A manhã começou estranhamente tranquila.
Até demais.
Mariana desceu as escadas ajeitando a bolsa no ombro, o salto marcando firme no piso, enquanto Leonardo já a esperava próximo à porta, com as chaves do carro na mão.
— A gente vai se atrasar — disse ele, olhando o relógio.
— Calma — respondeu ela, com um meio sorriso. — Nem tudo precisa ser cronometrado.
Ele arqueou uma sobrancelha, mas não respondeu.
Saíram juntos.
O ar estava fresco, o céu claro… um contraste perigoso com o que estava prestes a acontecer.
Leonardo abriu a porta do carro para ela, como de costume, e Mariana entrou. Ele deu a volta, sentou no banco do motorista e ligou o carro.
Mas, antes que pudesse sair…
— d***a.
Ele virou o rosto.
— O quê?
— Minha pasta — disse ela, olhando para o banco de trás. — Esqueci lá em cima.
Ele soltou um suspiro curto.
— Eu pego.
— Não, é rápido — disse ela, já abrindo a porta. — Eu vou.
Ele não gostou.
Deu pra ver.
Mas não impediu.
Mariana saiu do carro e atravessou o pequeno caminho até o portão, entrando novamente na casa com passos rápidos.
Leonardo ficou ali, observando pelo retrovisor.
Atento.
Sempre atento.
—
Não demorou muito.
Ela apareceu de novo.
Com a pasta na mão.
Descendo os degraus com pressa.
— Viu? — disse ela, sorrindo de leve enquanto caminhava de volta. — Rápido.
Leonardo ia responder.
Mas não deu tempo.
O som veio antes.
Alto.
Violento.
Um carro.
Em alta velocidade.
Mariana virou o rosto no reflexo.
E só teve tempo de reagir.
— MARIANA!
O grito de Leonardo veio junto com o som do motor avançando.
Ela tentou desviar.
O salto atrapalhou.
O corpo perdeu o equilíbrio.
E, por um segundo…
Tudo ficou lento.
Ela caiu.
Forte.
No asfalto.
O carro passou raspando.
Rápido demais.
Sumiu.
Como se nunca tivesse estado ali.
—
— MARIANA!
Leonardo já estava fora do carro antes mesmo dela processar a dor.
Ele correu até ela, o coração batendo descontrolado, o olhar percorrendo o corpo dela em segundos, procurando qualquer sinal pior.
— Você tá bem?! — perguntou, a voz tensa, quase falhando.
Mariana apertou os olhos, sentindo a dor latejar no tornozelo.
— Meu pé… — murmurou, tentando se levantar, mas falhando. — d***a…
Ele segurou o rosto dela com cuidado, forçando ela a olhar pra ele.
— Olha pra mim — disse, firme. — Você bateu a cabeça?
— Não… só o pé…
Ele respirou fundo.
Mas não relaxou.
Os olhos dele já estavam varrendo a rua.
Procurando.
Qualquer coisa.
Qualquer pista.
— Você viu o carro? — perguntou ela, ainda com a respiração descompassada.
— Azul — disse ele, seco. — De luxo. Vidro escuro.
Mais nada.
E isso…
Era pior.
Ele não pensou duas vezes.
Passou um braço pelas costas dela e outro por baixo das pernas, pegando Mariana no colo com facilidade.
Ela soltou um pequeno gemido de dor ao ser levantada.
— Calma… — murmurou ele, mais baixo agora.
Entrou com ela em casa rapidamente, sem olhar pra trás, sem perder tempo.
—
Ele a colocou no sofá com cuidado, mas o corpo dele estava tenso.
Travado.
Os olhos ainda carregados.
Raiva.
Fria.
Perigosa.
— Fica aqui — disse ele.
Mariana segurou o braço dele antes que ele se afastasse.
— Léo…
Ele olhou pra ela.
— Isso foi… — ela hesitou — alguém tentando me m***r?
O silêncio caiu.
Pesado.
Ele não mentiu.
— Pode ser.
Aquilo gelou ela.
Mas, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ele já estava se afastando.
— Eu preciso fazer uma ligação.
— Léo—
— Confia em mim — disse ele, direto. — Eu vou resolver isso.
Ele chamou uma das funcionárias.
— Fica com ela. Vê esse pé, gelo, o que precisar.
A mulher assentiu rapidamente.
E Leonardo saiu.
—
Ele foi direto para o escritório.
Fechou a porta.
Trancou.
Pegou o celular.
O olhar já não era mais o mesmo.
Não era o Leonardo de antes.
Era outro.
Frio.
Calculista.
Perigoso.
Ele discou um número.
Chamou uma vez.
Atenderam na segunda.
— Fala.
A voz do outro lado era grave.
Respeitosa.
Mas tensa.
— Quero saber quem foi — disse Leonardo, direto. — Agora.
— Do que você tá falando?
— Um carro tentou atropelar a Mariana agora.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
— Descreve.
— Azul. Alto padrão. Vidro escuro. Não era amador.
Outro silêncio.
Mais longo.
— Isso não foi aleatório — disse a voz. — A gente teve movimentação estranha ontem à noite.
O maxilar de Leonardo travou.
— Quem?
— Ainda não temos certeza… mas tem gente testando território.
Aquilo foi o suficiente.
— Então escuta bem — disse Leonardo, a voz baixa, mas carregada de ameaça. — Eu quero nome. Quero endereço. Quero saber quem teve coragem de encostar nela.
— Já tô puxando isso.
— E mais uma coisa — continuou ele. — Dobra a segurança. Dentro e fora.
— Já devia estar dobrada.
— Agora vai ficar tripla.
O silêncio do outro lado foi de entendimento.
— Entendi.
Leonardo respirou fundo.
Mas não acalmou.
— Se isso for o que eu tô pensando… — disse ele — alguém acabou de comprar uma guerra.
E desligou.
—
Do lado de fora…
Nada parecia diferente.
Mas estava.
Porque, pela primeira vez…
Mariana não era só alguém próxima.
Ela era alvo.
E isso…
Mudava tudo.