Feridas abertas

914 Words
Mariana m*l enxergava direito enquanto subia as escadas. As lágrimas vinham rápidas, quentes, sem que ela conseguisse segurar. O peito doía de um jeito sufocante, como se cada palavra dita lá embaixo ainda estivesse ecoando dentro dela. Ela entrou no quarto e bateu a porta com força. Mas não adiantou. Não trouxe alívio. Só silêncio. E dor. — d***a… — murmurou, passando a mão no rosto, tentando se recompor. Não conseguiu. O choro veio mais forte. Mais pesado. E, antes que ela pudesse se recuperar… A porta abriu. Leonardo entrou. Sem bater. Sem pedir. — Sai daqui — disse ela na mesma hora, virando o rosto. A voz saiu falha. Mas firme. Ele fechou a porta atrás de si, ignorando completamente. — A gente ainda não terminou — disse ele. Ela riu sem humor, limpando o rosto com raiva. — Eu terminei — respondeu. — Já ouvi mais do que precisava por hoje. — Mariana— — NÃO! — ela se virou de uma vez, os olhos vermelhos, o rosto molhado. — Você não vai entrar aqui, me atacar daquele jeito… e depois agir como se tivesse direito de continuar! O silêncio veio pesado. Mas ele não saiu. — Eu não tava te atacando — disse ele, mais controlado agora. Ela soltou uma risada amarga. — Não? — respondeu. — Então aquilo lá foi o quê? Cuidado? p******o? Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. — Foi preocupação. — Não — cortou ela, na hora. — Foi desrespeito. Aquilo ficou no ar. Forte. — Você me tratou como se eu fosse qualquer uma — continuou ela, a voz tremendo. — Como se eu tivesse feito alguma coisa errada só por… por almoçar com alguém! — Você se expôs — rebateu ele. — Você não entende a situação— — PARA DE DECIDIR POR MIM! — explodiu ela. O quarto pareceu ficar menor. Mais quente. Mais sufocante. — Eu não sou uma criança, Léo! — continuou ela. — Eu não preciso da sua autorização pra viver! — Não é sobre autorização! — retrucou ele, a voz subindo agora. — É sobre você não se colocar em risco! — E desde quando isso te dá o direito de me humilhar daquele jeito?! O silêncio veio pesado. Mas nenhum dos dois recuou. — Eu não te humilhei — disse ele, mais baixo, mas ainda duro. Mariana piscou, incrédula. — Você perguntou se eu já tinha me oferecido pra outro homem — disse ela, a voz quebrando. — Você tem noção do que isso significa? Ele travou por um segundo. Mas não pediu desculpa. E isso doeu mais. — Eu falei sem pensar — disse ele, por fim. — Não — respondeu ela, balançando a cabeça. — Você falou exatamente o que pensa. Aquilo acertou. Mas ele reagiu com dureza. — Eu falei porque eu sei como esse mundo funciona. — E eu não faço parte dele! — rebateu ela. — Faz sim! — disse ele, mais alto. — A partir do momento que você tá aqui, comigo, você faz! O silêncio caiu. Pesado. Denso. Irreversível. — Então é isso? — disse ela, mais baixo agora, mas carregado. — Eu virei parte disso… sem nem escolher? Ele não respondeu. E o silêncio dele… Foi resposta suficiente. As lágrimas voltaram mais fortes. — Você não me protege — disse ela, a voz falhando. — Você me prende. Aquilo atravessou. Mas ele não recuou. — Eu faço o que precisa ser feito. — Não — respondeu ela. — Você faz o que você quer. Mais silêncio. Mais dor. — E o pior — continuou ela — é que eu deixei você se aproximar… deixei você entrar… achei que, pelo menos comigo, você fosse diferente. O olhar dele mudou. Mas não o suficiente. — Eu sou diferente com você — disse ele. Ela riu, desacreditada. — Isso aqui é o seu “diferente”? — perguntou, abrindo os braços. — Porque, se for… eu não quero. Aquilo ficou no ar. Pesado. Definitivo. Leonardo deu um passo à frente. — Você não entende— — ENTÃO ME FAZ ENTENDER! — gritou ela, já sem controle. — Porque eu tô cansada de tentar adivinhar o que passa na sua cabeça! O silêncio veio forte depois disso. Mas ela não parou. — Um dia você me beija como se sentisse tudo… — disse, a voz tremendo — e no outro me trata como se eu fosse descartável! Ele travou o maxilar. — Você não é descartável. — Então para de agir como se eu fosse! O silêncio que veio depois foi o mais pesado de todos. Os dois se encararam. Respiração pesada. Olhos carregados. — Eu não sei fazer isso do seu jeito — disse ele, por fim, mais baixo. — Então aprende — respondeu ela. — Porque do jeito que tá… só machuca. Aquilo ficou. Fundo. Mas, ao invés de aproximar… Afastou ainda mais. Leonardo passou a mão pelo rosto, claramente lutando contra algo dentro dele. — Eu não posso te dar o que você quer — disse ele. Aquilo foi o golpe final. Mariana ficou em silêncio por alguns segundos. Só olhando. Sentindo. Até que assentiu. Devagar. — Então não chega perto — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Porque eu não vou mais aceitar metade. O silêncio caiu. Pesado. Frio. Definitivo. Leonardo não respondeu. E, dessa vez… Nem tentou. Ele apenas virou as costas. E saiu. Deixando ela ali. Sozinha. Chorando. E, talvez pela primeira vez… Realmente quebrada.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD