionem Alicia — intervi, erguendo a mão de leve para silenciar Astrid. — Se ela não quer responder, não precisa. Mas, Alicia, se tiver com algum problema, me procure. Principalmente, se foi um homem que te machucou. Isso, no nosso círculo, no mundo em que vivemos... bem, é algo muito grave. Não é mesmo, Olavo? Olavo, tentando manter a compostura e a pose de pai zeloso, respondeu: — Com certeza! Mas não se preocupe, Dominic, se eu descobrir que alguém encostou num fio de cabelo da minha princesinha, eu mesmo dou um fim nessa pessoa com as minhas próprias mãos. Lian, percebendo a tensão no ar, se levantou rapidamente. — Com licença, preciso ir ao banheiro. Posso? — É claro, suba as escadas e fique do lado direito — instruiu Valquíria, com um sorriso de anfitriã perfeita. — Obrigado! — respondeu Lian, lançando um olhar significativo para mim, um sinal claro de que ele iria rapidamente distribuir as câmeras pelos cômodos da casa. — Enquanto Lian vai ao banheiro, que tal eu fazer um tour pela casa de vocês? Achei-a bem bonita e quero conhecê-la melhor — propus, com um brilho de curiosidade nos olhos, mas com um plano em mente. — É claro, será um prazer te mostrar a nossa casa. Não é uma mansão como a sua e a dos seus pais, mas, modestamente, Valquíria tem um ótimo gosto na decoração — respondeu Olavo, orgulhoso. Dominic sorriu, assentindo com a cabeça. Ao lado de Olavo, sua esposa e as filhas, ele começou a caminhar, mas antes lançou um olhar discreto para Lian, que já havia desaparecido pelo corredor. Alicia, atrás deles, caminhava com um olhar vago, como se estivesse num mundo distante. Eu, sendo inteligente e observador, não deixei de notar o seu estado, mas preferi permanecer em silêncio. Logo, a irritante voz de Astrid interrompeu meus pensamentos. — Esse quadro aqui fui eu que pintei! — ela exclamou, apontando para uma grande pintura na parede, com ares de superioridade. Olhei para a obra com desprezo e comentei: — Horrível, não gostei. Eu notei. Alicia ao ouvir as minhas palavras, não pôde evitar um sorriso discreto. No entanto, ao olhar para o pai dela, percebi que Olavo havia notado a reação de Alicia, e o sorriso rapidamente desapareceu dos lábios dela, trocado por um temor que me apertou o peito. Aquele homem era um monstro. — Olavo, entregue o convite de Dominic, aproveitando que ele está aqui — sugeriu Valquíria, mudando de assunto para desviar a atenção da minha crítica. — Convite? — perguntei, intrigado. — Sim, a inauguração da minha galeria! — anunciou Astrid, com um sorriso radiante de quem esperava admiração. Os meus olhos se voltaram para Alicia. Ela lançou um olhar triste para o pai, a injustiça era evidente, e o meu sangue ferveu. — Vou ver como estará a minha agenda! — respondi, percebendo a decepção nos olhos de Alicia, uma pontada de dor que me atingiu diretamente. Em seguida, questionei, ignorando as outras duas: — Você também irá gerenciar a galeria, Alicia? — Oh, não. Eu nunca permitiria. — disparou Astrid, cheia de desprezo, sentindo-se superior. Eu estava observando Alicia com uma atenção quase protetora, e agora desviei o meu olhar para Astrid, com uma expressão de desdém que a fez encolher. Aquela garota era repugnante. Eu torcia para que Lian agisse rapidamente, pois não aguentava mais a voz irritante de Astrid sussurrando coisas sem sentido no meu ouvido. — Já estou ficando cansado, e hoje tenho que estar disposto, pois é o meu casamento, né? — afirmei, mudando de assunto e insinuando a pressa.— Vamos para o andar de cima? Olavo olhou para Valquíria e Astrid, avaliando a situação e o que seria prudente mostrar. — Algum problema? — indaguei, percebendo a hesitação e lançando um olhar afiado que fez Olavo vacilar. — Claro que não, vamos lá! — respondeu Olavo, forçando um sorriso. Atrevessamos a sala e, para meu alívio, encontramos Lian sentado, sorrindo como se nada tivesse acontecido, o que significava que ele já tinha feito o seu trabalho. Ele se levantou, juntando-se a mim. Subimos as escadas. — Aqui à esquerda, temos o nosso quarto, meu e da Valquíria, e mais seis quartos para visitas — explicou Olavo, apontando os cômodos. — São todos lindos e elegantes; realmente, a sua esposa tem bom gosto — elogiei, e Valquíria sorriu, olhando para Astrid e Olavo, cheia de orgulho... Patéticos. — Vamos continuar; à direita, temos os banheiros e os quartos das meninas — prosseguiu Olavo, tentando apressar o passo. Parei em frente a um quarto com um quadro gigante e extravagante na parede, rapidamente associando-o ao estilo de Astrid. O ambiente era lindo, arejado e espaçoso. Em seguida, caminhei mais um pouco e me deparei com um quarto úmido e velho, quase sem móveis. Apenas um mini guarda-roupa caindo aos pedaços e uma cama gasta que parecia prestes a se espatifar no chão. Sem esperar mais, decidi entrar no quarto. Olavo e as duas mulheres seguiram-me, apavorados, suas faces pálidas. — Quem dorme aqui? — perguntei, olhando ao redor com desdém. — Ah, nesse quarto? Ninguém! — respondeu Olavo, tentando evitar a situação. — Mas a cama está feita e tem umas roupas ali naquele velho guarda-roupa — observei, olhando em volta. — Roupas? Isso não serve nem para pano de chão — respondeu Astrid, com desdém, como se o desrespeito fosse um esporte. Na porta, Alicia ouvia tudo, engolindo o choro, e o meu coração se apertou. Eu queria estrangular aquela garota. Eu continuei, indignado: — Olhem esse mofo! Quem sobreviveria dormindo aqui? Fico feliz que esteja vazio; esse lugar deveria ficar trancado. E o quarto da Alicia, cadê? — Está em reforma, por isso ela está dividindo com a Astrid — explicou Olavo, a mentira descarada na sua voz tentando justificar o injustificável. Eu sabia que o quarto em que estava era de Alicia, mas ignorei o que vi e ouvi por ora. A raiva que sentia naquele momento era quase palpável, e a vontade de acabar com Olavo ali mesmo era forte, mas ainda não era a hora, eu tinha um plano. — Bom, preciso ir; tenho que me preparar para a noite. Espero vocês! — anunciei, mudando de assunto abruptamente, sinalizando o fim da visita. — Estaremos presentes, com certeza! Te acompanharemos até o seu carro — disse Olavo, com um sorriso forçado, visivelmente aliviado por me ver partir. — Claro, obrigado! — respondi, já me virando. Ao passar por Alicia, parei e, num sussurro que apenas ela e eu pudéssemos ouvir, disse: — Fique longe desse quarto; esse mofo pode te fazer m.a.l. Te espero à noite; o vestido ficará lindo em você. — Eu a encarei, uma promessa silenciosa no meu olhar, e os três a observaram de longe, curiosos. Alicia apenas sorriu e assentiu com a cabeça, tentando esconder a dor que sentia, mas a esperança nos seus olhos era um lampejo que me deu uma faísca de satisfação. Já lá fora, me despedi, agradecendo a hospitalidade com uma formalidade gelada. Antes de entrar no carro, lancei um olhar para cima, avistando a janela do quarto de Alicia. Ao vê-la, acenei com a cabeça, oferecendo um sorriso carinhoso, uma mensagem clara de que eu não a esqueceria. Astrid, percebendo o gesto, seguiu o meu olhar e viu a irmã na janela; Alicia, percebendo que a irmã também estava olhando, se afastou rapidamente, voltando às sombras da sua realidade. Lian ligou o carro e saiu, comigo ao seu lado. A vingança estava apenas começando. — Era para ele ter me notado e não aquela bastarda! — exclamou Astrid, o desprezo evidente na voz, a inveja consumindo-a. — Concordo, filha! Você é mil vezes mais bonita que ela — apoiou Valquíria, tentando acalmar a filha com falsas palavras. — Parem com essas paranoias — interrompeu Olavo, sua expressão severa e impaciente. — Vocês acham que um homem como ele, olharia para Alicia? Ele apenas despreza gente como ela. Vamos subir; quero ter uma conversinha com aquela bastarda. Os três entraram na casa, subindo em direção ao quarto de Alicia, determinados a confrontá-la.
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