Promessas e avisos

926 Words
A porta ainda estava entreaberta quando Leonardo entrou. Ele parou por um segundo ao ver Cláudia ali na sala, como se não esperasse encontrá-la tão cedo. Mas, diferente da tensão que costumava carregar, o rosto dele suavizou quase imediatamente. — Cláudia… — disse ele, com um tom que Mariana não ouvia há muito tempo. Ela se levantou na hora, abrindo um sorriso sincero. — Léo… — respondeu, caminhando até ele e o abraçando com carinho. — Você cresceu tanto… Ele soltou uma leve risada, correspondendo ao abraço. — Acho que isso era inevitável. Ela se afastou, segurando o rosto dele por um segundo, analisando. — E ficou bonito — completou, com um orgulho quase maternal. Leonardo sorriu de lado. — Obrigado. O clima ali era estranho para Mariana. Familiar… mas distante ao mesmo tempo. Como se aquele lado dele ainda existisse, só estivesse escondido por baixo de tudo o que ele se tornou. — Você veio pra ficar? — perguntou ele, mais sério agora. Cláudia suspirou levemente, o olhar passeando pela casa por um instante antes de voltar para ele. — Ainda não… — respondeu. — Eu achei melhor ir com calma. Ficar em um hotel por enquanto. Leonardo assentiu, compreensivo. — Eu entendo. Mariana, que observava tudo em silêncio, desviou o olhar. — Eu vou pedir alguma coisa pra gente comer — disse ela, já se levantando. — Vocês devem estar com fome. Sem esperar resposta, seguiu em direção à cozinha. Mas sabia. Sabia que estava deixando os dois sozinhos de propósito. — Assim que Mariana saiu, o clima mudou. Cláudia voltou a se sentar, mas agora o olhar estava diferente. Mais sério. Mais direto. Leonardo percebeu. — Pode falar — disse ele. Ela não rodeou. — Eu preciso que você me prometa uma coisa. Duas coisas... O olhar dele se fixou nela. — Depende do que for. — Proteger a Mariana. O silêncio caiu, mas não foi desconfortável. Foi firme. — Eu sempre protegi — respondeu ele. — Eu sei — disse Cláudia. — E é justamente por isso que eu tô pedindo de novo. Ela respirou fundo, escolhendo as palavras. — Esse mundo que o Pedro construiu… — começou — não é um lugar pra ela. Nunca foi. Leonardo não desviou o olhar. — Eu sei. — Então não deixa ela se perder nisso — continuou Cláudia. — Não deixa ela se envolver mais do que já está. Aquilo pesou. Porque ele sabia. Sabia que já tinha passado desse ponto. — Eu vou fazer tudo o que for preciso — disse ele, firme. — Pela segurança dela. Cláudia sustentou o olhar por alguns segundos, como se estivesse tentando enxergar além da resposta. — Eu confio em você, Léo — disse por fim. — Sempre confiei. E, pela primeira vez naquele dia… Ele sentiu o peso real daquela confiança. — E a segunda coisa, tente ocupar a cabeça da Mari com algo que afaste ela dessas lembranças tristes, dessa vida de perigo. — Tipo o quê? — Um emprego, algo assim. A empresa trabalha com perfumaria, Mari é bonita, pode ajudar em algo. — Leonardo assentiu. — tudo bem. — Foram interrompidos. — Mãe… vem — chamou Mariana da porta. — Vamos lá pra fora. Cláudia se levantou, o clima suavizando novamente. — Já estou indo. As duas seguiram para o jardim, onde a mesa já estava organizada de forma simples, mas acolhedora. O sol da tarde deixava tudo mais leve, quase contrastando com o que tinha sido o dia até ali. Elas se sentaram. Por alguns minutos, falaram de coisas simples. Assuntos leves, tentando retomar algo que parecia distante. Mas Mariana sentia… sabia que não ia durar. E não durou. — Eu fico mais tranquila sabendo que você tá aqui com o Léo — disse Cláudia, de repente. Mariana travou levemente. — Mãe… — Ele sempre cuidou de você — continuou. — E vai continuar cuidando. Mariana soltou um pequeno suspiro, apoiando os braços na mesa. — Eu sei me cuidar sozinha — respondeu, mais firme. Cláudia a observou com calma. — Eu sei que sabe — disse ela. — Mas não é sobre isso. Mariana franziu a testa. — Então é sobre o quê? Cláudia hesitou por um segundo, mas decidiu ser sincera. — Eu só fiquei nesse mundo por causa do Pedro. O silêncio caiu. Mariana a olhou com atenção. — Eu me apaixonei por ele — continuou Cláudia, mais baixa. — E, quando percebi onde estava… já era tarde demais pra sair. Os olhos dela ficaram mais distantes, como se revisse tudo. — Não era uma vida fácil. Não era segura. Mas eu fiquei… porque não consegui ir embora. Mariana engoliu em seco. — E eu não quero isso pra você — completou ela, voltando o olhar firme para a filha. O ar ficou mais pesado. — Eu pedi pro Léo te proteger — disse Cláudia. — E pra te dar uma ocupação. Um trabalho. Qualquer coisa que te mantivesse longe dessas lembranças… dessa casa… desse peso todo. Mariana ficou em silêncio. Absorvendo. — Eu não queria que você voltasse pra cá e se perdesse nisso tudo — continuou a mãe. — Porque esse lugar prende. Mais do que parece. Mariana desviou o olhar por um instante, olhando o jardim, mas sem realmente ver. — Talvez eu já esteja presa — murmurou, quase para si mesma. Cláudia percebeu. — Você não precisa ficar — disse ela, mais suave. Mariana voltou a encará-la. E, pela primeira vez… Não soube responder. Porque, no fundo… Talvez não fosse mais tão simples ir embora.
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