A casa estava em silêncio.
Era madrugada, e tudo parecia finalmente calmo depois de um dia pesado demais. Mariana estava deitada, mas não dormia. O corpo estava cansado, mas a mente continuava acelerada, presa em tudo que tinha acontecido. A conversa, o homem, o jeito como Leonardo reagiu… nada saía da cabeça.
Ela virou na cama, encarando o teto, soltando um suspiro frustrado. Sabia que precisava descansar, mas havia algo inquieto dentro dela, como um aviso que não se calava.
E então o barulho veio.
Seco.
Violento.
O som de algo sendo forçado.
Mariana se sentou na cama na mesma hora, o coração disparando antes mesmo que ela entendesse o que estava acontecendo. Outro barulho veio logo em seguida, mais alto, seguido de passos rápidos e vozes abafadas.
Não era normal.
Não era nada normal.
Ela levantou da cama quase no impulso, indo até a porta e abrindo com cuidado. O corredor estava escuro, mas o movimento no andar de baixo era evidente agora. Gritos contidos, ordens rápidas, o som metálico de algo sendo puxado.
Armas.
O sangue dela gelou.
Antes que pudesse pensar melhor, desceu as escadas, o coração batendo forte demais no peito. Quando chegou à metade do caminho, ouviu claramente a voz de Leonardo.
— Ninguém deixa passar!
O tom era completamente diferente. Não havia controle emocional ali, apenas comando.
E então o primeiro disparo ecoou.
O som atravessou a casa inteira.
Mariana parou no mesmo instante, o corpo travando, mas só por um segundo. Porque, logo depois, vieram mais. Dois. Três. Rápidos. Ensurdecedores.
— LÉO! — gritou ela, sem conseguir se segurar.
Ela começou a descer as escadas de vez, ignorando qualquer lógica, qualquer perigo. Só conseguia pensar nele.
Mas não chegou longe.
Dois seguranças surgiram, segurando ela com força antes que alcançasse a sala.
— Me solta! — ela tentou se desvencilhar, desesperada. — Me solta, eu preciso ir!
— Senhora, não pode! — disse um deles, firme, segurando ela pelos braços.
— ELE TÁ LÁ FORA! — gritou, a voz falhando. — ME SOLTA!
Outro disparo ecoou.
Mais próximo.
O coração dela pareceu parar por um segundo.
— LÉO! — gritou de novo, agora com a voz quebrando. — Por favor… me solta… — implorou, já com lágrimas escorrendo. — Eu preciso ir até ele…
Mas eles não soltaram.
Seguraram mais firme.
E ela só conseguia ouvir.
Os tiros.
Os passos.
O caos.
Até que…
Silêncio.
Repentino.
Pesado.
Insuportável.
Mariana prendeu a respiração, o corpo inteiro tremendo.
— Acabou…? — sussurrou, quase sem voz.
Ninguém respondeu.
Mas então vieram passos.
Rápidos.
E, segundos depois, a porta se abriu com força.
Dois homens entraram carregando Leonardo.
O mundo dela parou.
— NÃO… — a palavra saiu quase inaudível.
Ele estava consciente, mas o corpo tenso, a camisa manchada de sangue na lateral. Não era um ferimento profundo, mas era o suficiente para fazer o coração dela disparar ainda mais.
— Léo… — sussurrou, já se soltando dos seguranças sem nem perceber como.
Dessa vez, ninguém tentou impedir.
Ela correu até ele.
— Deita ele aqui! — disse um dos homens, colocando Leonardo no sofá.
Mariana já estava ao lado, as mãos tremendo enquanto tentava entender onde estava o ferimento.
— Foi de raspão — disse ele, a voz baixa, mas ainda firme, como se estivesse tentando minimizar.
— Cala a boca — cortou ela na hora, a voz embargada. — Você tá sangrando.
Ele a olhou.
E, pela primeira vez… não respondeu.
Deixou.
Mariana correu até um dos armários, pegando um pano limpo e o kit de primeiros socorros. Voltou rápido, ajoelhando-se na frente dele, o coração ainda acelerado.
As mãos tremiam, mas ela tentou se concentrar.
— Isso vai arder — murmurou, limpando o ferimento com cuidado.
Leonardo soltou um leve ar pelo nariz, como se aquilo fosse o menor dos problemas.
— Já passei por coisa pior.
— Eu sei — respondeu ela, mais baixa, focada no que fazia.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Mais calmo.
Mais próximo.
Mariana terminou de limpar o ferimento e começou a fazer o curativo com cuidado, concentrada demais para perceber o quanto estavam perto. Ou talvez percebesse, mas escolhesse ignorar.
— Você sempre foi assim — disse ela depois de alguns segundos.
— Assim como?
— Achando que aguenta tudo sozinho.
Ele soltou um leve sorriso de canto.
— Sempre funcionou.
— Nem sempre — retrucou ela, olhando pra ele agora.
Os olhos se encontraram.
E, dessa vez, não havia confronto.
Havia algo mais leve.
Mais antigo.
— Lembra quando eu caí da bicicleta? — disse ela, de repente, um pequeno sorriso surgindo.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Você chorou por meia hora.
— Eu tinha oito anos! — rebateu, rindo de leve.
— E me culpou — completou ele.
— Porque foi você que me soltou — respondeu ela, ainda sorrindo.
Ele soltou uma risada baixa.
De verdade.
E aquilo… aquilo mexeu com ela de um jeito inesperado.
Porque fazia tempo.
Tempo demais.
O clima mudou sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando.
Ficou mais leve.
Mais íntimo.
— Léo… — começou ela, mais séria agora. — Me fala a verdade.
Ele a observou, atento.
— Quem era aquele homem?
O sorriso dele desapareceu.
Mas, dessa vez… ele não desviou.
— Alguém que eu devia ter eliminado há muito tempo — disse, direto.
O coração dela apertou.
— Por quê?
Ele hesitou.
Mas respondeu.
— Porque ele sabe demais sobre mim… sobre os negócios… e agora sobre você.
O silêncio caiu.
Pesado.
Mas não afastou.
Pelo contrário.
Aproximou ainda mais.
Mariana respirou fundo, absorvendo aquilo, e quando levantou o olhar de novo… já estava perto demais.
Perto o suficiente para sentir a respiração dele.
Perto o suficiente para não ter mais espaço seguro.
E, dessa vez…
Nenhum dos dois recuou.
Foi ela quem se moveu primeiro.
Ou talvez tenham sido os dois.
Não importava.
O beijo aconteceu.
Intenso.
Urgente.
Carregado de tudo que vinha sendo contido há tempo demais.
As mãos dela subiram para o rosto dele, enquanto as dele seguravam firme a cintura dela, puxando ainda mais para perto. Não havia dúvida, não havia hesitação. Era desejo, era tensão acumulada, era tudo explodindo de uma vez.
Quando o beijo terminou, Mariana ainda estava próxima, a respiração acelerada, um sorriso pequeno e sincero surgindo no rosto.
— Demorou — murmurou ela, leve, quase feliz.
Mas Leonardo não sorriu.
O olhar dele mudou.
E aquilo foi imediato.
— Isso não devia ter acontecido — disse ele, a voz mais baixa, mas fria.
O impacto foi como um choque.
— O quê? — ela piscou, sem entender.
Ele se afastou um pouco.
— Foi um erro.
O sorriso dela desapareceu na hora.
Os olhos se encheram de lágrimas quase instantaneamente.
— Uau… — disse ela, engolindo em seco. — Demorou pra você voltar a ser o b****a de sempre.
Ele não respondeu.
E isso doeu mais ainda.
Mariana se levantou rápido, passando a mão no rosto antes que as lágrimas caíssem mais.
— Fica aí com o seu controle — disse ela, a voz falhando. — Eu já entendi.
E virou as costas.
Subiu as escadas sem olhar pra trás.
Deixando ele sozinho.
Mas, pela primeira vez…
Não era só ele que estava em conflito.
Ela também estava.