Distância necessária

980 Words
Mariana ficou em silêncio depois da última fala da mãe. O vento leve do jardim bagunçava alguns fios do cabelo dela, mas ela m*l percebeu. Estava longe dali, presa nas próprias emoções, tentando entender tudo que tinha ouvido… e tudo que estava sentindo. Cláudia a observou por alguns segundos, com um olhar carregado de carinho e preocupação. — Eu não tô dizendo isso pra te controlar — disse ela, mais suave. — Só… não quero te ver vivendo uma vida que te consuma. Mariana respirou fundo, ainda sem olhar diretamente para a mãe. — E se eu escolher isso? — perguntou, mais baixa. Cláudia suspirou, já esperando por aquilo. — Então escolhe consciente — respondeu. — Sabendo o preço. O silêncio caiu entre as duas, mas não era um silêncio r**m. Era daqueles que dizem mais do que qualquer palavra. Cláudia estendeu a mão sobre a mesa, segurando a de Mariana com cuidado. — Só não se perde de você mesma no meio disso tudo. Mariana apertou de leve a mão dela, assentindo. — Eu vou tentar. Elas ficaram mais alguns minutos ali, conversando de forma mais leve, evitando voltar ao peso do assunto. Até que, inevitavelmente, chegou a hora. — Eu preciso ir — disse Cláudia, levantando-se. Mariana se levantou junto, acompanhando-a até a porta. O abraço veio forte. Demorado. — Eu te amo — disse a mãe, baixo. — Eu também — respondeu Mariana. Cláudia se afastou, olhou mais uma vez para ela, como se quisesse garantir que estava tudo bem… mesmo sabendo que não estava totalmente. E foi embora. — Mariana voltou para o jardim. Sentou-se novamente à mesa, agora vazia, o olhar perdido em algum ponto distante. O silêncio da casa parecia ainda maior sem a presença da mãe, e, pela primeira vez naquele dia, ela não tentou fugir dos próprios pensamentos. Deixou que viessem. A noite anterior. O beijo. A conversa. O jeito que ele a olhou. E depois… Tudo desmoronando. Ela fechou os olhos por um instante, soltando um suspiro pesado. — Complicado demais… — murmurou. — Sempre foi. A voz dele fez ela abrir os olhos na mesma hora. Leonardo estava ali, parado a poucos passos, observando. O corpo dela reagiu antes da mente. Ela quase levantou. Mas ele percebeu. — Não vai embora — disse ele, mais calmo do que ela esperava. Ela hesitou. Mas não saiu. Leonardo se aproximou devagar e puxou a cadeira à frente dela, sentando-se. O silêncio que se instalou não era confortável, mas também não era agressivo. Era carregado. — A gente precisa conversar — disse ele. Mariana soltou um pequeno riso sem humor. — A gente já conversou demais hoje. — Não o suficiente — retrucou ele. Ela desviou o olhar. — Eu não tô com cabeça pra isso agora, Léo. — Eu sei — disse ele. — Mas fugir não vai resolver. Ela voltou a encará-lo, os olhos ainda marcados pelo que tinha acontecido. — Eu não tô fugindo — respondeu. — Eu só… não quero ouvir mais uma explicação que vai acabar do mesmo jeito. Ele apoiou os cotovelos na mesa, passando a mão pelo rosto rapidamente. — Aquela mulher não significa nada. — Eu sei — cortou ela. — Esse é exatamente o problema. O silêncio caiu pesado. Leonardo a encarou, mais sério. — Você não é igual a elas. — Mas você é igual com todas — rebateu ela, na mesma hora. Aquilo atingiu. Ele ficou em silêncio por um segundo. — Eu tô tentando ser diferente com você — disse ele. Mariana riu de leve, mas sem humor. — Tentando não é suficiente. O vento passou entre eles, levando um pouco do calor da discussão, mas não o peso. Leonardo respirou fundo, mudando levemente a postura. — Eu fiz uma promessa pra sua mãe — disse ele. Mariana franziu a testa. — Eu sei. — E eu vou cumprir — continuou. — Você ficando aqui ou não. Ela cruzou os braços. — Isso quer dizer o quê? Ele sustentou o olhar dela. — Que não é seguro você sair agora. Mas também não vou te prender aqui sem motivo. Mariana arqueou levemente a sobrancelha. — E qual seria o motivo? Ele inclinou levemente a cabeça. — Trabalhar comigo. Ela ficou em silêncio por um segundo. — Como assim? — Na empresa — explicou ele. — Você queria um emprego. Eu posso te colocar lá. Vai te manter ocupada… e mais segura. Mariana piscou algumas vezes, surpresa. — Você tá falando sério? — Tô. O olhar dela mudou. Não completamente leve. Mas houve um brilho ali. Pequeno. Real. — Eu aceito — disse ela, sem pensar muito. Leonardo assentiu, observando a reação dela. — Eu imaginei. O clima suavizou por alguns segundos. Mas não o suficiente. Ele se inclinou levemente na direção dela, como se fosse dizer algo mais… ou fazer algo. Mariana percebeu. E recuou. Foi sutil. Mas claro. O olhar dele mudou na hora. — Mariana… — Não — disse ela, mais baixa agora. — Não faz isso. Ele travou. — Fazer o quê? Ela sustentou o olhar dele, mais firme. — Fingir que tá tudo bem. O silêncio caiu. — Porque não tá — continuou ela. — E eu não consigo simplesmente esquecer o que aconteceu. Ele passou a língua pelo lábio inferior, claramente se segurando. — Eu não tô fingindo. — Então para de agir como se fosse fácil — retrucou ela. Mais silêncio. Mais tensão. — Eu aceitei o trabalho — disse ela, se levantando devagar. — Mas isso… — apontou levemente entre os dois — ainda não tá resolvido. Leonardo não respondeu. E isso disse muito. Mariana deu um passo para trás. Depois outro. — A gente se vê amanhã… chefe — disse ela, com um leve tom irônico. E virou as costas. Deixando ele ali. Mais uma vez. E, dessa vez… Sem saber como consertar.
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