Caos e desejo

913 Words
Assim que entraram no carro, Mariana não colocou o cinto. Também não ficou em silêncio. Nem esperou. Ela virou o corpo na direção dele, com um brilho diferente nos olhos. — Deixa eu dirigir. Leonardo virou lentamente o rosto pra ela, como se não tivesse ouvido direito. — O quê? — O carro — disse ela, apontando pro volante. — Deixa eu dirigir. Ele soltou uma risada baixa, desacreditada. — Você tá falando sério? — Tô. — Você tem carteira, pelo menos? Ela hesitou por meio segundo. — Não… — respondeu, sem vergonha nenhuma. — Mas eu sei dirigir. Ele passou a mão pelo rosto, ainda rindo, como se estivesse avaliando o nível do risco. — Você é maluca. Ela deu de ombros, abrindo um sorriso. — Um pouco. O silêncio durou dois segundos. Três. Até que ele abriu a porta. — Vai. Ela arregalou levemente os olhos. — Sério? — Se bater meu carro, eu te mato — respondeu ele, tranquilo. Isso foi o suficiente pra ela sair do banco do passageiro quase pulando e dar a volta no carro. Entrou no lugar do motorista com um sorriso que não cabia no rosto. Ligou o carro. Ajustou o banco. E aumentou o volume da música sem pedir permissão. Leonardo encostou no banco, observando. E, pela primeira vez naquela noite… Ele não tentou controlar. Mariana arrancou com o carro com uma confiança que surpreendeu até ele. O vento entrava pelas janelas abertas, bagunçando o cabelo dela, que voava livre, sem esforço. Ela cantava baixo, batucava no volante, completamente entregue ao momento. Livre. Leve. Viva. Leonardo a observava em silêncio. Os olhos passando pelos detalhes que ele conhecia… mas que, naquele momento, pareciam novos. A forma como ela sorria sem pensar. A forma como o vento desenhava o rosto dela. A beleza natural que não precisava de nada. E aquilo… Aquilo desmontava ele. Porque não era só atração. Nunca foi. Era ela. Sempre foi. Mariana percebeu o olhar dele depois de alguns minutos. — O quê? — perguntou, sorrindo de canto. Ele desviou o olhar por um segundo. — Nada. — Tá me olhando estranho. — Tô pensando se foi uma boa ideia deixar você dirigir — respondeu ele. Ela riu. — Relaxa. E acelerou um pouco mais. — Mariana— — Confia. Ele não respondeu. Mas, no fundo… Ele já confiava. — Quando chegaram em casa, o silêncio voltou. Mas não era o mesmo de antes. Era mais denso. Mais próximo. Mais perigoso. Ela desligou o carro devagar, ainda com um pequeno sorriso no rosto. — Viu? — disse ela. — Não matei ninguém. Ele soltou um leve riso pelo nariz. — Por pouco. Ela virou o rosto na direção dele. E o sorriso diminuiu. Virou outra coisa. Mais lenta. Mais intensa. — Obrigada… — disse ela, mais baixo. Ele sustentou o olhar. — Pelo quê? — Por não tentar controlar tudo… hoje. Aquilo ficou no ar. Ele não respondeu na hora. Só olhou. De verdade. — Nem sempre eu consigo — disse ele, por fim. — Eu sei. O silêncio veio. Mas não afastou. Aproximou. Eles saíram do carro. Entraram na casa. Sem pressa. Sem palavras desnecessárias. — No meio do caminho até a escada, Mariana parou. Leonardo também. E, dessa vez… Nenhum dos dois fingiu que não estava acontecendo. Ela deu um passo na direção dele. — Você complica tudo — murmurou. Ele soltou um leve riso. — Você também não facilita. — Talvez a gente não saiba fazer isso fácil. Ele se aproximou mais. Agora não havia espaço. — Talvez não. O olhar dele caiu nos lábios dela. E ficou. Foi o suficiente. O beijo veio intenso, imediato, como se tivesse sido segurado por tempo demais. As mãos dele foram firmes na cintura dela, puxando o corpo contra o dele, enquanto Mariana respondia na mesma intensidade, sem medo, sem hesitação. O ar ficou quente rápido. Pesado. Carregado de tudo que eles vinham evitando. Ela se afastou só o suficiente pra respirar, os olhos ainda presos nos dele. — Vai dizer que isso é um erro de novo? — provocou. Ele passou o polegar pelo rosto dela, devagar. — Não hoje. E dessa vez… Ele não recuou. A puxou de volta, com mais urgência, conduzindo ela até o quarto sem quebrar o contato, como se qualquer distância fosse insuportável. A porta se fechou. E o resto do mundo deixou de existir. — Aquela noite não teve dúvidas. Nem freios. Nem espaço pra negação. O toque dele era firme, dominante… mas diferente. Havia cuidado ali, uma atenção silenciosa que ele não oferecia a ninguém. E Mariana sentia. Cada gesto. Cada aproximação. Cada respiração. Era mais do que desejo. Era conexão. Era tudo o que eles tinham tentado evitar… vindo à tona de uma vez só. — Você ainda é mandão — murmurou ela em meio a um sorriso. Ele aproximou o rosto, a voz baixa. — E você ainda me desafia. — Sempre. E isso só intensificou tudo. A noite passou sem pressa. Sem interrupções. Sem arrependimento. Porque, ali… Eles não eram passado. Nem erro. Nem limite. Eram só dois corpos… e duas vontades que nunca souberam se ignorar. — Mais tarde, já deitados, o silêncio voltou. Mas agora… Era tranquilo. Mariana estava próxima, relaxada, o rosto sereno. Leonardo a observava em silêncio. Sabendo que aquilo não resolvia tudo. Mas, ainda assim… Naquela noite… Ele deixou de lado o controle. E só sentiu. E, pela primeira vez em muito tempo… Isso bastou.
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