Mariana m*l enxergava direito enquanto subia as escadas.
As lágrimas vinham rápidas, quentes, sem que ela conseguisse segurar. O peito doía de um jeito sufocante, como se cada palavra dita lá embaixo ainda estivesse ecoando dentro dela.
Ela entrou no quarto e bateu a porta com força.
Mas não adiantou.
Não trouxe alívio.
Só silêncio.
E dor.
— d***a… — murmurou, passando a mão no rosto, tentando se recompor.
Não conseguiu.
O choro veio mais forte.
Mais pesado.
E, antes que ela pudesse se recuperar…
A porta abriu.
Leonardo entrou.
Sem bater.
Sem pedir.
— Sai daqui — disse ela na mesma hora, virando o rosto.
A voz saiu falha.
Mas firme.
Ele fechou a porta atrás de si, ignorando completamente.
— A gente ainda não terminou — disse ele.
Ela riu sem humor, limpando o rosto com raiva.
— Eu terminei — respondeu. — Já ouvi mais do que precisava por hoje.
— Mariana—
— NÃO! — ela se virou de uma vez, os olhos vermelhos, o rosto molhado. — Você não vai entrar aqui, me atacar daquele jeito… e depois agir como se tivesse direito de continuar!
O silêncio veio pesado.
Mas ele não saiu.
— Eu não tava te atacando — disse ele, mais controlado agora.
Ela soltou uma risada amarga.
— Não? — respondeu. — Então aquilo lá foi o quê? Cuidado? p******o?
Ele passou a mão pelo cabelo, irritado.
— Foi preocupação.
— Não — cortou ela, na hora. — Foi desrespeito.
Aquilo ficou no ar.
Forte.
— Você me tratou como se eu fosse qualquer uma — continuou ela, a voz tremendo. — Como se eu tivesse feito alguma coisa errada só por… por almoçar com alguém!
— Você se expôs — rebateu ele. — Você não entende a situação—
— PARA DE DECIDIR POR MIM! — explodiu ela.
O quarto pareceu ficar menor.
Mais quente.
Mais sufocante.
— Eu não sou uma criança, Léo! — continuou ela. — Eu não preciso da sua autorização pra viver!
— Não é sobre autorização! — retrucou ele, a voz subindo agora. — É sobre você não se colocar em risco!
— E desde quando isso te dá o direito de me humilhar daquele jeito?!
O silêncio veio pesado.
Mas nenhum dos dois recuou.
— Eu não te humilhei — disse ele, mais baixo, mas ainda duro.
Mariana piscou, incrédula.
— Você perguntou se eu já tinha me oferecido pra outro homem — disse ela, a voz quebrando. — Você tem noção do que isso significa?
Ele travou por um segundo.
Mas não pediu desculpa.
E isso doeu mais.
— Eu falei sem pensar — disse ele, por fim.
— Não — respondeu ela, balançando a cabeça. — Você falou exatamente o que pensa.
Aquilo acertou.
Mas ele reagiu com dureza.
— Eu falei porque eu sei como esse mundo funciona.
— E eu não faço parte dele! — rebateu ela.
— Faz sim! — disse ele, mais alto. — A partir do momento que você tá aqui, comigo, você faz!
O silêncio caiu.
Pesado.
Denso.
Irreversível.
— Então é isso? — disse ela, mais baixo agora, mas carregado. — Eu virei parte disso… sem nem escolher?
Ele não respondeu.
E o silêncio dele…
Foi resposta suficiente.
As lágrimas voltaram mais fortes.
— Você não me protege — disse ela, a voz falhando. — Você me prende.
Aquilo atravessou.
Mas ele não recuou.
— Eu faço o que precisa ser feito.
— Não — respondeu ela. — Você faz o que você quer.
Mais silêncio.
Mais dor.
— E o pior — continuou ela — é que eu deixei você se aproximar… deixei você entrar… achei que, pelo menos comigo, você fosse diferente.
O olhar dele mudou.
Mas não o suficiente.
— Eu sou diferente com você — disse ele.
Ela riu, desacreditada.
— Isso aqui é o seu “diferente”? — perguntou, abrindo os braços. — Porque, se for… eu não quero.
Aquilo ficou no ar.
Pesado.
Definitivo.
Leonardo deu um passo à frente.
— Você não entende—
— ENTÃO ME FAZ ENTENDER! — gritou ela, já sem controle. — Porque eu tô cansada de tentar adivinhar o que passa na sua cabeça!
O silêncio veio forte depois disso.
Mas ela não parou.
— Um dia você me beija como se sentisse tudo… — disse, a voz tremendo — e no outro me trata como se eu fosse descartável!
Ele travou o maxilar.
— Você não é descartável.
— Então para de agir como se eu fosse!
O silêncio que veio depois foi o mais pesado de todos.
Os dois se encararam.
Respiração pesada.
Olhos carregados.
— Eu não sei fazer isso do seu jeito — disse ele, por fim, mais baixo.
— Então aprende — respondeu ela. — Porque do jeito que tá… só machuca.
Aquilo ficou.
Fundo.
Mas, ao invés de aproximar…
Afastou ainda mais.
Leonardo passou a mão pelo rosto, claramente lutando contra algo dentro dele.
— Eu não posso te dar o que você quer — disse ele.
Aquilo foi o golpe final.
Mariana ficou em silêncio por alguns segundos.
Só olhando.
Sentindo.
Até que assentiu.
Devagar.
— Então não chega perto — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Porque eu não vou mais aceitar metade.
O silêncio caiu.
Pesado.
Frio.
Definitivo.
Leonardo não respondeu.
E, dessa vez…
Nem tentou.
Ele apenas virou as costas.
E saiu.
Deixando ela ali.
Sozinha.
Chorando.
E, talvez pela primeira vez…
Realmente quebrada.