Algo errado

927 Words
Mariana saiu da sala com o coração ainda acelerado, subindo as escadas mais rápido do que pretendia. Não queria continuar aquela discussão, não naquele momento. A sensação que tinha ficado depois da conversa com Leonardo não era só irritação, nem só raiva. Era algo mais incômodo, mais difícil de ignorar. Algo que parecia estar se encaixando aos poucos dentro dela, mesmo que ela não quisesse admitir. Quando entrou no quarto, fechou a porta com firmeza e caminhou até a janela, apoiando as mãos no parapeito enquanto tentava organizar os pensamentos. Lá fora, tudo parecia normal demais. O jardim bem cuidado, o silêncio da rua, o céu claro de fim de manhã. Era difícil acreditar que existia qualquer tipo de perigo olhando aquela cena tranquila. E ainda assim, ela não conseguia esquecer o que ele disse. “Você é a coisa mais fácil de atingir.” A frase não saía da cabeça. Não tinha sido dita com raiva, nem com intenção de provocar. Tinha sido direta demais, séria demais. E isso era o que mais incomodava. Mariana soltou o ar devagar, fechando os olhos por um instante. Parte dela queria acreditar que aquilo era só mais uma forma de controle, mais uma tentativa dele de mantê-la presa dentro daquela casa. Mas outra parte… outra parte começava a desconfiar que talvez ele não estivesse exagerando tanto assim. Mesmo assim, aquilo não justificava tudo. Ela não ia aceitar ficar trancada ali. Não depois de tudo que já tinha passado. Determinada, se afastou da janela e foi até o guarda-roupa, pegando uma roupa simples e trocando rapidamente. O movimento era automático, mas a mente continuava inquieta. Quanto mais pensava, mais sentia que precisava sair, nem que fosse só pra provar pra si mesma que ainda tinha controle sobre a própria vida. Depois de pronta, abriu a porta do quarto e saiu sem fazer barulho. O corredor estava silencioso, e a casa parecia calma, como sempre. Desceu as escadas com cuidado, prestando atenção em qualquer sinal de movimento, mas não encontrou ninguém. Aquilo facilitava tudo. Quando chegou à porta principal, parou por um segundo. Hesitou. Não por medo. Mas pela lembrança. Ainda assim, abriu. O ar do lado de fora parecia mais leve, mais real. Mariana deu alguns passos para fora, sentindo o corpo relaxar aos poucos. Talvez ela tivesse se deixado influenciar demais pelo que Léo disse. Talvez estivesse vendo problema onde não tinha. Afinal, estava tudo normal. Ela caminhou pelo jardim sem pressa, tentando afastar a sensação incômoda que ainda insistia em permanecer. Mas, conforme se aproximava do portão, algo começou a incomodar de novo. Não era exatamente um pensamento claro, era mais uma percepção, um detalhe fora do lugar. Foi quando um carro passou devagar pela rua. Devagar demais. Mariana franziu levemente a testa, acompanhando o movimento com o olhar. Não era incomum carros passarem por ali, mas aquele parecia diferente. Reduziu a velocidade ao passar pela frente da casa, como se estivesse observando, como se estivesse procurando alguma coisa. Ela tentou ignorar, voltando a olhar para frente, mas a sensação não passou. Ao chegar perto do portão, parou e olhou novamente para a rua. O carro já tinha seguido, virando na esquina e desaparecendo. Por alguns segundos, tudo voltou ao normal. Silêncio. Tranquilidade. Nada fora do comum. Mariana soltou um pequeno suspiro, quase se sentindo ridícula por ter pensado qualquer coisa. Mas então o carro voltou. Dessa vez vindo da outra direção. Mais lento ainda. E, diferente de antes, ele não passou direto. Parou. Do outro lado da rua. O coração dela acelerou no mesmo instante. Não foi algo que ela precisou pensar muito para entender. O corpo reagiu antes. Aquele tipo de parada não era normal. Não ali. Não daquela forma. Ela ficou imóvel por um segundo, tentando agir naturalmente, como se não tivesse percebido. Mas era impossível não perceber. Mesmo com os vidros escuros, havia algo ali. Uma presença. Um olhar. Pesado. Direcionado. O ar ao redor pareceu mudar. O silêncio deixou de ser tranquilo e passou a ser incômodo, quase ameaçador. Foi nesse momento que o celular vibrou na mão dela. O susto foi imediato. Mariana olhou para a tela, o coração batendo forte demais agora. Número desconhecido. Ela hesitou. Mas atendeu. — Alô? Do outro lado, silêncio. Não um silêncio comum. Um silêncio que parecia intencional. Ela franziu a testa, dando um passo para trás sem perceber. — Quem é? A resposta não veio de imediato. Primeiro, um som leve de respiração. Depois, uma voz masculina, baixa, controlada, completamente desconhecida. — Você não devia estar aí fora. O sangue dela gelou na hora. — Quem é você? — perguntou, agora com a voz mais tensa. — Volta pra dentro — disse o homem, ignorando a pergunta. A ligação foi encerrada antes que ela pudesse reagir. Mariana ficou parada por um segundo, tentando processar. O celular ainda na mão, o coração disparado, a respiração travada. Lentamente, ela levantou o olhar. O carro ainda estava lá. Parado. Como se estivesse esperando. Como se soubesse. Foi o suficiente. O instinto falou mais alto. Mariana virou rapidamente e começou a andar de volta para a casa, os passos acelerando a cada segundo. Quando chegou à porta, entrou rápido demais, fechando atrás de si com força, como se aquilo fosse suficiente para impedir qualquer coisa de entrar. Ela encostou as costas na porta, tentando recuperar o ar, mas não conseguia. Porque agora não tinha mais dúvida. Leonardo não estava exagerando. E, pela primeira vez desde que voltou… Mariana percebeu que talvez já fosse tarde demais para simplesmente ir embora.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD