Mariana ficou em silêncio depois da última fala da mãe.
O vento leve do jardim bagunçava alguns fios do cabelo dela, mas ela m*l percebeu. Estava longe dali, presa nas próprias emoções, tentando entender tudo que tinha ouvido… e tudo que estava sentindo.
Cláudia a observou por alguns segundos, com um olhar carregado de carinho e preocupação.
— Eu não tô dizendo isso pra te controlar — disse ela, mais suave. — Só… não quero te ver vivendo uma vida que te consuma.
Mariana respirou fundo, ainda sem olhar diretamente para a mãe.
— E se eu escolher isso? — perguntou, mais baixa.
Cláudia suspirou, já esperando por aquilo.
— Então escolhe consciente — respondeu. — Sabendo o preço.
O silêncio caiu entre as duas, mas não era um silêncio r**m. Era daqueles que dizem mais do que qualquer palavra.
Cláudia estendeu a mão sobre a mesa, segurando a de Mariana com cuidado.
— Só não se perde de você mesma no meio disso tudo.
Mariana apertou de leve a mão dela, assentindo.
— Eu vou tentar.
Elas ficaram mais alguns minutos ali, conversando de forma mais leve, evitando voltar ao peso do assunto. Até que, inevitavelmente, chegou a hora.
— Eu preciso ir — disse Cláudia, levantando-se.
Mariana se levantou junto, acompanhando-a até a porta.
O abraço veio forte.
Demorado.
— Eu te amo — disse a mãe, baixo.
— Eu também — respondeu Mariana.
Cláudia se afastou, olhou mais uma vez para ela, como se quisesse garantir que estava tudo bem… mesmo sabendo que não estava totalmente.
E foi embora.
—
Mariana voltou para o jardim.
Sentou-se novamente à mesa, agora vazia, o olhar perdido em algum ponto distante. O silêncio da casa parecia ainda maior sem a presença da mãe, e, pela primeira vez naquele dia, ela não tentou fugir dos próprios pensamentos.
Deixou que viessem.
A noite anterior.
O beijo.
A conversa.
O jeito que ele a olhou.
E depois…
Tudo desmoronando.
Ela fechou os olhos por um instante, soltando um suspiro pesado.
— Complicado demais… — murmurou.
— Sempre foi.
A voz dele fez ela abrir os olhos na mesma hora.
Leonardo estava ali, parado a poucos passos, observando.
O corpo dela reagiu antes da mente.
Ela quase levantou.
Mas ele percebeu.
— Não vai embora — disse ele, mais calmo do que ela esperava.
Ela hesitou.
Mas não saiu.
Leonardo se aproximou devagar e puxou a cadeira à frente dela, sentando-se. O silêncio que se instalou não era confortável, mas também não era agressivo.
Era carregado.
— A gente precisa conversar — disse ele.
Mariana soltou um pequeno riso sem humor.
— A gente já conversou demais hoje.
— Não o suficiente — retrucou ele.
Ela desviou o olhar.
— Eu não tô com cabeça pra isso agora, Léo.
— Eu sei — disse ele. — Mas fugir não vai resolver.
Ela voltou a encará-lo, os olhos ainda marcados pelo que tinha acontecido.
— Eu não tô fugindo — respondeu. — Eu só… não quero ouvir mais uma explicação que vai acabar do mesmo jeito.
Ele apoiou os cotovelos na mesa, passando a mão pelo rosto rapidamente.
— Aquela mulher não significa nada.
— Eu sei — cortou ela. — Esse é exatamente o problema.
O silêncio caiu pesado.
Leonardo a encarou, mais sério.
— Você não é igual a elas.
— Mas você é igual com todas — rebateu ela, na mesma hora.
Aquilo atingiu.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Eu tô tentando ser diferente com você — disse ele.
Mariana riu de leve, mas sem humor.
— Tentando não é suficiente.
O vento passou entre eles, levando um pouco do calor da discussão, mas não o peso.
Leonardo respirou fundo, mudando levemente a postura.
— Eu fiz uma promessa pra sua mãe — disse ele.
Mariana franziu a testa.
— Eu sei.
— E eu vou cumprir — continuou. — Você ficando aqui ou não.
Ela cruzou os braços.
— Isso quer dizer o quê?
Ele sustentou o olhar dela.
— Que não é seguro você sair agora. Mas também não vou te prender aqui sem motivo.
Mariana arqueou levemente a sobrancelha.
— E qual seria o motivo?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Trabalhar comigo.
Ela ficou em silêncio por um segundo.
— Como assim?
— Na empresa — explicou ele. — Você queria um emprego. Eu posso te colocar lá. Vai te manter ocupada… e mais segura.
Mariana piscou algumas vezes, surpresa.
— Você tá falando sério?
— Tô.
O olhar dela mudou.
Não completamente leve.
Mas houve um brilho ali.
Pequeno.
Real.
— Eu aceito — disse ela, sem pensar muito.
Leonardo assentiu, observando a reação dela.
— Eu imaginei.
O clima suavizou por alguns segundos.
Mas não o suficiente.
Ele se inclinou levemente na direção dela, como se fosse dizer algo mais… ou fazer algo.
Mariana percebeu.
E recuou.
Foi sutil.
Mas claro.
O olhar dele mudou na hora.
— Mariana…
— Não — disse ela, mais baixa agora. — Não faz isso.
Ele travou.
— Fazer o quê?
Ela sustentou o olhar dele, mais firme.
— Fingir que tá tudo bem.
O silêncio caiu.
— Porque não tá — continuou ela. — E eu não consigo simplesmente esquecer o que aconteceu.
Ele passou a língua pelo lábio inferior, claramente se segurando.
— Eu não tô fingindo.
— Então para de agir como se fosse fácil — retrucou ela.
Mais silêncio.
Mais tensão.
— Eu aceitei o trabalho — disse ela, se levantando devagar. — Mas isso… — apontou levemente entre os dois — ainda não tá resolvido.
Leonardo não respondeu.
E isso disse muito.
Mariana deu um passo para trás.
Depois outro.
— A gente se vê amanhã… chefe — disse ela, com um leve tom irônico.
E virou as costas.
Deixando ele ali.
Mais uma vez.
E, dessa vez…
Sem saber como consertar.