Eu não respondi a Timóteo. Minha mente parecia desconectada, incapaz de processar o que acontecia ao meu redor. Estava em choque. Ele percebeu isso e, sem pedir minha opinião, me arrastou até o carro, levando-me para sua casa.
Quando chegamos, tudo foi do mesmo jeito: eu era puxada como uma boneca. Ele me tirou do carro e me empurrou para dentro da casa, sem dar espaço para qualquer reação. A noite estava avançada, e a chuva torrencial tornava tudo mais ameaçador. Eu não fazia ideia de onde estava; nunca havia pisado ali antes. As palavras de minha mãe vieram à tona como um eco: "Homens são sempre lobos, alguns têm coleira e outros não." Esse pensamento me fez despertar.
— Você precisa acordar! Parece até que foi você quem morreu! — Timóteo gritou, empurrando-me no sofá. — Tá todo mundo de luto. Não foi só sua mãe. O senhor Pedro também faleceu! A fazenda inteira está de luto, e as coisas vão mudar por aqui. Se quiser sobreviver, precisa reagir. Os mortos já foram, mas você está viva. Tem que viver!
— O senhor Pedro morreu? — perguntei, surpresa, enquanto me levantava devagar. Minha mãe havia comentado que ele estava m*l, mas eu não esperava que fosse tão rápido.
Aquilo trouxe de volta as palavras de minha mãe antes de sua morte. Será que Heitor esteve lá para avisar sobre isso? Não, não fazia sentido. Ninguém comunicaria uma morte daquela forma tão violenta. Algo estava errado. Lembrei-me do que minha mãe disse antes de partir: histórias terríveis sobre a nora e o neto de Pedro e o alerta de que permanecer ali era perigoso.
— Sim, ele faleceu ontem à tarde. E agora Heitor está no comando. Ele vai fazer mudanças. Alguns funcionários serão cortados, e você está na lista. — Timóteo falou com um sorriso que gelou minha espinha.
— O quê? Eu trabalho na fazenda desde os 16 anos! Preciso desse emprego mais do que nunca! — retruquei, indignada.
Timóteo se aproximou, ignorando meu desespero.
— Você sabe como Heitor é. Ele quer profissionalizar a fazenda, modernizar tudo. Isso não é culpa minha, mas… — ele passou os dedos pelo meu rosto. Esquivei, enojada. — Eu sempre gostei de você, sabe? Posso te ajudar, tenho boas conexões.
— Não, obrigada. — Retruquei firme, caminhando até a porta. — Converso com Heitor diretamente.
Mas ele se colocou no caminho, segurando meu braço.
— E para onde você vai? Sua casa pegou fogo, sua mãe morreu, você não tem ninguém. Eu estou te oferecendo ajuda, mas você sabe como é... Uma mão lava a outra.
— Me solte! — gritei, tentando escapar. — Não aceito nada de você!
Ele riu, ignorando meus protestos, e então sua expressão mudou para algo c***l.
— Não tem para onde ir. Aceite logo que será minha mulher. É sua única escolha.
Seus dedos apertaram meu pulso, e então ele me empurrou contra a parede. Senti seu corpo contra o meu, sua mão subindo por minha perna, e um terror frio me paralisou.
— Prefiro morrer a me submeter a você! — gritei, encarando-o com repulsa.
O tapa veio como um raio. Meu rosto ardeu, e o sangue escorreu do meu nariz. Timóteo riu da minha dor, enquanto segurava meu pulso com ainda mais força.
— Você não tem escolha, Eduarda. Vai me satisfazer como todas as outras mulheres da sua família fizeram.
Desesperada, meus olhos buscaram algo, qualquer coisa. Foi então que a imagem de Santa Maria sobre a mesa chamou minha atenção. Num impulso, agarrei-a e a ergui com força.
— Não pensei que a ajuda seria tão literal — murmurei antes de desferir o golpe.
A imagem quebrou-se com o impacto. Timóteo caiu no chão, desacordado, o sangue escorrendo pela testa.
— Meu Deus, eu matei alguém! — sussurrei, largando o que restava da santa. — O que eu faço agora?
Meu coração estava disparado, minha mente, um turbilhão. Eu era uma assassina?
Pensando bem em toda a situação, enquanto encarava aquele homem morto no chão, sabia que, se permanecesse naquela casa, seria apenas uma questão de tempo até alguém aparecer e chamar a polícia. Quem acreditaria em mim? Timóteo era um homem de confiança; toda a cidade o admirava. Já eu? Eu carregava o peso da reputação da minha família.
— Só é crime se alguém descobrir, não é? — murmurei para mim mesma, enquanto colocava os pedaços da santa quebrada em uma sacola plástica. Era uma imagem linda, uma pena ter sido despedaçada por esse cabeça-dura.
Sem ter certeza do que estava fazendo, fui direto para a mata. Precisava desaparecer da cidade antes que alguém ligasse os pontos. Não havia mais nada para mim ali. Restava apenas uma pessoa que poderia me ajudar: minha irmã. Apesar de termos cortado relações quando ela deixou nossa casa para se tornar prostituta, não havia espaço para orgulho nessa situação.
O que eu não sabia era que a cidade estava em completo caos. A chuva causara deslizamentos, enchentes, e a energia elétrica havia sido cortada. Estradas bloqueadas, pessoas desaparecidas e a polícia patrulhando por todos os lados. Para meu enorme desespero.
Ao ver as luzes dos carros de polícia na distância, concluí, automaticamente, que estavam atrás de mim. Entrando mais fundo na mata, busquei caminhos que conhecia desde a infância. Ser uma criança travessa tinha suas vantagens: eu sabia atalhos que ninguém mais conhecia. Um deles passava pelo rio.
A escuridão era quase palpável, e o terreno estava traiçoeiro com a chuva. Marquei árvores pelo caminho e andei devagar para não me perder. Quando alcancei o rio, vi que estava completamente inundado. Atravessá-lo era impossível. Mesmo sendo boa nadadora, a força da correnteza poderia me arrastar facilmente.
— Não posso ir por aqui. Vou ter que dar a volta. — murmurei, já me virando, mas algo na água chamou minha atenção.
Era um corpo. Não, espera... estava se mexendo? Alguém ainda estava vivo?
A correnteza arrastava o corpo com velocidade, e mesmo que estivesse consciente, a pessoa não conseguiria nadar contra aquela força. Meu instinto foi agir. Peguei um galho para tentar puxá-lo, mas ele quebrou. Com um galho mais grosso e muita determinação, consegui empurrá-lo para uma grande pedra perto da margem, reduzindo o impacto da água.
Tirar o corpo do rio foi uma luta. Gastei todas as minhas forças, enquanto o medo de ser descoberta pela polícia crescia. Apesar disso, não desisti. Após horas, consegui arrastá-lo para a margem.
Ele era lindo. A pele bronzeada, cabelos lisos e escuros, traços que pareciam esculpidos. Não devia ter mais de trinta anos e, pelo corte da roupa, certamente não era da cidade. Ele tinha o tipo de presença que seria impossível ignorar. Parecia um galã de novela, o tipo que rouba o coração na primeira cena.
Ele estava inconsciente, mas havia um leve pulso. Sua pele estava tão gelada que hesitei antes de fazer respiração boca-a-boca. Não queria beijar um morto. Mas, se não tentasse, passaria o resto da vida me perguntando “e se”.
Com a respiração boca-a-boca e compressões, fiz o que lembrava do curso de primeiros socorros. Na terceira tentativa, ele virou o rosto, tossindo e cuspindo água. Respirei aliviada. Eu havia tirado uma vida naquela noite... mas também salvei outra. Isso anula meu erro?
— Você é um anjo? — ele perguntou, a voz rouca e grave. Seus olhos se abriram com dificuldade. — Estou no céu?
Olhei para ele incrédula. Um anjo? Aqui parecia muito mais com o inferno. Um inferno banhado em água.
Mas, afinal, quem era esse homem?