Perto demais para voltar

1089 Words
Mariana não subiu para o quarto imediatamente depois que ele mandou. Ficou parada na sala por alguns segundos, observando Leonardo enquanto ele já parecia em outro estado completamente diferente. Ele pegou o celular, começou a digitar mensagens rápidas, falando baixo com alguém em seguida, a voz firme, objetiva, sem espaço para dúvidas. Era como se aquela discussão entre eles nunca tivesse acontecido. Como se ele tivesse simplesmente mudado de chave. E, de certa forma, tinha. Aquilo a incomodou. Mas, ao mesmo tempo… trouxe uma sensação estranha de segurança. Ela odiou perceber isso. Sem dizer nada, Mariana virou e subiu as escadas, mais devagar agora. A mente estava longe, tentando acompanhar tudo que tinha acontecido em tão pouco tempo. Quando entrou no quarto, fechou a porta com cuidado dessa vez e encostou as costas nela, respirando fundo. O silêncio voltou. Mas não era mais o mesmo. Agora ele parecia cheio de pensamentos. Cheio de possibilidades que ela não queria considerar. Mariana caminhou até a cama e se sentou, passando a mão pelo rosto. A imagem do carro não saía da cabeça. Nem a voz no telefone. Nem o jeito que Leonardo reagiu quando ela contou. Aquilo não era encenação. Não era exagero. Era real. Ela se levantou de novo, inquieta, indo até a janela. Hesitou por um instante antes de olhar para fora, como se tivesse medo de encontrar algo ali. Mas o jardim estava vazio. Normal. Quieto demais para alguém que agora sabia que podia estar sendo observada. — Isso não tá acontecendo… — murmurou, mais para si mesma. Mas estava. E não tinha como voltar atrás. Ela ficou ali por alguns minutos, tentando se acalmar, até ouvir passos no corredor novamente. Mais lentos dessa vez. Controlados. Diferentes de antes. Antes que pudesse reagir, a porta foi aberta. Leonardo entrou sem bater. Mariana se virou na hora, já pronta para reagir, mas travou por um segundo ao ver a expressão dele. Não era a mesma de minutos atrás. Ainda era séria, ainda era tensa… mas havia algo mais ali. Algo mais próximo. Mais pessoal. — Eu já resolvi uma parte — disse ele, fechando a porta atrás de si. Ela cruzou os braços, tentando manter a firmeza. — “Uma parte” não me tranquiliza muito. Ele assentiu de leve, como se já esperasse essa resposta. — Eu sei. O silêncio se instalou por um momento, mas não era desconfortável como antes. Era diferente. Mais carregado de algo não dito. Mariana desviou o olhar por um segundo, depois voltou a encará-lo. — Isso vai continuar acontecendo? — perguntou, mais direta. Leonardo não respondeu imediatamente. Caminhou alguns passos pelo quarto, como se estivesse organizando a própria resposta. — Pode acontecer de novo — disse por fim, sem suavizar. Ela engoliu em seco. — Ótimo. A ironia saiu automática, mas sem força. — Por isso você não vai sair sozinha — continuou ele, firme. Mariana respirou fundo, claramente lutando entre discutir e aceitar. — Eu odeio isso — admitiu, passando a mão pelos cabelos. — Eu também — respondeu ele. Aquilo a fez olhar para ele imediatamente. Surpresa. — Você não parece. Ele soltou um ar leve pelo nariz, quase um riso sem humor. — Porque alguém aqui precisa manter a cabeça no lugar. — E precisa ser sempre você? — questionou ela. — Nesse caso, sim. O tom não foi arrogante. Foi factual. E isso a deixou sem resposta por um segundo. O silêncio voltou, mais calmo agora, mas ainda carregado de tensão. Mariana deu alguns passos pelo quarto, inquieta, até parar de frente para ele novamente. — Se alguma coisa acontecer comigo… — começou, mas parou no meio da frase. Não conseguiu terminar. Leonardo percebeu. E a forma como o olhar dele mudou foi imediata. Mais intensa. Mais direta. — Não vai acontecer — disse ele, firme. — Você não pode garantir isso. — Posso. A resposta veio rápida demais. Segura demais. Aquilo a irritou. — Para de agir como se tivesse controle de tudo — disse ela. — Porque você não tem. O olhar dele escureceu levemente, mas não houve explosão dessa vez. — Eu tenho controle do suficiente — respondeu. — Até quando? Silêncio. Aquilo ficou no ar por alguns segundos. Até que ele deu um passo à frente. Depois outro. Diminuindo a distância entre eles de novo. Mas agora não havia confronto. Havia outra coisa. Mais densa. Mais perigosa. — Até garantir que ninguém chegue perto de você — disse ele, mais baixo. O coração dela acelerou na hora. De novo. Mas dessa vez… diferente. Não era só medo. Mariana não se afastou. Mesmo percebendo o quanto ele estava perto. O quanto aquilo estava começando a sair de uma zona segura. — E depois? — perguntou, quase em um sussurro. A pergunta saiu antes que ela pudesse filtrar. E o silêncio que veio depois foi pesado. Muito mais do que qualquer discussão anterior. Leonardo a encarou por alguns segundos. Longos demais. Como se estivesse avaliando algo. Como se estivesse decidindo. Mas então ele recuou. Quebrou o momento. — Depois a gente vê — respondeu, voltando ao tom controlado. Aquilo a atingiu de um jeito estranho. Como se algo tivesse sido interrompido antes de acontecer. Mariana desviou o olhar, incomodada consigo mesma por ter perguntado aquilo. — Você sempre faz isso — disse ela, mais baixa. — Isso o quê? — Chega perto… e depois recua. Ele ficou em silêncio. Mas não negou. Aquilo só confirmou. Mariana cruzou os braços, tentando recuperar a própria firmeza. — Decide o que você quer, Léo — disse, firme agora. — Porque eu não vou ficar presa entre essas duas versões suas. Os olhos dele voltaram para ela. Mais intensos. Mais sérios. — Você acha que eu não sei exatamente o que eu quero? A pergunta veio baixa. Mas carregada. O coração dela disparou. — Então age como se soubesse. Silêncio. E, dessa vez… Ele não recuou completamente. Deu um passo à frente novamente, ficando perto o suficiente para bagunçar qualquer linha de raciocínio. — O problema — começou ele, a voz mais baixa agora — não é saber o que eu quero. Mariana prendeu a respiração sem perceber. — É o que acontece se eu parar de ignorar isso. O ar entre eles ficou pesado. Quente. Perigoso. E, pela primeira vez… Mariana não teve certeza se queria que ele continuasse se controlando. Ou não. O silêncio que veio depois não era vazio. Era carregado de algo prestes a acontecer. E dessa vez… Nenhum dos dois parecia totalmente disposto a impedir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD