Aquilo acendia algo nele que ele não conseguia controlar.
E isso o irritava mais do que qualquer outra coisa.
Leonardo ficou parado no meio da sala por alguns segundos, respirando fundo, tentando retomar o controle que sempre teve sobre tudo. Sobre a casa. Sobre os homens. Sobre a própria vida.
Mas não sobre ela.
Nunca sobre ela.
Ele fechou os olhos por um instante, passando a mão pelos cabelos, claramente incomodado.
— Você perdeu a p***a do controle… — murmurou pra si mesmo.
Mas não era só pela situação.
Era pela forma como reagiu.
Pela forma como olhou pra ela.
E, principalmente… pelo que sentiu.
—
No quarto, Mariana já estava vestida, mas continuava inquieta.
Ela não conseguiu simplesmente ignorar.
Não conseguiu fingir que estava tudo bem.
Porque não estava.
Nada ali estava.
Ela caminhava de um lado pro outro, como se o próprio quarto não fosse suficiente pra conter a inquietação dentro dela. A sensação de invasão ainda grudava na pele, mas o que mais a incomodava era outra coisa.
A forma como Léo falou com ela.
Frio.
Duro.
Como se fosse culpa dela.
— Ele mudou… — disse em voz baixa, parando no meio do quarto.
Mas, no fundo, não era só isso.
Ele não só mudou.
Ele virou alguém que ela não reconhecia.
E aquilo… doía.
—
Horas depois, a casa parecia ter voltado ao normal.
Funcionários andando.
Vozes baixas pelos corredores.
Tudo como sempre foi.
Mas não pra eles.
Mariana demorou pra sair do quarto.
Na verdade, evitou ao máximo.
Mas uma hora, o silêncio começou a incomodar mais do que a presença dele.
Então ela saiu.
Desceu as escadas com calma, já preparada pra encontrar ele em algum lugar.
E encontrou.
Na sala.
Como sempre.
Sentado, concentrado em alguns papéis, com aquela postura impecável que parecia dizer que nada tinha acontecido.
Mas tinha.
E ela não ia fingir.
Mariana parou a alguns passos dele.
— A gente precisa conversar.
Leonardo não levantou o olhar imediatamente.
Terminou de ler o que estava na mão.
Só depois ergueu os olhos.
Calmo.
Controlado.
— Já conversamos.
Aquilo irritou na hora.
— Não, você falou — retrucou ela. — E eu fiquei ouvindo.
Ele a observou por alguns segundos.
— Então fala.
Direto.
Sem emoção.
Mas aquilo não intimidou.
Não dessa vez.
Mariana deu mais um passo à frente.
— O que aconteceu hoje de manhã… — começou, tentando manter o controle da voz — não foi culpa minha.
Silêncio.
Ele não respondeu.
Mas também não desviou.
— Eu estava no meu quarto — continuou ela, agora mais firme. — Dormindo. E um homem entrou lá sem autorização.
— Eu sei o que aconteceu.
— Então para de agir como se eu tivesse feito algo errado!
A tensão voltou na mesma hora.
Leonardo largou os papéis na mesa.
Devagar.
— Eu não estou dizendo que você fez.
— Tá sim! — rebateu ela. — Do seu jeito, você tá.
Ele se levantou.
E o ambiente mudou na hora.
— Eu estou dizendo — começou ele, a voz mais baixa agora — que você precisa começar a se comportar de acordo com o lugar onde você está.
Mariana soltou uma risada sem humor.
— Lá vem você de novo com isso…
— Isso não é brincadeira, Mariana — cortou ele, mais firme. — Isso aqui não é um lugar comum.
— Eu sei! — ela respondeu na mesma altura. — Você já deixou isso bem claro! O tempo todo!
Silêncio.
Pesado.
Ela respirou fundo, tentando não explodir de vez.
— Mas isso não te dá o direito de jogar a culpa em mim — disse, mais controlada agora, mas ainda firme. — Nem de me tratar como se eu fosse uma i****a.
Ele a encarou.
De verdade.
— Eu não te trato como i****a.
— Trata sim — disse ela, sem hesitar. — Quando acha que pode decidir tudo por mim.
Aquilo ficou no ar.
Por alguns segundos.
Até que ele deu um pequeno passo na direção dela.
— Eu decido o que envolve sua segurança.
A resposta veio rápida.
Instintiva.
— Eu não preciso disso.
— Precisa.
— Não preciso!
A troca veio rápida demais.
Intensa demais.
E então silêncio.
De novo.
Mas diferente.
Mais carregado.
Leonardo passou a mão pelo rosto, claramente tentando se controlar.
— Você não faz ideia do tipo de gente que circula por aqui — disse ele, mais baixo agora. — Do tipo de situação que pode acontecer.
Mariana cruzou os braços.
— E você acha que eu vou viver com medo por causa disso?
— Eu acho que você deveria ser mais cuidadosa.
Ela deu um passo à frente.
— Eu acho que você tá usando isso como desculpa pra me controlar.
Aquilo acertou.
Direto.
Ele ficou em silêncio.
Mas o olhar mudou.
Mais escuro.
Mais fechado.
— Você não entende — disse ele.
— Então me faz entender — rebateu ela na hora.
Silêncio.
Longo.
E, pela primeira vez…
Ele não respondeu.
Desviou o olhar.
E aquilo disse mais do que qualquer coisa.
Mariana percebeu.
Sentiu.
E isso só aumentou a frustração.
— É isso, então? — disse ela, mais baixa agora. — Você só vai mandar, controlar… e nunca explicar nada?
Ele respirou fundo.
— Eu não tenho que te explicar tudo.
— Claro que não — disse ela, com ironia. — Você é o grande chefe, né?
O clima pesou de vez.
Mas ele não reagiu.
Não do jeito que ela esperava.
— Eu tenho trabalho — disse ele, frio de novo. — Fica na casa hoje.
Aquilo foi a gota.
— Eu não vou ficar presa aqui!
Ele a encarou.
— Você não está presa.
— Parece.
Silêncio.
Os dois se encararam por alguns segundos.
Até que ela virou as costas.
— Eu vou sair — disse, firme.
— Não vai.
A resposta veio na hora.
E isso…
Só piorou tudo.
Mariana se virou lentamente.
— Você não manda em mim.
Os olhos dele escureceram.
— Não me obriga a mandar.
O ar ficou pesado.
Denso.
Perigoso.
E, naquele momento…
Ficou claro.
Aquilo não era mais só discussão.
Era uma guerra começando.