O colégio novo parecia um teatro. Os corredores eram largos, os alunos bem vestidos, os professores formais demais. Melissa caminhava com os ombros tensos, tentando se encaixar num papel que não conhecia. Era a filha do “Senador Sampaio” agora e todos sabiam disso, e era muito triste não ser mais a Mel.
Nas primeiras semanas, ela sentou-se sozinha no refeitório, não tinha vontade de fazer amigos ou participar das conversas onde as garotas somente falavam de coisas fúteis, ali naquela escola ninguém brincava, ninguém era verdadeiro.
Então certo dia estava sozinha na mesa do canto do refeitório, mexendo no suco sem vontade de beber e olhava o lanche sem fome. Quando ouviu uma voz atrás dela:
— Esse suco parece mais um experimento químico do que algo pra beber, de tão concentrava que você meche com ele.
Quando ela se virou para olhar quem era o dono daquela voz. Havia um garoto de cabelo bagunçado e sorriso fácil a observava com curiosidade.
— Sou o Jairo. — Disse ele, estendendo a mão. — E você é a famosa Melissa Sampaio?
— Não sou famosa. — Respondeu ela, surpresa com o tom leve.
— Ah, então é só coincidência você ter um segurança andando atrás de você pela escola e um pai que vive na televisão?
Melissa riu achando graça da maneira debochada que o garoto falava da sua situação. E pela primeira vez em dias se sentiu confortável na presença de alguem.
A amizade entre eles foi imediata. Jairo não se importava com sobrenomes, nem com a postura impecável que ela tentava manter. Ele era filho de um casal de médicos, mas vivia de forma livre, seu uniforme não era impecável, ele fazia perguntas sinceras, contava histórias absurdas que vivia, e ria de si mesmo com uma liberdade que Melissa invejava.
— Você é diferente, de todos aqui. — Disse ela, certa tarde, sentados sob uma árvore no pátio.
— E você é mais do que esse sobrenome pesado, é uma garota linda, inteligente e de opinião própria. — Respondeu ele. — Só precisa lembrar disso.
E foi assim por um tempo, ela tinha um amigo que permitia que ela fosse ela mesma, riam de coisas banais, as aulas de reforço passaram a ser prazerosas com a presença dele, ate quando ela ia as aulas de piano, ele estava lá.
Aos 16 anos um beijo roubado mudou a relação dos amigos, começaram a namorar. Jairo tornava-se um rapaz gentil, divertido, mas também passou a ter uma certa ambição. As conversas leves mudaram o tom, ele passou a falar sobre política com paixão, sobre mudar o mundo, sobre fazer diferente. Melissa o ouvia com admiração, mas também com medo de perder o pouco de liberdade que havia conquistado, naqueles breves momentos com o amigo e namorado.
Aos 18 anos, casaram-se. Vitor aprovou com entusiasmo.
— Finalmente, alguém digno do nome Sampaio. — Disse o senador, apertando a mão de Jairo com orgulho, no dia do casamento deles.
Melissa sorriu. Mas por dentro, algo se calava, e ali naquele momento vendo aquele aperto de mãos e o sorriso de ambos ela soube, que perdera o amigo.
Jairo entrou para a política. Tornou-se deputado jovem, carismático, popular. Melissa, por sua vez, tornou-se a esposa perfeita. Vestia-se com elegância, sorria nas fotos, acompanhava o marido em eventos e entrevistas. Eram considerados pelos eleitores jovens, como o casal queridinho.
— Você está linda, amor. — Jairo, sempre dizia antes de cada aparição pública.
— Obrigada. — Respondia ela, ajustando o vestido, o cabelo, o sorriso.
Mas por trás das câmeras, havia silêncio, havia frustrações. Melissa abandonou seus planos de estudar psicologia, deixou de escrever, parou de questionar. Tornou-se um adereço para o marido, a mulher que sorria para as fotos, paras as pessoas em público, e completamente sem voz própria.
Certa noite, após mais um evento político, Melissa tirou os sapatos e se sentou no chão do quarto. Olhou para o espelho. A maquiagem ainda intacta, o vestido perfeito, mas os olhos... os olhos estavam vazios, e ela procurava a onde estava aquela menina que cresceu no bairro Santa Felicidade de corria descalço com a amiga Julia e comia bolo de fubá com mãe.
— Você está bem? — Perguntou Jairo, entrando no quarto.
— Estou — mentiu ela.
Ele se aproximou, a tomou nos braços e a olhou com desejo, sua mão desceu o zíper do vestido e ela viu desejo em seus olhos. Porem no momento seguinte o telefone tocou, então ela a beijou sua testa e saiu, já falando algo com algum dos seus assessores.
Melissa ficou ali, em silêncio, encarando o reflexo no espelho com o vestido aberto.
"Quem sou eu, quando ninguém está olhando?"