O que nunca foi embora

1097 Words
Mariana entrou no quarto quase sem enxergar direito. A porta se fechou atrás dela com força, mas ela nem percebeu. O peito estava apertado demais, a respiração irregular, e as lágrimas que ela tentou segurar lá embaixo finalmente vieram com força. Ela levou a mão ao rosto, tentando conter o choro, mas era inútil. Caminhou até a cama e se sentou, depois caiu de lado, abraçando o travesseiro como se aquilo pudesse segurar tudo que estava transbordando. Mas não segurava. Nada segurava. O beijo ainda estava nela. Nos lábios. Na pele. Na memória. Era impossível ignorar. Ela fechou os olhos com força, como se pudesse apagar aquilo, mas só fez piorar. Quanto mais tentava esquecer, mais nítido ficava. O toque dele, a forma como ele a puxou, a intensidade… não tinha sido impulsivo. Não tinha sido vazio. Tinha sido real. E era isso que mais doía. Porque, por um instante, ela acreditou. Acreditou que não era só ela. Acreditou que aqueles cinco anos afastada não tinham sido em vão, que o que ela sentia desde sempre não era uma coisa solitária, escondida só dentro dela. Acreditou que ele também sentia. E então ele destruiu tudo em segundos. “Foi um erro.” Mariana apertou o travesseiro com mais força, soltando um choro baixo, sentido. — Claro que foi… — murmurou entre lágrimas. — Só eu que sou i****a o suficiente pra achar que não… A lembrança veio com força. O quanto ela tinha esperado, mesmo sem admitir. O quanto, no fundo, sempre soube que aquele sentimento nunca tinha ido embora. Só tinha sido empurrado, escondido, ignorado. Mas não morto. Nunca morto. E aquele beijo… Só provou isso. Provou que tudo ainda estava ali. Só não estava nos dois. Ela virou o rosto no travesseiro, tentando abafar o choro, sentindo uma dor diferente, mais profunda do que qualquer discussão que já tiveram. Não era raiva. Era frustração. Era desejo interrompido. Era sentir demais… e perceber que talvez estivesse sozinha nisso. A batida na porta fez ela se enrijecer. Ela não respondeu. Outra batida veio, dessa vez mais firme. — Mariana… — a voz dele veio baixa do outro lado. Ela fechou os olhos, sentindo o peito apertar ainda mais. — Vai embora… — disse, a voz falhando. Silêncio. Por um segundo, ela achou que ele fosse obedecer. Mas não obedeceu. A porta abriu. Ela nem precisou olhar para saber. — Eu disse pra sair — repetiu, virando o rosto, limpando as lágrimas com raiva. Leonardo entrou mesmo assim, fechando a porta atrás de si com mais cuidado dessa vez. O olhar dele foi direto para ela, e a cena o atingiu sem defesa. Mariana chorando, vulnerável daquele jeito… era algo que ele não sabia lidar. E, ainda assim, não conseguia ignorar. — Mariana… — chamou de novo, mais baixo. — Não — cortou ela na hora, sentando na cama, o rosto ainda molhado. — Eu não quero falar com você. Ele ficou parado por um segundo, absorvendo aquilo. Mas não foi embora. Deu alguns passos à frente, mesmo com dificuldade por causa do ferimento, ignorando completamente qualquer dor. — Você precisa me ouvir — disse ele. Ela riu sem humor, passando a mão no rosto. — Eu já ouvi o suficiente lá embaixo — respondeu. — Relaxa… eu entendi bem. O silêncio que se seguiu foi pesado. Mas ela não parou. — Eu tenho consciência, tá? — continuou, a voz ainda tremendo. — Eu sei que isso é um erro pra você. Sempre foi. Eu só demorei pra aceitar que também sou um erro na sua vida… na vida dessa família. Aquilo atingiu. De verdade. Leonardo fechou o maxilar, avançando mais um passo. — Para com isso — disse, mais firme. — Não, você que para — retrucou ela, levantando da cama. — Eu não sou cega, Léo. Eu vi o jeito que você falou… como se tivesse se arrependido na mesma hora. Ele não respondeu. E aquilo foi resposta o suficiente. Mariana desviou o olhar, rindo fraco, sem alegria nenhuma. — Eu só fui burra de achar que significava alguma coisa pra você também… Antes que ela pudesse continuar, ele a segurou. Puxou pelo braço com firmeza, mas sem machucar, obrigando ela a encará-lo. — Olha pra mim — disse ele, baixo. Ela tentou desviar. — Me solta. — Olha pra mim, Mariana. A forma como ele falou fez ela parar. Contra a vontade. Ela levantou o olhar. E se perdeu no dele. Porque não havia frieza ali. Não daquela vez. Havia conflito. Havia peso. Havia algo muito mais difícil de esconder. — Tudo que aconteceu… — começou ele, a voz mais baixa agora — foi exatamente o que eu passei anos tentando evitar. Ela franziu a testa, ainda magoada. — E por quê? — perguntou, quase em um sussurro. — Qual é o problema de sentir? Ele soltou o ar devagar, como se aquela fosse a parte mais difícil. — Porque eu não posso colocar você em mais perigo do que já está. Aquilo fez o peito dela apertar. Mas não do jeito que ele esperava. — Você acha mesmo que isso muda alguma coisa agora? — perguntou ela, mais firme. — Depois de hoje? Depois de tudo que aconteceu? Ele não respondeu. — Eu gostei — disse ela, sem desviar o olhar. — Do beijo. O silêncio ficou ainda mais denso. — E eu só queria que não tivesse sido… assim — continuou, a voz mais baixa agora. — Que não tivesse sido tratado como erro. Que você só… se permitisse. Aquilo ficou no ar entre eles. Pesado. Verdadeiro. E impossível de ignorar. Leonardo não se afastou. Não dessa vez. O olhar dele desceu por um segundo até os lábios dela… e voltou. E isso foi o suficiente. Porque, dessa vez, não havia mais espaço para negar. Ele a puxou de novo. E o beijo aconteceu. Mais intenso. Mais profundo. Mais consciente. Não era mais impulso. Era escolha. As mãos dele seguraram o rosto dela com firmeza, enquanto as dela subiam até o pescoço dele, se aproximando mais, como se quisesse diminuir qualquer distância que ainda existisse. Havia desejo, sim. Mas havia mais. Havia sentimento. Havia anos acumulados ali, finalmente encontrando uma saída. O beijo não foi rápido. Nem confuso. Foi lento o suficiente para ser sentido. Para ser entendido. Para deixar claro que aquilo nunca foi só de um lado. Quando se afastaram, ainda estavam próximos demais. A respiração misturada. Os olhos presos um no outro. E, pela primeira vez… Sem negação imediata. Sem afastamento brusco. Só o peso daquilo tudo… finalmente sendo compartilhado.
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