O início de um enorme pesadelo
Era uma manhã como qualquer outra na fazenda Ouro Rubro. Eu estava na sala da nossa pequena casa de madeira, despreocupada, passando roupas enquanto o cheiro de sabão se misturava ao perfume da terra. O som das aves ao longe era quase um consolo naquele silêncio rotineiro.
De repente, a porta se abriu com força, e minha mãe entrou apressada, o rosto pálido e os cabelos úmidos de suor. Em suas mãos, um envelope grande, amassado como se tivesse sido segurado com nervosismo.
— Mãe? O que aconteceu? Você está bem? — larguei o ferro de passar e corri até ela.
Serena, minha mãe, nunca se mostrava vulnerável. Aos 54 anos, era uma mulher de força inabalável, trabalhadora desde criança, e braço direito do senhor Pedro, o dono da fazenda. Ver sua expressão de pânico me desestabilizou.
— Estou bem, Eduarda... Só preciso de água. — Ela evitou meu olhar, colocando o envelope sobre um móvel repleto de porta-retratos, antes de ir até a geladeira.
— É sobre o senhor Pedro? Ele piorou? — perguntei, lembrando-me do estado frágil do velho patrão, que definhava a cada dia.
Minha mãe hesitou, pegando um copo d'água com mãos trêmulas.
— Sim, ele está pior. O médico veio hoje e disse que não há mais esperança. — Ela fez uma pausa, apertando o copo contra o peito. — Mas não é só isso, filha... Ele me contou coisas... horríveis. Sobre a nora e o neto. Coisas que, se forem verdade, podem destruir a fazenda.
Seus olhos vaguearam pela janela, inquietos, como se esperasse que algo ou alguém irrompesse pela porta a qualquer instante. Antes que eu pudesse perguntar mais, fomos interrompidas por batidas fortes na entrada.
— Serena! Abra essa porta agora! — gritou uma voz grave. Era Heitor, o neto do senhor Pedro. A intensidade das batidas fez o chão tremer sob meus pés.
— Mãe, o que está acontecendo? Por que ele está assim? — perguntei, sentindo um calafrio na espinha.
— Não é nada. Só preciso que você vá buscar umas coisas na cidade para mim. — Sua voz era urgente enquanto me entregava duas notas de cinquenta reais. — Vá até a quitanda da Márcia e pegue a encomenda. Use o cavalo e vá pelos fundos, sem que Heitor a veja.
— Mãe, eu não vou te deixar sozinha com ele desse jeito! Você sabe o que dizem sobre o temperamento dele! — tentei protestar, mas minha mãe já estava me empurrando para a porta dos fundos.
— Eduarda, escute-me. Vá agora! Não discuta. — Sua voz carregava autoridade, e o olhar firme me fez hesitar.
Relutante, fui até Churros, meu cavalo. Enquanto montava, o coração pesado me dizia que algo estava errado.
— Vamos, Churros. Preciso voltar logo.
Cheguei à cidade rapidamente e amarrei Churros perto de onde sempre deixávamos os cavalos. Caminhando até a quitanda, percebi meu reflexo em um vidro: shorts desgastados, uma camiseta velha com buracos, mas meus cachos estavam impecáveis e a pele bronzeada pelo sol.
— Uma mendiga estilosa, pelo menos. — murmurei, tentando rir de mim mesma.
Na loja, fui surpreendida. Não havia nenhuma encomenda. A senhora Marta negou ter recebido qualquer pedido recente.
Com um nó na garganta, entendi: minha mãe havia inventado a desculpa para me tirar de casa.
Acelerei a volta, o coração disparado. Ao avistar a fazenda, o horror tomou conta de mim. Nossa casa estava em chamas.
— Não... Não! — saltei do cavalo e corri, ignorando as pessoas que apenas assistiam ao incêndio.
— Mamãe! — gritei, mas ninguém respondeu.
Sem pensar, avancei para dentro da casa em chamas. A fumaça queimava meus olhos, o calor me sufocava, mas eu não podia parar. Minha mãe estava lá dentro, e eu a encontraria, custasse o que custasse.
Antes mesmo de entrar na casa, o calor me atingiu como uma onda avassaladora. A cada passo em direção à porta, parecia que o ar ao meu redor queimava minha pele, como se o próprio inferno tivesse se instalado ali. Alguém gritou atrás de mim, mas suas palavras eram inaudíveis. Minha mente estava em um só objetivo: salvar minha mãe. Nada mais importava.
A porta estava entreaberta, e por um breve instante, um fio de esperança brotou em mim. Talvez ela tivesse conseguido sair a tempo. Talvez estivesse segura. Mas, ao cruzar o limiar da casa, senti que a esperança era uma ilusão c***l.
O calor dentro era insuportável. Era como ser engolida por um forno gigante. O ar denso e pesado parecia cortar meus pulmões a cada respiração. Coloquei o braço diante do rosto, tentando filtrar a fumaça que começava a me sufocar. Olhei ao redor freneticamente, chamando por ela:
— Mamãe! Onde está você?
Foi então que a vi. Minha mãe estava caída no chão da sala, inconsciente, abraçada a um porta-retrato da nossa família. As chamas ao seu redor dançavam como predadores prontos para consumi-la por completo.*
— Não! — gritei, correndo em sua direção.
Ignorando o calor que queimava minhas roupas* e a dor crescente em minha pele*, ajoelhei-me ao lado dela e a ergui nos braços. Seu corpo estava flácido, e o cheiro de queimado misturava-se ao aroma familiar do perfume que ela sempre usava. Com cada passo em direção à saída, sentia que minhas forças se esgotavam, mas não podia parar.
Quando finalmente emergi das chamas, a multidão que assistia à destruição veio correndo em nossa direção. Alguém jogou água em mim, apagando o fogo que começava a consumir minhas roupas. Meu corpo inteiro ardia*, e respirar era uma tortura.
Ajoelhei-me no chão, deitando minha mãe com cuidado.
— Mamãe! Acorde! — implorei, segurando seu rosto.
Seus olhos se abriram levemente, e ela tentou sorrir, fraca.
— Eduarda... — sussurrou, sua voz quase inaudível.
— Alguém chame a emergência! Ela precisa de um hospital agora! — gritei para a multidão. Uma voz respondeu que a ambulância já estava a caminho, mas meu desespero não diminuía.
— Tenha calma, mamãe. A ajuda está vindo. Só mais um pouco... por favor...
Minha mãe tentou falar novamente, colocando uma mão trêmula em meu rosto.
— Minha filha... — começou, com dificuldade. — Eu sempre tive tanto orgulho de você... Seu sorriso me deu forças quando achei que não tinha mais nada. Por favor, proteja esse sorriso... e tenha uma vida feliz.
— Não fale assim! Vai ficar tudo bem. Não se esforce, mamãe! — disse, enquanto lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto.
Mas então percebi. Seus cabelos estavam molhados de sangue. O tempo pareceu desacelerar, e o som ao meu redor tornou-se abafado.
— Você precisa ser forte... — sua voz era um sopro. — Procure minha irmã, Joana Sales. Ela está na capital... Ellen sabe onde encontrá-la. Vá com ela... Longe deste lugar. Prometa, Eduarda. Eles me devem... isso. Precisam proteger vocês... deles...
— Não, mamãe! Você vai ficar bem! Não diga essas coisas! — minha voz tremeu, a súplica em meu tom era desesperadora.
— Fique longe da família Lima... eles... — tentou continuar, mas sua frase foi interrompida por uma tosse violenta. Sangue escorreu de seus lábios*, tingindo sua pele pálida de vermelho.
A sirene da ambulância soou ao longe, aproximando-se. Levantei-me, acenando freneticamente.
— Aqui! Por favor, rápido!
Quando os paramédicos chegaram, cercaram minha mãe imediatamente. Eu tentei ficar ao seu lado, mas fui afastada.
— Me soltem! Eu preciso ficar com ela! — debati-me, lutando contra o atendente que me segurava.
— Senhorita, você também precisa de atendimento.
— Não me importo! É minha mãe! Por favor!
Minha resistência foi interrompida por uma picada súbita no braço. Senti meu corpo amolecer, minha visão escurecer. Ainda estendi a mão em sua direção, tentando alcançá-la uma última vez.
Mas não consegui.
A escuridão me envolveu, e naquele momento, eu ainda não sabia que era apenas o começo do verdadeiro pesadelo.
Acordei algumas horas depois, deitada em uma maca de hospital. Meus olhos piscavam, tentando se ajustar à luz branca e ofuscante das lâmpadas fluorescentes. Tudo ao meu redor era um borrão de confusão e vazio, até que a imagem da minha mãe surgiu abruptamente, como um raio cortando o céu. Sem pensar duas vezes, arranquei o soro do meu braço, ignorando a dor aguda, e corri pelos corredores. O desespero queimava em minhas veias.
Meus pés descalços ressoavam contra o chão frio, enquanto vozes indistintas ecoavam ao meu redor. Olhares curiosos me seguiam, mas eu não me importava. Meu coração batia em um ritmo descompassado, minha respiração era um som rouco e urgente. Quando minhas pernas finalmente cederam, desabei no chão, as lágrimas fluindo sem controle. Queria gritar, mas minha voz estava trancada em algum lugar dentro de mim.
— Eduarda, certo? Podemos conversar? Tenho notícias sobre sua mãe. — Uma voz feminina e calma cortou minha agitação. Levantei o olhar e vi uma mulher de aparência serena, vestindo uma bata identificada com "Assistente Social". Ela estendeu a mão, como se oferecesse uma âncora no meio do caos.
Algo em sua postura firme e olhar compassivo fez minhas lágrimas cessarem, ainda que brevemente. Segurei sua mão, buscando um vestígio de estabilidade, e deixei que me conduzisse por aqueles corredores intermináveis até uma pequena sala. Lá dentro, apenas uma mesa simples e algumas cadeiras nos esperavam.
— Sente-se, por favor. Aceita água? — perguntou, já colocando um copo diante de mim antes que eu pudesse responder. — Como está se sentindo?
— Bem... acho. — Minha voz saiu rouca e trêmula, uma sombra de quem eu era. Bebi um gole de água, sentindo a garganta seca como areia. — Minha mãe está aqui? Quero vê-la.
A mulher respirou fundo, hesitante. — Sou Valesca, assistente social deste hospital. Precisamos conversar sobre algo importante.
Meu coração apertou. — Claro... O que aconteceu?
— Lamento profundamente, mas sua mãe faleceu.
As palavras caíram como pedras, esmagando qualquer esperança que eu ainda sustentava.
— Não... isso não pode ser verdade. — A incredulidade se misturou ao desespero, e uma risada nervosa e incontrolável escapou dos meus lábios. Levantei-me bruscamente, indo em direção à porta, enquanto Valesca me seguia.
— Sua mãe sofreu um grande trauma na cabeça e inalou muita fumaça no incêndio. Os médicos fizeram tudo o que podiam, mas ela não resistiu.
— Quero vê-la! Onde ela está? — As palavras saíram entre risos histéricos e lágrimas, um grito de negação à realidade que me esmagava.
— Entendo que seja difícil. Podemos ir até ela, se isso ajudar, mas precisamos organizar as coisas primeiro. Estou aqui para te ajudar a passar por isso. — Sua mão tocou meu ombro, gentil, mas firme.
Minhas pernas cederam novamente. Ali, naquele instante, tudo desabou. Chorei como uma criança, soluçando até a exaustão.
Depois disso, tudo aconteceu como em um sonho confuso. Documentos foram assinados, pessoas da igreja ajudaram com o velório, e, antes que eu percebesse, estava diante do caixão da minha mãe.
A chuva caía incessantemente, misturando-se às minhas lágrimas enquanto eu observava o caixão descendo à terra. O som da pá batendo contra a madeira ecoava em minha mente como uma melodia macabra. A flor que eu segurava caiu de meus dedos trêmulos, repousando sobre a lápide com o nome dela.
O mundo parecia vazio, cada som abafado pela chuva. Sozinha e encharcada, permaneci ali, observando até que os coveiros cobrissem o último vestígio de quem ela era.
Caminhei sem rumo, como uma alma à deriva. Quando cheguei ao que restava de casa, os escombros eram um reflexo do vazio dentro de mim. Meu lar e minha mãe tinham desaparecido para sempre.
— Eduarda, vamos para casa. Você vai acabar doente assim. Venha. — A voz de Timóteo, um trabalhador da fazenda onde minha mãe servia, soou atrás de mim, como uma lembrança de que o mundo ainda existia.
E então percebi: eu estava sozinha. Sem mãe, sem lar, sem rumo.