Alvo marcado

905 Words
A manhã começou estranhamente tranquila. Até demais. Mariana desceu as escadas ajeitando a bolsa no ombro, o salto marcando firme no piso, enquanto Leonardo já a esperava próximo à porta, com as chaves do carro na mão. — A gente vai se atrasar — disse ele, olhando o relógio. — Calma — respondeu ela, com um meio sorriso. — Nem tudo precisa ser cronometrado. Ele arqueou uma sobrancelha, mas não respondeu. Saíram juntos. O ar estava fresco, o céu claro… um contraste perigoso com o que estava prestes a acontecer. Leonardo abriu a porta do carro para ela, como de costume, e Mariana entrou. Ele deu a volta, sentou no banco do motorista e ligou o carro. Mas, antes que pudesse sair… — d***a. Ele virou o rosto. — O quê? — Minha pasta — disse ela, olhando para o banco de trás. — Esqueci lá em cima. Ele soltou um suspiro curto. — Eu pego. — Não, é rápido — disse ela, já abrindo a porta. — Eu vou. Ele não gostou. Deu pra ver. Mas não impediu. Mariana saiu do carro e atravessou o pequeno caminho até o portão, entrando novamente na casa com passos rápidos. Leonardo ficou ali, observando pelo retrovisor. Atento. Sempre atento. — Não demorou muito. Ela apareceu de novo. Com a pasta na mão. Descendo os degraus com pressa. — Viu? — disse ela, sorrindo de leve enquanto caminhava de volta. — Rápido. Leonardo ia responder. Mas não deu tempo. O som veio antes. Alto. Violento. Um carro. Em alta velocidade. Mariana virou o rosto no reflexo. E só teve tempo de reagir. — MARIANA! O grito de Leonardo veio junto com o som do motor avançando. Ela tentou desviar. O salto atrapalhou. O corpo perdeu o equilíbrio. E, por um segundo… Tudo ficou lento. Ela caiu. Forte. No asfalto. O carro passou raspando. Rápido demais. Sumiu. Como se nunca tivesse estado ali. — — MARIANA! Leonardo já estava fora do carro antes mesmo dela processar a dor. Ele correu até ela, o coração batendo descontrolado, o olhar percorrendo o corpo dela em segundos, procurando qualquer sinal pior. — Você tá bem?! — perguntou, a voz tensa, quase falhando. Mariana apertou os olhos, sentindo a dor latejar no tornozelo. — Meu pé… — murmurou, tentando se levantar, mas falhando. — d***a… Ele segurou o rosto dela com cuidado, forçando ela a olhar pra ele. — Olha pra mim — disse, firme. — Você bateu a cabeça? — Não… só o pé… Ele respirou fundo. Mas não relaxou. Os olhos dele já estavam varrendo a rua. Procurando. Qualquer coisa. Qualquer pista. — Você viu o carro? — perguntou ela, ainda com a respiração descompassada. — Azul — disse ele, seco. — De luxo. Vidro escuro. Mais nada. E isso… Era pior. Ele não pensou duas vezes. Passou um braço pelas costas dela e outro por baixo das pernas, pegando Mariana no colo com facilidade. Ela soltou um pequeno gemido de dor ao ser levantada. — Calma… — murmurou ele, mais baixo agora. Entrou com ela em casa rapidamente, sem olhar pra trás, sem perder tempo. — Ele a colocou no sofá com cuidado, mas o corpo dele estava tenso. Travado. Os olhos ainda carregados. Raiva. Fria. Perigosa. — Fica aqui — disse ele. Mariana segurou o braço dele antes que ele se afastasse. — Léo… Ele olhou pra ela. — Isso foi… — ela hesitou — alguém tentando me m***r? O silêncio caiu. Pesado. Ele não mentiu. — Pode ser. Aquilo gelou ela. Mas, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ele já estava se afastando. — Eu preciso fazer uma ligação. — Léo— — Confia em mim — disse ele, direto. — Eu vou resolver isso. Ele chamou uma das funcionárias. — Fica com ela. Vê esse pé, gelo, o que precisar. A mulher assentiu rapidamente. E Leonardo saiu. — Ele foi direto para o escritório. Fechou a porta. Trancou. Pegou o celular. O olhar já não era mais o mesmo. Não era o Leonardo de antes. Era outro. Frio. Calculista. Perigoso. Ele discou um número. Chamou uma vez. Atenderam na segunda. — Fala. A voz do outro lado era grave. Respeitosa. Mas tensa. — Quero saber quem foi — disse Leonardo, direto. — Agora. — Do que você tá falando? — Um carro tentou atropelar a Mariana agora. Silêncio. Curto. Pesado. — Descreve. — Azul. Alto padrão. Vidro escuro. Não era amador. Outro silêncio. Mais longo. — Isso não foi aleatório — disse a voz. — A gente teve movimentação estranha ontem à noite. O maxilar de Leonardo travou. — Quem? — Ainda não temos certeza… mas tem gente testando território. Aquilo foi o suficiente. — Então escuta bem — disse Leonardo, a voz baixa, mas carregada de ameaça. — Eu quero nome. Quero endereço. Quero saber quem teve coragem de encostar nela. — Já tô puxando isso. — E mais uma coisa — continuou ele. — Dobra a segurança. Dentro e fora. — Já devia estar dobrada. — Agora vai ficar tripla. O silêncio do outro lado foi de entendimento. — Entendi. Leonardo respirou fundo. Mas não acalmou. — Se isso for o que eu tô pensando… — disse ele — alguém acabou de comprar uma guerra. E desligou. — Do lado de fora… Nada parecia diferente. Mas estava. Porque, pela primeira vez… Mariana não era só alguém próxima. Ela era alvo. E isso… Mudava tudo.
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