Mariana não dormiu direito.
Mesmo cansada, mesmo tentando se distrair com qualquer coisa… a mente não desligava. A conversa com a mãe, o beijo, a discussão com Leonardo… tudo parecia se misturar, criando um nó difícil de desatar.
Ainda assim, quando o despertador tocou, ela levantou.
Determinada.
Se havia algo que ela podia controlar naquele momento… era ela mesma.
E aquele emprego.
—
A empresa Costa era exatamente o que ela imaginava por fora.
Elegante.
Organizada.
Imponente.
Tudo ali gritava profissionalismo… e escondia muito mais do que mostrava.
Mariana entrou com um misto de curiosidade e tensão, tentando não demonstrar nada. Uma funcionária a recebeu e a conduziu diretamente até o andar de Leonardo.
— Ele pediu pra você ficar aqui — disse a mulher, apontando para uma mesa logo em frente a uma porta de vidro fumê. — Qualquer coisa, ele chama.
Mariana olhou ao redor.
A mesa dela ficava exatamente ali.
De frente para a sala dele.
Sem espaço pra erro.
— Perfeito — murmurou, mais para si mesma.
Não demorou muito para a porta abrir.
Leonardo apareceu.
Impecável.
Camisa social, postura firme, expressão fechada.
Mas os olhos…
Os olhos demoraram um segundo a mais nela.
— Chegou cedo — disse ele.
— Primeiro dia — respondeu Mariana, profissional. — Não queria me atrasar.
Ele assentiu.
— Bom.
E voltou para a sala.
Sem mais nada.
Aquilo já dizia muito.
—
A manhã passou relativamente tranquila.
Mariana organizou documentos, respondeu e-mails, tentou se adaptar à rotina. Em alguns momentos, pegava-se olhando para a porta da sala dele… como se esperasse algo.
Mas nada vinha.
E talvez fosse melhor assim.
—
Na hora do almoço, ela decidiu sair.
Precisava de ar.
De espaço.
De qualquer coisa que não envolvesse Leonardo.
Foi quando ouviu uma voz familiar.
— Mariana?
Ela se virou na hora.
E sorriu, surpresa.
— Miguel?!
Ele abriu um sorriso largo, caminhando até ela.
— Não acredito que é você!
Eles se abraçaram rapidamente, rindo.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntou ela.
— Trabalho aqui já faz um tempo — respondeu ele. — E você?
— Comecei hoje.
— Olha só… o mundo é pequeno mesmo.
Os dois riram.
A conversa fluiu fácil, leve, como se o tempo não tivesse passado.
— Tá indo almoçar? — perguntou ele.
— Tô.
— Vem comigo — sugeriu. — Tem um restaurante aqui perto muito bom.
Mariana hesitou por um segundo.
Mas sorriu.
— Vamos.
—
O restaurante era simples, mas agradável. Eles se sentaram, pediram comida e continuaram conversando como velhos amigos. Riram de histórias da escola, lembraram de professores, situações constrangedoras…
E, pela primeira vez naquele dia…
Mariana se sentiu leve.
De verdade.
— Você não mudou nada — disse Miguel, sorrindo.
— Mudou sim — respondeu ela. — Só disfarço melhor.
Ele riu.
Mas antes que pudesse responder…
A presença mudou o ambiente.
Mariana nem precisou olhar para saber.
Leonardo.
Parado ao lado da mesa.
O olhar direto.
Frio.
— Levanta — disse ele, seco.
Miguel olhou entre os dois, confuso.
Mariana arqueou levemente a sobrancelha.
— Oi pra você também — respondeu, calma.
— Vamos — repetiu ele, ignorando completamente Miguel.
Mariana cruzou os braços, recostando-se na cadeira.
— Eu tô almoçando.
O silêncio ficou pesado.
— Agora — disse ele, mais firme.
Ela soltou uma leve risada.
— Não.
O olhar dele escureceu.
— Mariana.
— Leonardo — rebateu ela, no mesmo tom. — Eu tô no meu horário de almoço.
Miguel claramente não sabia onde se enfiar.
— Acho que eu posso ir—
— Não precisa — disse Mariana, sem tirar os olhos de Leonardo.
Aquilo foi um desafio.
E ele entendeu.
— Você quer fazer isso aqui? — perguntou ele, baixo.
— Fazer o quê? — respondeu ela. — Almoçar com um amigo?
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
Tenso.
Pesado.
Leonardo passou a língua pelo lábio inferior, claramente irritado.
— Depois a gente conversa — disse ele.
Mas não era uma promessa.
Era um aviso.
E então ele virou as costas.
E foi embora.
Sem conseguir o que queria.
Mariana soltou o ar devagar, voltando a sentar direito.
— Desculpa isso — disse para Miguel.
Ele deu um meio sorriso.
— Acho que eu cheguei na parte interessante da sua vida.
Ela riu de leve.
Mas, por dentro…
Sabia que aquilo ainda ia explodir.
—
E explodiu.
Quando Mariana chegou em casa, o clima já estava diferente.
Pesado.
Silencioso.
Ela m*l teve tempo de subir as escadas.
— O almoço tava bom?
A voz de Leonardo veio da sala.
Ela parou.
Virou lentamente.
Ele estava encostado, olhando para ela com um meio sorriso que não tinha nada de leve.
Era deboche.
— Tava — respondeu ela, firme.
— Que bom — disse ele. — Espero que tenha aproveitado bem.
Ela cruzou os braços.
— Aproveitei.
O olhar dele desceu e subiu nela lentamente.
— Já se ofereceu o suficiente pra outro homem hoje?
Aquilo foi direto.
Cruel.
Mariana sentiu o corpo inteiro travar por um segundo.
E então a raiva veio.
Forte.
— Você tá falando sério? — disse ela, a voz subindo.
Ele deu de ombros.
— Só perguntando.
— Não — respondeu ela, firme. — Porque, diferente das mulheres que você costuma levar pra cama… eu não sou assim.
O silêncio explodiu.
Os olhos dele escureceram de vez.
— Cuidado com o que você fala.
— Por quê? — desafiou ela. — Doeu ouvir?
Ele deu um passo à frente.
— Você não faz ideia do que tá falando.
— Faço sim — retrucou ela. — Eu vi hoje. Eu entendi ontem. Pra você é tudo fácil… descartável.
— E você tá se comportando exatamente como elas — cortou ele, frio.
Aquilo foi como um t**a.
— Você é inacreditável — disse ela, a voz falhando levemente.
— E você é irresponsável — rebateu ele. — Sai com qualquer um, se expõe, ignora tudo que tá acontecendo—
— ERA UM AMIGO! — gritou ela.
O silêncio veio pesado depois disso.
Mas ele não recuou.
— Você não tem noção do risco que corre.
— E você não tem noção do quanto me machuca — respondeu ela, mais baixo agora.
Ele travou.
Mas não cedeu.
— Eu tô tentando te proteger.
— Do quê? — perguntou ela. — Do mundo… ou de você mesmo?
Aquilo atingiu.
Mas, ao invés de suavizar…
Ele endureceu.
— Talvez eu devesse ter te deixado lá fora — disse ele, frio demais.
E foi o suficiente.
Os olhos dela se encheram na hora.
Mas não era fraqueza.
Era dor.
— Pois devia mesmo — disse ela, a voz quebrando. — Porque pelo menos lá fora eu não me sentiria assim.
O silêncio caiu.
Pesado.
Irreversível.
Mariana virou as costas, subindo as escadas sem esperar resposta.
E, dessa vez…
As lágrimas vieram sem controle.
Enquanto ele ficava ali.
Parado.
Sabendo…
Que tinha passado do limite.