O silêncio que veio depois daquilo não era normal.
Era carregado.
Quase sufocante.
Mariana sustentou o olhar dele por alguns segundos, o peito subindo e descendo mais rápido, mas sem recuar. Não dessa vez. Não depois de tudo.
— Eu vou sair — repetiu, mais firme.
Leonardo não respondeu de imediato.
Mas o olhar dele mudou.
Ficou mais frio.
Mais calculista.
Mais perigoso.
— Você não está entendendo — disse ele, devagar, cada palavra pesada. — Isso não é um pedido.
Mariana deu um passo na direção dele.
— Então começa a entender você — retrucou, sem baixar o tom. — Eu não vou viver presa dentro dessa casa só porque você decidiu.
O maxilar dele travou.
Mas ele não levantou a voz.
E isso era pior.
— Você não sabe com quem tá lidando lá fora.
— E você acha que eu vou descobrir trancada aqui dentro?
Silêncio.
O ar parecia mais denso.
Mais difícil de respirar.
Leonardo deu um passo à frente.
Depois outro.
Até parar perto demais.
De novo.
— Você quer sair? — perguntou ele, a voz baixa, perigosa. — Quer testar até onde isso vai?
O coração dela disparou.
Mas ela não recuou.
— Quero viver minha vida.
Os olhos dele desceram por um segundo.
Subiram de novo.
Mais escuros.
— Sua vida mudou quando você voltou pra cá.
Aquilo foi um golpe.
Mas ela reagiu na hora.
— Não. Você que quer mudar tudo.
Silêncio.
Pesado.
E então ele soltou um riso curto, sem humor.
— Você acha que tem escolha.
— Eu tenho.
— Não aqui.
A resposta veio seca.
Direta.
E aquilo… doeu mais do que deveria.
Mariana sentiu o peito apertar, mas não deixou transparecer.
— Você não pode fazer isso comigo.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Já estou fazendo.
O impacto veio forte.
Mas junto com ele…
Veio a raiva.
— Você tá doente — disse ela, encarando ele. — Isso não é p******o. Isso é controle.
Os olhos dele escureceram de vez.
Mas dessa vez… ele não negou.
— É o que mantém você segura.
— Não — disse ela, firme. — É o que tá me afastando de você.
Aquilo atingiu.
Ela viu.
Viu no segundo exato em que o olhar dele mudou.
Mas foi rápido.
Ele fechou de novo.
Como sempre.
— Então se afasta — disse ele, frio.
Silêncio.
Aquela resposta…
Não era o que ela esperava.
E, por um segundo, doeu de um jeito estranho.
Mas ela não recuou.
— É isso que você quer? — perguntou, mais baixa agora.
Ele demorou a responder.
E esse tempo…
Disse muito.
— É o que precisa ser feito.
Mentira.
Ela sentiu.
Na hora.
E isso só piorou tudo.
Mariana respirou fundo, passando a mão pelos cabelos, claramente tentando se controlar.
— Você não é mais o Léo que eu conhecia — disse, mais calma agora, mas carregada de verdade. — O que me protegia… o que me defendia… o que ficava do meu lado quando eu precisava.
Silêncio.
Ele não se mexeu.
Mas também não desviou.
— Aquele Léo não mandava em mim — continuou ela. — Ele me escutava.
O maxilar dele travou.
Mas ele permaneceu quieto.
— Esse aqui… — ela fez um gesto vago com a mão — só sabe impor.
Aquilo ficou no ar.
Pesado.
Até que ele respondeu.
Baixo.
— Aquele Léo não precisava lidar com o mundo que eu lido hoje.
A voz dele mudou.
Mais real.
Mais cansada.
Mas ainda firme.
— E você acha que isso justifica tudo? — perguntou ela.
— Não — respondeu ele, direto.
Ela franziu a testa.
Não esperava aquilo.
— Então por que—
— Porque é o que eu tenho que fazer.
Simples.
Frio.
Final.
Silêncio.
Mariana engoliu em seco, o peito apertando sem que ela entendesse exatamente o porquê.
— E o que eu tenho que fazer? — perguntou, mais baixa.
Ele a encarou.
Por alguns segundos.
Longos.
— Ficar — disse por fim.
A resposta veio como uma ordem.
Mas também como… algo mais.
E isso a irritou de novo.
— Eu não sou sua responsabilidade.
— É.
— Não sou!
— Você é tudo que pode dar errado aqui dentro — disse ele, mais firme agora.
Aquilo a atingiu.
Forte.
— Então me deixa ir — retrucou ela na hora. — Resolve seu problema.
Silêncio.
Pesado.
E então ele disse:
— Não.
Sem hesitar.
Sem suavizar.
Sem explicar.
O coração dela disparou.
— Por quê?
Dessa vez… ele não respondeu.
E aquilo foi pior do que qualquer resposta.
Porque o silêncio dele dizia tudo.
Mais do que deveria.
Mais do que ela estava pronta pra ouvir.
Mariana deu um passo pra trás.
Depois outro.
Como se precisasse de espaço.
Ar.
Distância.
— Você não pode me prender aqui pra sempre — disse, mais baixa agora.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Eu não preciso.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
Ele deu um passo à frente.
De novo.
Diminuindo o espaço.
— Você vai ficar.
O coração dela acelerou.
— Eu não vou.
Os olhos dele escureceram.
— Vai.
Silêncio.
Pesado.
E então ela disse, firme:
— Me obriga.
Erro.
Ela percebeu no segundo seguinte.
Porque algo no olhar dele mudou.
De verdade.
Mais intenso.
Mais perigoso.
Mais… honesto.
Ele se aproximou mais.
Agora perto demais.
A voz veio baixa.
Rouca.
— Não brinca com isso, Mariana.
Mas não era só um aviso.
Era um limite.
E, pela primeira vez…
Parecia que ele estava prestes a ultrapassar.
E dessa vez…
Talvez não tivesse volta.