Quando o medo ganha forma

1080 Words
Mariana ainda estava encostada na porta, tentando controlar a respiração, quando ouviu passos vindo do corredor. Firmes. Rápidos. Direcionados. O tipo de passo que não deixava dúvida de quem era. Ela nem precisou se virar para saber. A porta foi aberta logo em seguida, com mais força do que o normal, e Leonardo apareceu no ambiente com a expressão completamente diferente de tudo que ela tinha visto até agora. Não era só irritação. Não era só controle. Era alerta. Os olhos dele passaram rapidamente pelo espaço até encontrarem ela, ainda parada perto da porta, visivelmente abalada. Por um segundo, ele não disse nada. Apenas observou. Como se estivesse avaliando, ligando pontos, confirmando algo que já suspeitava. — Você saiu — disse ele por fim, a voz baixa, mas carregada. Mariana engoliu em seco, tentando se recompor. Parte dela ainda queria reagir como antes, com firmeza, com desafio. Mas o que tinha acabado de acontecer ainda estava fresco demais. — Eu só fui até o portão — respondeu, tentando manter a postura. Leonardo não pareceu convencido. Aproximou-se lentamente, os olhos atentos demais, analisando cada detalhe dela. — O que aconteceu? — perguntou, direto. Ela hesitou por um instante. E foi o suficiente. Ele percebeu. Na hora. O olhar dele mudou, ficando ainda mais sério, mais focado. — Mariana — disse, mais firme agora — o que aconteceu? Ela respirou fundo, passando a mão pelo braço como se ainda sentisse um frio ali. — Tinha um carro — começou, ainda meio incrédula. — Ele passou devagar… depois voltou… e parou do outro lado da rua. O silêncio caiu entre eles, mas não era vazio. Era tenso. Pesado. Leonardo não demonstrou surpresa. E aquilo foi pior. — E? — incentivou ele, mantendo o olhar fixo nela. — Me ligaram — continuou ela, agora mais rápida, como se precisasse tirar aquilo de dentro. — Número desconhecido. Um homem. Ele… ele sabia que eu estava lá fora. Leonardo ficou imóvel por um segundo. Apenas um. Mas foi o suficiente para o ambiente inteiro mudar. — O que ele disse? — perguntou, ainda mais baixo. — Mandou eu voltar pra dentro. O maxilar dele travou de imediato. Mariana percebeu. Sentiu. E isso só aumentou a inquietação dentro dela. — Léo… — começou, agora claramente mais abalada — o que tá acontecendo? Ele não respondeu. Pelo menos não imediatamente. Virou-se, passando a mão pelos cabelos, andando alguns passos pela sala como se estivesse reorganizando tudo muito rápido dentro da própria cabeça. A postura dele tinha mudado completamente. Não era mais o homem discutindo com ela minutos atrás. Era outra versão. Mais fria. Mais focada. Mais perigosa. — Você viu alguma coisa? — perguntou ele, voltando a encará-la. — Algum rosto, placa, qualquer detalhe? — Não — respondeu ela, balançando a cabeça. — Os vidros eram escuros. Ele praguejou baixo, quase inaudível, mas ela ouviu. — Isso não é coincidência — disse ele, mais para si do que para ela. O coração de Mariana apertou. — Você conhece esse tipo de coisa, né? — perguntou, dando um passo na direção dele. — Isso não foi aleatório. Ele a encarou por alguns segundos. E, dessa vez… não tentou negar. — Não. A resposta veio seca. Direta. E pesada. — Então me explica — insistiu ela, a voz carregada de urgência agora. — Porque eu não vou ficar no escuro enquanto isso acontece comigo. Leonardo ficou em silêncio por alguns segundos, claramente avaliando até onde podia ir. Aquilo irritou Mariana de novo, mas antes que ela pudesse explodir, ele falou. — Tem gente que pode querer me atingir — disse ele, finalmente. — E quando isso acontece… eles procuram pontos fracos. Ela sentiu o corpo inteiro ficar tenso. — E eu sou um deles. Não foi uma pergunta. Foi uma constatação. Ele não respondeu com palavras. Mas o olhar confirmou. Aquilo foi suficiente. Mariana desviou o olhar por um momento, tentando absorver aquilo tudo. O medo que ela tinha sentido lá fora agora ganhava forma. Nome. Direção. — Então não era só controle — murmurou. — Eu nunca disse que era só isso — respondeu ele, firme. Ela voltou a encará-lo. — Você praticamente disse. — Eu disse do meu jeito. — Que é o pior jeito possível — retrucou ela, ainda nervosa. Apesar do momento, aquilo arrancou um leve movimento do maxilar dele, como se estivesse segurando alguma reação. Mas ele não respondeu à provocação. Em vez disso, se aproximou mais. Agora sem aquele clima de confronto. Mas com algo mais sério. Mais urgente. — A partir de agora você não sai sem alguém comigo — disse ele. Mariana abriu a boca para rebater. Mas travou. Porque agora era diferente. Não era só ele mandando. Era uma consequência real. Ainda assim, ela não cedeu completamente. — Isso não resolve tudo — disse, mais baixa. — Resolve o suficiente — respondeu ele. O silêncio veio de novo, mas dessa vez carregado de outra coisa. Não era só tensão. Era adaptação. Como se ambos estivessem tentando entender uma nova realidade que tinha se imposto sem aviso. Mariana passou a mão pelo cabelo, ainda inquieta. — E se eles ligarem de novo? — Você não atende — respondeu ele imediatamente. — E se aparecerem aqui? Os olhos dele escureceram levemente. — Eles não vão entrar. A forma como ele disse aquilo não deixou dúvida. Mas também não trouxe paz. Porque agora ela sabia. Sabia que aquilo existia. Que não era mais só uma ameaça distante. Era real. E tinha chegado até ela. Mariana respirou fundo, tentando recuperar o controle, mas não era simples. Tudo tinha mudado rápido demais. — Eu só queria viver minha vida normal… — murmurou, mais para si mesma. Leonardo ouviu. E, dessa vez, não respondeu de forma fria. Ele ficou em silêncio por um momento antes de dizer, mais baixo: — Eu sei. Ela levantou o olhar, surpresa. Mas ele já tinha se fechado de novo. Como sempre. — Vai pro seu quarto — disse ele, retomando o tom firme. — Eu vou resolver isso. Mariana não se mexeu imediatamente. Ficou olhando para ele por alguns segundos, como se tentasse entender até onde podia confiar. Até onde ele estava dizendo a verdade. Mas, no fundo… Ela já sabia. E isso era o mais assustador. Porque, pela primeira vez desde que voltou, Mariana não estava mais lutando contra ele. Estava começando a perceber que talvez precisasse dele. E isso… Era muito mais perigoso do que qualquer ameaça lá fora.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD