Mariana tentou agir normal.
Mas não estava.
Desde a noite anterior, algo dentro dela tinha mudado. Não era só mágoa… era um tipo de alerta constante, como se qualquer aproximação pudesse virar mais uma ferida.
Ainda assim, ela estava ali.
Sentada na mesa em frente à sala de Leonardo, fingindo concentração nos papéis, quando ouviu uma voz familiar.
— Mariana…
Ela levantou o olhar.
Miguel.
Parado ali, com um sorriso tímido.
— Oi… — respondeu ela, mais suave do que esperava.
Ele se aproximou, meio sem jeito.
— Eu… queria falar com você — disse. — Posso?
Ela assentiu.
— Claro.
Ele apoiou uma das mãos na mesa, respirando fundo antes de continuar.
— Sobre ontem… — começou — eu fiquei pensando se, de alguma forma, causei algum problema entre você e… seu chefe.
Mariana soltou um pequeno suspiro, balançando a cabeça.
— Você não tem culpa de nada, Miguel. Sério.
— Tem certeza? Porque aquele clima… — ele deu um meio sorriso sem graça — não parecia muito saudável.
Ela quase riu.
— Não é — respondeu, sincera.
Ele a observou por um instante.
— Mesmo assim… eu não queria ter atrapalhado.
Mariana inclinou levemente a cabeça, analisando ele por um segundo, e então tomou uma decisão impulsiva.
— Então vamos fazer o seguinte — disse ela. — Pra você se redimir… você almoça comigo hoje.
Ele piscou, surpreso.
— Sério?
— Sério.
O sorriso dele se abriu de verdade dessa vez.
— Eu aceito.
—
O restaurante era o mesmo do dia anterior.
Mas o clima… completamente diferente.
Mais leve.
Mais tranquilo.
Sem interrupções… pelo menos por enquanto.
— Você sempre foi assim? — perguntou Miguel, sorrindo. — Decidindo as coisas do nada?
Mariana riu de leve.
— Não… acho que isso é novo.
— Gostei — disse ele.
Eles pediram comida, e a conversa foi fluindo naturalmente, como se o tempo tivesse voltado alguns anos.
— Você lembra da professora Marta? — perguntou ele.
Mariana arregalou os olhos.
— Aquela que implicava com qualquer um que falasse fora de hora?
— Essa mesma.
Ela riu.
— Você vivia de castigo por causa dela.
— Injustamente — se defendeu ele. — Eu só fazia comentários relevantes.
— Comentários idiotas — corrigiu ela, rindo.
Ele levou a mão ao peito, fingindo ofensa.
— Você sempre foi c***l comigo.
— Sempre fui sincera.
Os dois riram.
E, por alguns minutos, Mariana esqueceu.
Esqueceu de Leonardo.
Do problema.
De tudo.
Até que o olhar de Miguel mudou.
Ficou mais sério.
— Posso te falar uma coisa? — perguntou ele.
Ela hesitou, mas assentiu.
— Pode.
Ele respirou fundo.
— Eu sempre gostei de você.
O sorriso dela desapareceu.
Devagar.
— Miguel…
— Não, calma — disse ele rapidamente. — Eu não tô dizendo isso pra te pressionar nem nada. Só… nunca tive coragem de falar antes.
Mariana desviou o olhar por um segundo, claramente desconfortável.
— Eu achei que você soubesse — continuou ele, mais baixo.
— Eu não sabia — respondeu ela.
O silêncio caiu.
— Você tá com alguém? — perguntou ele, com cuidado.
Ela voltou a encará-lo.
Pensou por um segundo.
— Não — disse, firme. — E pretendo continuar assim.
Ele assentiu na hora.
— Entendi.
O clima ficou um pouco mais pesado.
— Desculpa — disse ele. — Acho que fui invasivo.
— Um pouco — respondeu ela, sincera. — Mas tá tudo bem.
Ele sorriu de leve, aceitando.
E, aos poucos, a conversa voltou a fluir… mas não como antes.
Agora havia algo ali.
Diferente.
—
Quando Mariana voltou para a empresa, tentou focar no trabalho.
Mas não demorou muito.
— Eu preciso falar com ele.
A voz cortou o ambiente.
Ela congelou.
Era ela.
A mesma mulher.
Juliana.
Parada na frente da mesa, impecável, elegante… e com o mesmo olhar afiado.
— Ele está em reunião — disse Mariana, profissional.
Juliana riu de leve.
— Claro que está.
Então os olhos dela focaram.
Reconheceram.
E mudaram.
— Ah… você.
Mariana sentiu o corpo enrijecer.
— Posso ajudar em algo? — manteve a postura.
Juliana se aproximou um pouco mais.
— Ajudar? — repetiu, com um sorriso venenoso. — Você já ajudou o suficiente, não acha?
O coração de Mariana disparou.
— Eu não sei do que você está falando.
Juliana inclinou levemente a cabeça.
— Sabe sim. Essa carinha de inocente não engana ninguém.
Aquilo começou a machucar.
— Eu vou pedir pra você se retirar — disse Mariana, mais firme.
Juliana deu uma risada curta.
— Quem você pensa que é?
O olhar dela desceu pelo corpo de Mariana.
Lento.
Crítico.
— Agora entendi… — murmurou. — Ele resolveu variar o tipo.
Mariana sentiu os olhos arderem.
Mas não ia chorar ali.
Não na frente dela.
— Você devia ter um pouco mais de classe — continuou Juliana. — Mas acho que isso não se compra.
— Chega.
A voz de Leonardo surgiu atrás.
Firme.
Fria.
Juliana virou na hora.
— Léo…
— Na minha sala. Agora.
Sem espaço pra discussão.
Ela sorriu de lado.
— Claro.
Antes de entrar, lançou mais um olhar para Mariana.
Como se tivesse vencido.
E entrou.
—
A porta se fechou.
O clima dentro da sala mudou completamente.
— Você perdeu a noção? — disse Leonardo, direto.
Juliana cruzou os braços.
— Eu só falei a verdade.
— Você não tinha direito nenhum de falar com ela daquele jeito.
— Ah, então agora você tá defendendo? — provocou ela. — Interessante.
Leonardo deu um passo à frente.
— A gente nunca teve nada, Juliana. Nunca teve. E nunca vai ter.
O sorriso dela vacilou por um segundo.
— Não vem com isso agora—
— Eu tô sendo claro — cortou ele. — Acabou.
O olhar dela endureceu.
— É por causa dela?
Ele não respondeu.
E isso disse tudo.
— Aquela sem sal? — disse ela, com desprezo.
Foi rápido.
Leonardo segurou o braço dela com firmeza, puxando um pouco mais perto.
— Lava a boca antes de falar dela — disse ele, baixo, perigoso.
O ar ficou pesado.
Tenso.
E foi nesse momento—
A porta abriu.
Mariana.
Ela parou.
Os dois estavam próximos demais.
Próximos o suficiente pra parecer outra coisa.
O coração dela caiu.
— Desculpa… — disse, sem conseguir esconder o impacto na voz. — Eu… não sabia.
E saiu.
Antes que qualquer um pudesse dizer algo.
—
Mariana voltou para a mesa.
Sentou.
Respirou fundo.
Mas os olhos já estavam cheios.
— i****a… — murmurou, baixinho.
Mas não sabia mais se estava falando dele…
Ou dela mesma.