O reencontro entre irmãs

1293 Words
A única vez em que estive naquele lugar foi quando minha mãe descobriu o paradeiro de sua filha mais velha. Eu nunca esqueci como ela chorou em silêncio durante o trajeto de volta para casa. Não havia nada que pudéssemos fazer. Minha irmã havia se sacrificado por nós duas, por um erro cometido por nosso pai. A ida até lá não foi fácil. Tive que me esconder sempre que alguém surgia no meu caminho. Depois de correr por alguns minutos sob uma chuva impiedosa, cheguei à "Taverna". Quem não conhece poderia pensar que se tratava de um simples bar de beira de estrada, mas, na realidade, não passava de uma casa de prostituição, apostas e tráfico de drogas. Fui o tempo todo pensando em tudo o que havia acontecido. As últimas 24 horas passavam como um filme em minha mente. Não consegui deixar de culpar a família Lima por toda a desgraça que minha família sofreu. Tudo de r**m que vivemos até hoje foi culpa deles. Era impossível não desejar que pagassem na mesma moeda. Que perdessem tudo. Se tornassem tão miseráveis quanto eu me sentia ao olhar para aquele maldito bar. Assim que pisei naquele lugar, todos me olharam surpresos. Não era todo dia que uma mulher aparecia ali, muito menos uma, ensopada. Evitei olhar para as várias funcionárias daquele estabelecimento, sentadas nos colos de homens, ou para os que jogavam ou cheiravam pó branco sobre as mesas. Fui direto para o balcão. Queria resolver aquilo o mais rápido possível e sair de lá. — Eu preciso falar com minha irmã. É urgente. Ela se chama Ellen. Pode dizer que sua irmã, Eduarda, está procurando por ela? — Pedi ao homem atrás do balcão. Ele parecia ser o menos assustador do lugar. — Me acompanhe. Acho melhor você esperar em outro lugar. Sua irmã está terminando de atender um cliente. Assim que terminar, digo que está esperando por ela. — Ele apontou para uma porta, atrás do balcão. Pensei em não ir. A ideia de seguir um desconhecido para um local fechado e isolado parecia a pior decisão. Mas, olhando ao redor, percebi que seria melhor aceitar a gentileza. As pessoas no bar me observavam de forma estranha. Era melhor lidar com um só, do que com vários. Afinal, sempre havia algo ao alcance para bater na cabeça de alguém. — Certo. Se quiser beber algo, tem na geladeira ao seu lado. Tenho que voltar para o balcão. — Ele apontou para uma pequena geladeira perto de um sofá, esperou que eu passasse e desapareceu. A sala era pequena. Tinha um sofá vermelho, duas poltronas, a geladeira e um quadro enorme em preto e branco, de uma silhueta feminina completamente nua. Mas o que mais me incomodou foi o ar-condicionado. Eu já estava molhada e não demorou para começar a tremer. — Eduarda! — Minha irmã gritou, entrando na sala. Me olhou da cabeça aos pés. — Espere um minuto, vou pegar roupas quentes para você. Aquele i****a! Como ele deixou uma mulher nessa situação? Tem titica na cabeça? Não se faz um homem que usa o cérebro? Da mesma forma que entrou, ela saiu. Não me deixou falar nada. Não demorou muito até que ela voltasse, me entregando um vestido longo, casaco e um conjunto de lingerie ainda com a etiqueta. — Se troque. Vai acabar doente se continuar assim. — Assim que me entregou as roupas, se virou de costas. — O que aconteceu? Tenho certeza de que nossa mãe não sabe que você está aqui. Não me diga... Você está grávida? — O quê? Como é que essa é a primeira coisa que você pensa? — Fiquei surpresa com o olhar de espanto de minha irmã. — Há dois motivos para você me procurar. Ou você engravidou e nossa mãe vai surtar quando souber, ou matou alguém. Achei que a primeira opção combinava mais com você. — Ellen se sentou, observando enquanto eu me trocava. Ela usava um vestido preto bem colado e curto, com salto vermelho chamativo. Seu cabelo, que um dia foi tão cacheado quanto o meu, estava liso e preto. Entre seus dedos, um cigarro eletrônico. Ela parecia uma pessoa completamente diferente. — Você errou. Não estou grávida. A segunda opção é mais provável. Talvez eu tenha matado alguém. E preciso fugir antes que a polícia me pegue, mas antes disso, quero falar com você sobre... — Eu me escondia não apenas da polícia, mas também dos amigos de Timóteo, que pareciam estar atrás do culpado. Mas antes de fugir, queria me vingar. — O quê? Como assim você matou alguém? Tá maluca? A mamãe sabe disso? Claro que não. Ela já teria fugido com você. — Ellen levantou da poltrona, andando de um lado para o outro. Quando disse isso, percebi que ela não sabia sobre nossa mãe. — Quem você matou e por quê? — Ninguém te disse? — Perguntei, pensando alto. A pessoa que deveria ter contado era eu, não é? Quem mais poderia contar? Restávamos apenas nós duas. — Do que está falando? Todo mundo está sabendo? — Ellen arregalou os olhos como se fosse explodir. — Houve um incêndio em nossa casa, nossa mãe estava lá dentro. Eu consegui tirá-la de lá, mas já era tarde demais. Ela não resistiu. Morreu. — Me senti culpada. Deveria ter contado antes. Eu tirei a chance dela se despedir. — Como assim? Que piada sem graça é essa? Você não fala comigo há anos, aparece aqui toda molhada dizendo que matou alguém, precisa fugir antes que a polícia te pegue e agora me diz que a mamãe morreu? Você bateu com a cabeça? É uma piada? Tá delirando? — Ellen gritou, visivelmente chateada, sem acreditar no que eu dizia. — Eu queria que fosse mentira... Mas não é. A mamãe faleceu. Hoje foi o enterro. Me desculpa... — Eu sentia culpa, por não ter ficado mais tempo com ela, por não ter deixado minha irmã se despedir. Eu deveria ter feito mais depois de tirá-la de dentro da casa. Eu tinha tanta culpa. — Eduarda, o que você está dizendo? — Ellen agarrou meus ombros, seus olhos cheios de lágrimas. — Nossa mãe não está mais aqui. Agora somos só eu e você. — Falei entre soluços, antes de a abraçar. Ela cheirava a perfume barato e cigarro. Choramos abraçadas por um bom tempo. Ellen perguntou como tudo aconteceu, e eu contei tudo o que havia acontecido nas últimas 24 horas. Ela me ouviu em silêncio, enquanto eu tentava não deixar nenhum detalhe de fora, embora alguns momentos ainda fossem turvos em minha memória. — Você quer dizer que a família Lima pode estar envolvida na morte da mamãe? E que o Timóteo tentou atacar alguém que estava sofrendo pelo luto de perder a mãe? — Ellen perguntou, limpando as lágrimas. Pela voz dela, pude perceber sua raiva. — Se você não tivesse matado esse miserável, eu mesma faria isso agora. E qual o seu plano? Para onde você vai agora? Ou melhor, o que pretende fazer? — A mamãe disse que deveríamos procurar nossa tia. Você sabe o endereço. Ficar aqui pode ser perigoso para nós duas. Podemos fugir juntas. Se eles não nos encontrarem, não podem cobrar a dívida. Você não precisa mais viver essa vida. — Segurei a mão da minha irmã. Estava com medo. — Mas... Isso seria apenas eu seguindo o último pedido da nossa mãe. A minha vontade, mesmo, é destruir tudo e todos da família Lima. Não quero deixar pedra sobre pedra. — Eduarda, eu não posso sair daqui. Preciso pagar a dívida que... — Ellen olhou assustada para a porta ao ouvir gritos e tiros do lado de fora. — O que diabos está acontecendo agora?
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