A porta ainda estava entreaberta quando Leonardo entrou.
Ele parou por um segundo ao ver Cláudia ali na sala, como se não esperasse encontrá-la tão cedo. Mas, diferente da tensão que costumava carregar, o rosto dele suavizou quase imediatamente.
— Cláudia… — disse ele, com um tom que Mariana não ouvia há muito tempo.
Ela se levantou na hora, abrindo um sorriso sincero.
— Léo… — respondeu, caminhando até ele e o abraçando com carinho. — Você cresceu tanto…
Ele soltou uma leve risada, correspondendo ao abraço.
— Acho que isso era inevitável.
Ela se afastou, segurando o rosto dele por um segundo, analisando.
— E ficou bonito — completou, com um orgulho quase maternal.
Leonardo sorriu de lado.
— Obrigado.
O clima ali era estranho para Mariana. Familiar… mas distante ao mesmo tempo. Como se aquele lado dele ainda existisse, só estivesse escondido por baixo de tudo o que ele se tornou.
— Você veio pra ficar? — perguntou ele, mais sério agora.
Cláudia suspirou levemente, o olhar passeando pela casa por um instante antes de voltar para ele.
— Ainda não… — respondeu. — Eu achei melhor ir com calma. Ficar em um hotel por enquanto.
Leonardo assentiu, compreensivo.
— Eu entendo.
Mariana, que observava tudo em silêncio, desviou o olhar.
— Eu vou pedir alguma coisa pra gente comer — disse ela, já se levantando. — Vocês devem estar com fome.
Sem esperar resposta, seguiu em direção à cozinha.
Mas sabia.
Sabia que estava deixando os dois sozinhos de propósito.
—
Assim que Mariana saiu, o clima mudou.
Cláudia voltou a se sentar, mas agora o olhar estava diferente. Mais sério. Mais direto.
Leonardo percebeu.
— Pode falar — disse ele.
Ela não rodeou.
— Eu preciso que você me prometa uma coisa. Duas coisas...
O olhar dele se fixou nela.
— Depende do que for.
— Proteger a Mariana.
O silêncio caiu, mas não foi desconfortável.
Foi firme.
— Eu sempre protegi — respondeu ele.
— Eu sei — disse Cláudia. — E é justamente por isso que eu tô pedindo de novo.
Ela respirou fundo, escolhendo as palavras.
— Esse mundo que o Pedro construiu… — começou — não é um lugar pra ela. Nunca foi.
Leonardo não desviou o olhar.
— Eu sei.
— Então não deixa ela se perder nisso — continuou Cláudia. — Não deixa ela se envolver mais do que já está.
Aquilo pesou.
Porque ele sabia.
Sabia que já tinha passado desse ponto.
— Eu vou fazer tudo o que for preciso — disse ele, firme. — Pela segurança dela.
Cláudia sustentou o olhar por alguns segundos, como se estivesse tentando enxergar além da resposta.
— Eu confio em você, Léo — disse por fim. — Sempre confiei.
E, pela primeira vez naquele dia…
Ele sentiu o peso real daquela confiança.
— E a segunda coisa, tente ocupar a cabeça da Mari com algo que afaste ela dessas lembranças tristes, dessa vida de perigo.
— Tipo o quê?
— Um emprego, algo assim. A empresa trabalha com perfumaria, Mari é bonita, pode ajudar em algo. — Leonardo assentiu.
— tudo bem. — Foram interrompidos.
— Mãe… vem — chamou Mariana da porta. — Vamos lá pra fora.
Cláudia se levantou, o clima suavizando novamente.
— Já estou indo.
As duas seguiram para o jardim, onde a mesa já estava organizada de forma simples, mas acolhedora. O sol da tarde deixava tudo mais leve, quase contrastando com o que tinha sido o dia até ali.
Elas se sentaram.
Por alguns minutos, falaram de coisas simples. Assuntos leves, tentando retomar algo que parecia distante. Mas Mariana sentia… sabia que não ia durar.
E não durou.
— Eu fico mais tranquila sabendo que você tá aqui com o Léo — disse Cláudia, de repente.
Mariana travou levemente.
— Mãe…
— Ele sempre cuidou de você — continuou. — E vai continuar cuidando.
Mariana soltou um pequeno suspiro, apoiando os braços na mesa.
— Eu sei me cuidar sozinha — respondeu, mais firme.
Cláudia a observou com calma.
— Eu sei que sabe — disse ela. — Mas não é sobre isso.
Mariana franziu a testa.
— Então é sobre o quê?
Cláudia hesitou por um segundo, mas decidiu ser sincera.
— Eu só fiquei nesse mundo por causa do Pedro.
O silêncio caiu.
Mariana a olhou com atenção.
— Eu me apaixonei por ele — continuou Cláudia, mais baixa. — E, quando percebi onde estava… já era tarde demais pra sair.
Os olhos dela ficaram mais distantes, como se revisse tudo.
— Não era uma vida fácil. Não era segura. Mas eu fiquei… porque não consegui ir embora.
Mariana engoliu em seco.
— E eu não quero isso pra você — completou ela, voltando o olhar firme para a filha.
O ar ficou mais pesado.
— Eu pedi pro Léo te proteger — disse Cláudia. — E pra te dar uma ocupação. Um trabalho. Qualquer coisa que te mantivesse longe dessas lembranças… dessa casa… desse peso todo.
Mariana ficou em silêncio.
Absorvendo.
— Eu não queria que você voltasse pra cá e se perdesse nisso tudo — continuou a mãe. — Porque esse lugar prende. Mais do que parece.
Mariana desviou o olhar por um instante, olhando o jardim, mas sem realmente ver.
— Talvez eu já esteja presa — murmurou, quase para si mesma.
Cláudia percebeu.
— Você não precisa ficar — disse ela, mais suave.
Mariana voltou a encará-la.
E, pela primeira vez…
Não soube responder.
Porque, no fundo…
Talvez não fosse mais tão simples ir embora.