“Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?”
(Clarice Lispector - A hora da estrela)
Todos olhamos para onde Milena apontou com a cabeça. Na outra ponta da sala, vestido de Rei do Baile, estava Fred Maciel. Irmão gêmeo de Alana Maciel, tão loiro, alto e esguio como a irmã. Lindo como um bolo de aniversário antes dos parabéns… E eu adoraria meter o dedo naquele glacê, sorrateiramente, e provar seu gosto bem devagarinho…
Fred era um garoto prodígio. Presidente do Grêmio Estudantil e também líder do Grupo de Teatro do Santa Virgínia. Aliás, os membros desse referido grupo, chamado convenientemente de Os Inadequados, ocupavam a base da Escala de Popularidade do colégio. Impopulares, eram considerados esquisitos por não se encaixarem em nenhuma das castas sociais anteriores. As MDV (Meninas do Vôlei) e os MDF (Meninos do Futsal) adoravam ir nas apresentações dos caras, só para zoar.
Fiquei hipnotizado, observando Fred por alguns segundos. Ele conversava animadamente com outros Inadequados, que estavam fantasiados numa vibe “A Vingança dos Nerds''. Também tinham aqueles que faziam alusão a personagens famosos da série "Glee''. Parecia um rei com seus súditos, de coroa e tudo.
Até que Fred flagrou a gente a olhá-lo de longe. Sorriu. Que sorriso, p**a que pariu! Despediu-se de seus amigos e veio até nós. Meu coração gelou.
— Toda Rainha do Baile precisa do seu rei, ou melhor, do seu Zack Siler! — Milena anunciou e se apoiou no ombro ossudo de Fred, quando ele se aproximou.
Não consegue mais ficar de pé sozinha, querida?
— Oi, Fred. — Cumprimentei e procurei mascarar meu nervosismo. — Tudo bem?
Estendi a mão para ele, mas o cara retribuiu meu aperto e me puxou para um abraço. Aproximou o rosto da minha orelha e sussurrou: “Não desisti de você ainda…”
Engoli seco. Fred queria de todo jeito que eu entrasse para Os Inadequados. Mas sendo um N.A.D.A. eu já era um dos brinquedos favoritos dos Meninos do Futsal, se virasse um Inadequado, então… Seria meu fim! Nem mesmo a paixonite que eu tinha por ele parecia motivador suficiente para assassinar minha (cambaleante) popularidade no colégio.
Então, começou a tocar “Popular” da Ariana Grande com o Mika. Milena deixou escapar um gritinho e disse que precisava dançar ao som daquela música. Ela foi puxando Fred para o meio da sala, como se o cara fosse um boneco sem vontade própria. Ridícula. Letícia e Pedro acompanharam os dois e eu aproveitei para ir atrás de Lara e pegar bebida.
Atravessei a sala lotada, sentindo-me triste, confuso e puto ao mesmo tempo. Minha raiva era tanta que eu empurrava as pessoas, sem a menor cerimônia, para poder passar. Até esbarrei em um Menino do Futsal que esbravejou: "Tá doido, Sininho?", mas nem olhei para trás e continuei meu caminho.
Lara apareceu, vinda de uma porta lateral da sala, que dava passagem para a piscina. Seus cabelos pareciam mais desgrenhados do que o proposital e ela segurava dois copos cheios do tal “ponche batizado”.
— Meu Deus, Tavinho, segura aqui para mim, que eu tô me mijando... — Ela implorou e me entregou os dois que segurava. Cheirei um deles para conferir e, sim, estava com cheiro de álcool!
— Mas cadê minha bolsa? E o dinheiro?
— Sua bolsa tá na cozinha, deixei lá guardada num cantinho. O dinheiro eu te entrego assim que eu voltar do banheiro. Não sai daqui, que eu já volto!
Lara se embrenhou naquela massa de cospobres de personagens da Sessão da Tarde. Entornei meu copo de "ponche" de uma só vez. Essa era forte! Ah, eu só precisava esquecer Fred... Fiquei ali parado esperando por dez, quinze, vinte minutos... Até dar meia hora e nem sinal da minha amiga.
Ela estava demorando demais até mesmo para os padrões femininos. Cansei de esperar e atravessei a horda de convidados, indo em direção ao banheiro. Nem sinal dela. Cadê você, demônia? Dei mais uma procurada ali por perto e nada.
Lara tinha sumido. Vasculhei todos os pontos possíveis: o jardim de entrada, a piscina, a sala e o segundo piso. Ela tinha conseguido esconder seu corpo nada pequeno em alguma parte daquela casa. Tentei ligar, mas só chamou. Terceira, quarta, quinta tentativa; todas deram caixa-postal. Me atende, infeliz, me atende! Eu praguejava enquanto ouvia as chamadas do outro lado sendo solenemente ignoradas.
Voltei para a pista de dança. Os acordes iniciais da música do filme "Footloose'' começaram a tocar e meu corpo reagiu quase que instintivamente à batida oitentista e nostálgica. Footloose era o meu filme favorito e também de Tia Dóris. A gente sempre assistia juntos quanto podíamos (e quando ela estava sóbria).
"Been working so hard
Tenho trabalhado tão duro
I´m punching my card
Eu bato o meu cartão
Eight hours, for what?
Oito horas, pra quê?"
Quer saber? Cansei de ser o porta-copos da Lara, já! Virei o ponche que Lara tinha pedido para eu segurar e, talvez pelo movimento da cabeça ter sido muito rápido, senti uma breve tontura. Cambaleei lentamente entre a multidão e limpei as lágrimas involuntárias com as costas das mãos.
"Cut loose, footloose
Relaxar, sem nada para te prender
Kick off your Sunday shoes
Jogue longe seus sapatos de domingo"
Neste momento o refrão da música ecoou pela casa e todos se reuniram em volta de mim, fazendo movimentos complexos e sincronizados com os pés. Mesmo estando tomado por um torpor crescente, meu corpo todo seguia a elaborada coreografia com surpreendente desenvoltura.
Um canhão de luz se acendeu no segundo andar e se direcionou para a pista de dança, iluminando os rostos eufóricos que se divertiam sob o vozeirão do Kenny Loggins. Tomei a dianteira da multidão e todos seguiam meus movimentos com sincronia.
"(First) You've got to turn me around", virei-me para a direita e os convidados me seguiram. Um dos Meninos do Futsal tirou a jaqueta de couro e jogou para o alto.
"(Second) And put your feet on the ground", pulei o mais alto que pude e fui acompanhado pelos presentes... Dois esquisitões do grupo dos Inadequados, vestidos de Lewis Skolnick e Gilbert Lowe do filme Vingança dos Nerds, fizeram o mesmo de forma extremamente sexy!
"(Third) Now take a hold of your soul", abracei meu corpo e andei para trás, sendo copiado pelas Apimentadas do Time de Futsal, por Letícia de Julia Stiles e Pedro de Heath Ledger, por Milena e Fred representando a realeza do baile, pela Regina George da Alana e seu namorado Todd A. Anderson Pelizari…
"(Four) Whooooooooa, I'm turning it", fechei os olhos e virei com tudo para a frente, jogando-me no chão de braços abertos…
Ouvi gritos e palmas atrás de mim. Todos tinham adorado a minha performance pelo visto. Abri os olhos e senti a visão embaçada, forçando-me a piscar algumas vezes para focar. Eu estava ajoelhado no chão da sala de Milena, cercado por rostos cheios de estranheza, pena e, na maioria dos convidados, de deboche. Alguns riam abertamente da minha cara, enquanto eu ofegava de joelhos e com mechas de cabelo caídas na frente do rosto, de onde escorriam gotículas de suor.
Milena veio até mim e me ajudou a levantar. Fiquei em pé com dificuldade e ela se ofereceu para me apoiar enquanto eu andava. Vi Fred ao seu lado com uma expressão preocupada e aquilo despertou um ódio incomum dentro de mim. Empurrei a anfitriã com o resquício de forças que me restavam e procurei, com dificuldade, o primeiro lugar onde eu pudesse me sentar.
Deixei meu corpo cair em um sofá chique de couro. Tudo rodava... Eu me sentia cada vez mais tonto. Nunca na minha vida a bebida tinha me baqueado tanto! E olha que foram só dois copos. Encostei a cabeça na parede, entre um pôster de "O Clube dos Cinco" e "Namorada de Aluguel''.
Talvez, se eu vomitar, passe. Já deu certo uma vez...
Olhei em direção ao banheiro do primeiro piso, que estava lotado de pessoas na porta. Provavelmente não seria fácil segurar o enjoo até que chegasse minha vez de usar. Me lembrei que tinha um lavabo no segundo andar da casa de Milena, usado por mim na última visita que eu fiz àquele lugar antes da festa. E era lá mesmo que eu iria!
Respirei fundo e reuni as forças necessárias para ficar de pé. Me apoiei no sofá de couro e tentei me aprumar. Tontura, muita tontura e enjoo. Ao fundo, a música “Stick to the status quo”, do filme High School Musical, preenchia toda a festa.
Experimentei subir até o segundo andar da casa. As pessoas se desviavam de mim, cheias de susto e nojo, como se eu fosse uma bomba-relógio em plena contagem regressiva. Por causa da tontura, precisei tatear as paredes e as maçanetas das portas até chegar onde eu queria: no lavabo do segundo andar.
Girei o trinco, mas infelizmente estava trancada. Réstias incandescentes de luz escapavam por entre as frestas da porta. Encostei-me na parede ao lado e pude ver os barulhos de alguém vomitando lá dentro... Provavelmente eu não era o único que estava passando m*l por causa da bebida.
Finalmente a porta se abriu. A pessoa apagou as luzes e um corpo rechonchudo e familiar se precipitou para fora.
Era Sofia Spoladore, uma das Meninas do Vôlei. Ela sorriu para mim de um jeito estranho, e colocou seu corpo de líder do torcida apimentada bem no meio do caminho, bloqueando a passagem.
Sai da frente, minha filha, ou eu vou despejar tudo o que eu comi hoje em cima de você.
— Fofinho, posso te fazer uma pergunta? — A voz de Sofia saía bem embargada e seus olhos estavam vermelhos e inchados, como se ela tivesse chorado.
Acabou de fazer, mulher! Agora me dá licença!
— Pode, claro…
Sofia abriu um sorriso amargurado. Não sei se foi impressão minha, mas ela parecia estar em um claro esforço para conter as lágrimas. Mesmo de cara cheia, pude perceber que a garota estava bem m*l. E sinceramente não me importei. Eu só queria enfiar minha cara na privada e tentar expurgar aquele m*l-estar para fora de mim. Sabe como é, né? Ema, ema, ema…
— Você me acha bonita?
Não.
— Acho sim, por quê? — Perguntei, quase me apoiando em Sofia para conseguir me manter em pé.
— Por isso… — Ela respondeu em tom insinuante e aproximou a boca, que tinha acabado de chamar o Raul, da minha.
Assustado, dei alguns passos para trás e minha visão ficou turva. Perdi o equilíbrio de vez e caí com a cabeça contra o chão, que produziu um baque oco. A última coisa que me lembro de ter ouvido foi o grito histérico de Sofia ecoar distante... Cada vez mais longe...