Quando o beijo terminou, Mariana não se afastou completamente.
Ainda estava perto dele, a respiração descompassada, os olhos marejados, mas diferentes de antes. Havia dor ali, sim… mas também havia algo mais leve surgindo, algo que ela não sentia há muito tempo.
Um pequeno sorriso apareceu, tímido, ainda misturado com lágrimas.
Ela levantou a mão devagar, como se tivesse medo de quebrar o momento, e tocou o rosto dele com cuidado. Os dedos deslizaram pela lateral do rosto de Leonardo, sentindo a pele quente, a barba por fazer, a tensão que ainda estava ali… mas que começava a ceder.
E aquilo foi o suficiente para desmontá-lo.
A postura rígida, o controle constante, aquela armadura que ele carregava o tempo todo… tudo vacilou naquele toque simples.
Leonardo fechou os olhos por um segundo, encostando levemente o rosto na mão dela, como se, por um instante, permitisse sentir sem resistência.
Mariana observou aquilo em silêncio, absorvendo cada detalhe, cada pequena mudança nele.
— Eu tentei esquecer você — disse ela, finalmente, a voz baixa, mas firme.
Ele abriu os olhos lentamente.
— Quando eu fui embora… — continuou ela — eu levei comigo um sentimento que eu nem sabia explicar direito. Não era mais carinho, não era só admiração… já era outra coisa.
Ela respirou fundo, sustentando o olhar dele.
— Mas eu tinha certeza que era só meu.
Aquilo pesou.
Leonardo passou a mão pelo cabelo, desviando o olhar por um instante, como se aquelas palavras atingissem um lugar que ele evitava há muito tempo.
— Não era — disse ele por fim.
Mariana franziu levemente a testa, surpresa.
— Então por que você me afastou daquele jeito? — perguntou.
Ele soltou o ar devagar, como se finalmente estivesse permitindo que algo saísse depois de anos preso.
— Porque foi exatamente aí que eu percebi — respondeu ele. — Quando você começou a crescer… quando deixou de ser aquela menina que vivia atrás de mim… tudo mudou.
O silêncio caiu, mas não era desconfortável.
Era necessário.
— E eu sabia o que vinha depois — continuou ele, mais baixo. — Eu sabia que ia assumir os negócios da família, sabia o tipo de vida que isso ia trazer… e sabia que você não podia fazer parte disso.
Mariana o observava sem interromper.
— Então eu fiz a única coisa que achei que ia funcionar — disse ele. — Te afastei antes que fosse tarde demais.
Ela engoliu em seco.
— Pra me proteger?
— Pra te proteger de mim também — respondeu ele, direto.
Aquilo a atingiu de forma diferente.
Mais profunda.
— Você sempre decidiu por mim… — murmurou ela.
— Porque eu achei que era o certo — disse ele.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo tudo aquilo. Não havia mais raiva imediata, só uma compreensão que começava a se formar, mesmo que ainda doesse.
— Eu entendo — disse ela por fim. — E eu agradeço… de verdade.
Ele levantou o olhar, surpreso.
— Mas eu não quero viver só sendo protegida — completou ela. — Eu quero viver de verdade. Mesmo que isso signifique correr risco.
O silêncio que veio depois foi mais leve.
Não porque o problema tinha desaparecido.
Mas porque, pela primeira vez, eles estavam sendo honestos.
De verdade.
Mariana deu um pequeno sorriso, desviando o clima pesado por um momento.
— Você lembra quando me ensinou a dirigir escondido? — perguntou.
Leonardo soltou um leve riso.
— Você quase bateu no portão.
— Você que mandou acelerar! — retrucou ela, rindo.
— Eu mandei você ir devagar.
— Mentira.
Eles trocaram um olhar… e riram juntos.
De verdade.
Sem tensão.
Sem peso.
Aquilo trouxe uma leveza inesperada, como se, por alguns minutos, voltassem a ser quem eram antes de tudo complicar.
Mariana se afastou um pouco, pegando o pano novamente.
— Vem cá, deixa eu terminar isso direito — disse, voltando a cuidar do curativo.
Ela se concentrou, ajustando a faixa com cuidado no braço dele, os movimentos agora mais tranquilos. Leonardo a observava em silêncio, prestando atenção em cada detalhe, como se estivesse tentando memorizar aquele momento.
— Pronto — disse ela, finalizando.
Mas não se afastou completamente.
Ficou ali.
Perto.
Pensativa.
— Léo… — começou, hesitando um pouco — que tipo de negócio é esse, de verdade?
O clima mudou.
Mas não da mesma forma de antes.
Agora havia a******a.
Ele a encarou por alguns segundos, avaliando.
E, pela primeira vez…
Não desviou.
— Meu pai comandava uma rede de contrabando e distribuição ilegal — disse ele, direto. — Armas, principalmente. E também algumas rotas de mercadorias que nunca deveriam passar por aqui.
O coração dela acelerou, mas ela não recuou.
— E você…?
— Assumi tudo quando ele morreu — respondeu. — Era o que eu tinha prometido.
Mariana absorveu aquilo em silêncio.
— Então a empresa… — começou.
— É uma fachada — completou ele. — Mas também dá lucro. Limpa o dinheiro, mantém tudo funcionando sem levantar suspeita.
Ela soltou o ar devagar.
— E você vive assim… o tempo todo?
— Não tem como sair depois que você entra nisso — respondeu ele. — Principalmente no meu lugar.
O silêncio voltou, mas não era mais pesado como antes.
Era reflexivo.
Mariana o observou por alguns segundos antes de falar.
— E agora você tá me contando tudo.
Ele sustentou o olhar dela.
— Porque você já tá dentro disso… querendo ou não.
Ela absorveu aquilo.
Mas, dessa vez…
Não pareceu fugir.
— Então me conta tudo — disse ela, mais firme. — Sem esconder nada.
Leonardo a observou por um momento, como se estivesse tomando uma decisão importante.
E, dessa vez…
Ele não recuou.
— Eu vou te contar.
E, naquele instante, algo mudou entre eles.
Não era só desejo.
Não era só conflito.
Era confiança começando a nascer.
Mesmo no meio do caos.