Ao ouvir aquilo, não pude conter o riso. Como alguém, em pleno caos daquela situação, poderia achar que eu, parecendo um p***o molhado, seria um anjo? Ainda mais no meio de uma tempestade como aquela. Só podia estar brincando ou delirando, depois de sua quase morte.
— Um anjo? Depende. Afinal, até Lúcifer é um anjo, mas acho que não é o caso. — Respondi, me afastando um pouco dele, envergonhada. Não era bem a posição mais confortável para uma conversa como essa, se é que me entende.
— O que aconte… Ai! — O homem tentou se levantar, mas a dor na perna esquerda o impediu. Imediatamente, ele colocou a mão sobre o ferimento.
— Você está sangrando muito! Precisamos estancar esse sangramento. — Não tinha notado antes, mas agora a perna dele estava visivelmente ferida.
Olhei ao redor, sem saber o que fazer. Pedir ajuda levaria tempo, e nós não tínhamos muito a perder. Então, agi como se tivesse assistido a mil filmes de sobrevivência. Rasguei dois pedaços do meu vestido, pressionando o primeiro até o sangramento cessar. O segundo usei para amarrar bem firme ao redor da ferida.
— Acho que isso vai dar conta até sairmos daqui. A água do rio deve chegar logo. É pouco provável que alguém nos encontre, e você precisa de ajuda. Se conseguirmos chegar até a estrada, talvez alguém nos leve ao hospital. Você consegue andar? — Perguntei, oferecendo minha mão para ajudá-lo a levantar.
— Não! Ai! — O homem tentou se erguir, mas sua perna não suportou.
Eu não podia ficar ali por mais tempo. A primeira ideia que me passou foi apoiá-lo nos meus ombros, mas logo percebi que era uma loucura. Ele era muito maior e mais pesado que eu, e com certeza não conseguiríamos andar assim. Morreriamos os dois afogados. Então, optei pela segunda opção.
— Segure-se nesse galho e em mim. Se formos devagar, consigo te levar até a estrada. Não é tão longe. Lá, provavelmente encontraremos alguém para te ajudar. — Passei o galho, aquele mesmo que usei para tirá-lo do rio, para suas mãos, fazendo-o improvisar uma muleta.
Com muito esforço, ele se apoiou no galho, colocando o braço por cima de mim. O trajeto até a estrada foi muito mais difícil do que imaginei. Tivemos que parar várias vezes, e sempre que ouvia um movimento nas folhas, meu coração disparava.
— Tem medo de ser atacada por animais selvagens? Não há cobras venenosas nem animais perigosos por aqui. Só roedores e pássaros, não precisa se preocupar. E com essa chuva toda, eles devem estar bem escondidos. — Ele tentou me acalmar. m*l sabia ele que meu maior medo não era enfrentar um animal, mas sim, um policial. Eu preferia mil vezes topar com um urso do que com qualquer autoridade agora.
— Você conhece bem esse lugar. Nunca te vi por aqui. — Não era uma informação fácil de se obter. Essa mata estava no terreno da fazenda Ouro Rubro, e não era todo mundo que tinha acesso a ela.
— Sim, morei aqui por alguns anos. Depois, a vida me levou para fora do país. Voltei para o velório de alguém que eu amava muito, mas pelo ritmo que estou indo, acho que não chegarei a tempo. A sorte não está ao meu lado. — Ele parecia distante, com um tom de arrependimento na voz. Só pude pensar que a bruxa estava solta. Raramente morriam duas pessoas no mesmo mês, quem dirá no mesmo dia. Essa cidade tinha população para isso?
— Meus sentimentos. Eu também perdi minha mãe. Ela se foi há menos de 24 horas, e minha vida já virou um caos. — Era a pura verdade. Não tinha sequer para onde voltar. — Engraçado, minha mãe sempre dizia que eu não saberia viver sem ela. Agora, vendo isso, acho que ela estava certa.
— Que coincidência... Eu perdi meu avô. A pior parte é que, na última vez em que conversamos, brigamos. Sempre pensei que teria outro encontro para pedir desculpas, mas ele partiu antes que eu pudesse fazer isso. Acho que nunca mais terei o perdão dele. — Ele parecia se remoer. Eu não sabia o que dizer. Na verdade, ele estava certo. Não conseguiria o perdão. — Ele sempre dizia que eu só aprenderia a viver quando ele se fosse.
— Acho que estamos com problemas, — Brinquei, tentando amenizar a tensão, mas logo vi a estrada à frente. — Olha! Chegamos! Agora, só precisamos de um carro para nos levar.
— Você acha que alguém vai parar? Se eu visse você na estrada, pedindo socorro, pensaria que é um demônio querendo me arrastar para vender minha alma ou o anjo da morte vindo me buscar para o paraíso. Mas, pensando bem, acho que pararia. O risco vale a pena. — Ele manteve o bom humor, mesmo em péssimas condições.
— As pessoas aqui são boas. Elas costumam ajudar quem precisa. — Apontei para a estrada, balançando minhas mãos, tentando chamar a atenção de um carro. Um passou e ignorou completamente.
— Talvez ele tenha medo de fantasmas. Pedir carona assim, em plena chuva, tem cara de alma penada. — Ele riu, apesar de tudo. Mesmo machucado, mantinha o bom humor. Eu estava tentando ser prática, mas ele só conseguia ser irreverente.
— Moço, você realmente acha que deve estar rindo? Estou quase chorando de desespero. — Alertei. — Você precisa de atendimento médico urgente, ou teremos o quarto velório em 24 horas. Estamos prestes a bater o recorde dessa cidade. Ela é tão pequena que, no último ano, ninguém morreu.
Ele riu ainda mais, se apoiando em uma árvore. Dois carros passaram, mas nenhum parou. Quando eu já começava a acreditar na teoria da alma penada, finalmente, o terceiro carro parou.
Expliquei a situação rapidamente ao motorista e, com dificuldade, coloquei o homem no banco de trás. O motorista me convidou para ir à frente.
— Não posso acompanhar. Eu fico por aqui mesmo. Não está tão longe de onde preciso ir. É uma emergência. Ele está ferido. — Mesmo que estivesse, não iria com eles. Ir ao hospital seria pedir para ser pega pela polícia. Fiz minha parte, ajudei o próximo. Agora, precisava focar em me ajudar.
— Eu sou Gustavo. E quem foi o anjo que me salvou? Espero conseguir retribuir sua ajuda. Onde posso te encontrar? — O homem parecia mais relaxado do que eu imaginava, considerando o estado em que estava.
— Me chamo Eduarda. Fiz de coração, não esperava nada em troca. Se o destino quiser, nos encontraremos novamente, mesmo que eu não saiba onde me encontrar. Gosto desses clichês românticos, embora nosso cenário mais pareça um filme de terror. — Eu tinha planos de fugir da cidade e nunca mais olhar para trás, para não ser pega. Só estava inventando uma desculpa fofa, inspirada em algum filme. — Espero que se recupere logo. E, por favor, nunca mais pegue essas entradas em um dia chuvoso. Não é sempre que um anjo caído aparece para te salvar.
— Que o destino nos una de novo, e espero te encontrar em melhores condições, em um filme de romance, bem longe dos perigos do terror. — Gustavo gritou pela janela do carro, e sua voz demonstrava o quanto ele já estava melhor.
Assisti o carro se afastando lentamente. O motorista parecia ir em câmera lenta. Quando não pude mais ver o carro, corri em direção ao bar onde minha irmã trabalhava. Esperava que ela pudesse, finalmente, me ajudar.