Terá que me levar no caixão

1798 Words
A minha irmã saiu do cómodo para descobrir o que estava acontecendo do lado de fora. O meu coração estava apertado, preocupada que algo grave pudesse ter acontecido. Quando eu já estava prestes a levantar e ver por mim mesma o que acontecia, a porta se abriu de supetão, me fazendo gritar de susto. — Ellen, vocês têm que sair daqui. Os homens de Timóteo estão aqui ameaçando todos por causa de vocês duas — disse o atendente, que entrou inesperadamente na sala um pouco depois que os gritos começaram. — Deixe isso comigo. Vini, enquanto eu resolvo, leve a minha irmã até o meu quarto e se tranque lá. — Ellen ordenou, caminhando até a porta. — Espere. Não. Eles vão te machucar — implorei, sentindo o medo crescer. Já havia perdido nossa mãe, e a ideia de perder minha irmã por um erro meu era insuportável demais até mesmo para pensar. Não aguentaria a dor de viver sozinha. — Não se preocupe. Tenho certeza de que estão aqui atrás de informações sobre o seu paradeiro. Além do mais, há algo que você ainda não sabe. Eles não podem me tocar. Sua irmã não é tão fraca assim. Sente e espere. Não vou demorar — respondeu Ellen, saindo pela porta com uma confiança inabalável. — Vamos! — Vinícius, o atendente, empurrou uma estante, revelando uma grande a******a. — Não se preocupe. Sua irmã é mais assustadora do que parece. Confie nela. Eu estaria com preocupado, se fosse você, com a integridade desses homens. Por um lado, achei que não deveria simplesmente colocar minha irmã nessa situação e sair. Por outro, se eu aparecesse, poderia causar um problema ainda maior. Ellen certamente diria que não tem informações sobre mim. Se há alguém que sabe mentir, enganar e manipular, é ela. Fui levada a um pequeno quarto, repleto de bolsas, sapatos, roupas de grife, perfumes caros e muita maquiagem. Minha irmã estava vivendo uma vida bem diferente do que eu havia imaginado. Pensei que ela estivesse sofrendo, pagando pelos pecados de nossa família, mas parecia estar bem. Fiquei um pouco aliviada. — Voltei — minha irmã entrou no quarto sorrindo. — Enquanto colocava aqueles idiotas em seus lugares, pensei em um plano. O que acha? — O que você tem em mente? — perguntei, lembrando de como Ellen sempre me envolvia em problemas com seus planos quando éramos mais novas. — Nossa mãe descobriu um segredo sobre Heitor e sua mãe. A família Lima parece estar envolvida de alguma forma na morte dela. Precisamos descobrir o que foi e por que fariam algo tão horrível com uma funcionária que valorizavam tanto — Ellen sentou ao meu lado na cama. Assim como eu, ela também buscava vingança. — E como faremos isso? Fui demitida da fazenda e não posso mais ficar na cidade. Posso ser presa a qualquer momento. Mesmo que goste do plano de destruir eles, nesse momento, talvez não seja possível. — olhei confusa para minha irmã, que gargalhou. — Eu irei descobrir. Afinal, sou amante de Heitor Lima, o novo herdeiro da fazenda Ouro Rubro. Pode deixar comigo. Investigarei tudo enquanto estou na cidade. Enquanto isso, você vai para a casa da tia. Ela odeia a família Lima e com certeza vai ajudar — Ellen sorriu confiante. — Espera! Espera! Eles são perigosos. Você vai ficar aqui sozinha enquanto eu estou em segurança na capital? E mesmo se descobrir o que aconteceu, o que faremos? — Minha irmã estava querendo assumir todos os riscos. Será síndrome de irmã mais velha? Não podia concordar com isso. Eu também queria vingança. — Eduarda, sou vista como a filha renegada de nossa mãe, aquela que decidiu se prostituir para viver de luxo. Ninguém sabe da verdade. Heitor está na palma da minha mão. Farei ele pagar por minha liberdade. E, enquanto isso, descobrirei o que realmente aconteceu. Todos os homens que não prestam nesta cidade ficam bêbados aqui e falam demais. Se há algo que não sabemos, eu irei descobrir — Ellen levantou, anotando um endereço em um papel. — E se isso for verdade... Vamos nos vingar deles. Tirar tudo: a casa, as pessoas que amam, o orgulho e, por fim, suas vidas. Se eles foram responsáveis pelo incêndio que matou nossa mãe, destruiremos todos eles. Não restará absolutamente nada daquela fazenda. — Isso nos tornará iguais a eles — rebati, sentindo a raiva subir ao pensar no que fizeram com nossa mãe, mas sabendo que ela não concordaria com algo assim. — Eduarda, acha mesmo que é a primeira vez que fazem isso? Se foi um segredo tão pesado a ponto de custar a vida da nossa mãe, coisa boa não era. Eles não merecem sua bondade. Não seja ingênua. Essas pessoas fizeram nossa mãe de escrava desde criança. Nos fizeram trabalhar para eles. Isso é criminoso. E não podíamos fazer absolutamente nada. Depois de roubar a juventude e felicidade de nossa mãe, a mataram sem dó. Em nome dela, não podemos deixar que continuem agindo assim. Temos que acabar com isso. Entendeu? Se não quiser, tudo bem. Farei sozinha — Ellen me olhou com raiva. Não podia questionar. A razão dela estar naquele lugar também era por causa da família Lima. Ela estava certa. Eles nunca pensaram em nós. — Tá. Tá. Mas vamos repassar o plano desde o começo e pensar nos detalhes. Também quero ajudar, mesmo que de longe. Se faremos isso, teremos que fazer juntas — concluí, decidida. A vingança era inevitável. A família Lima nos devia uma dívida histórica. Agora, iríamos cobrar tudo. Eles se arrependeriam de ter tocado na nossa mãe. Traçamos o nosso plano desde o começo. Havia algumas coisas que eu não sabia sobre nossa família e como estávamos diretamente ligados àquela fazenda de várias formas. Naquela noite, fiquei sabendo de tudo o que deveria saber. Descobri também que a vingança de minha irmã já havia começado há cerca de um ano, quando ela se tornou amante de Heitor. A morte de nossa mãe apenas acelerou seus planos. O dia amanheceu enquanto combinávamos tudo. Eu tinha uma missão na capital: conquistar o coração do outro filho da família Lima, que vive fora da cidade há alguns anos e que eu nunca encontrei. Eu poderia fazer isso com a ajuda da minha tia, Ellen explicou. Com tudo decidido, partimos para a rodoviária. Eu iria sair com o primeiro ônibus. — Aqui está todo o dinheiro que eu consegui. O endereço da tia está anotado aqui. Me ligue assim que chegar lá. Eu não lembro direito que tipo de pessoa ela é, mas se a mamãe confiou nela, deve ter alguma razão. — Ellen me passou a mala que ela havia arrumado com algumas roupas dela. — São duas horas de viagem, não é? — Perguntei, olhando para o enorme ônibus na minha frente. Estávamos na rodoviária, esperando sua saída. Nunca havia sequer saído da cidade. Não conhecia absolutamente nada na capital. — Duda, não se preocupe. Farei a minha parte. Assim que puder, estarei na capital com você. Não se preocupe. Mesmo que... eu tenha sumido por tantos anos da vida de vocês, ainda sou a irmã mais velha. Confie em mim. Em momento algum, fiz algo sem pensar em vocês. Vamos fazer isso e depois mudar de vida. Quando tudo isso acabar, vamos recomeçar só nós duas. Sem mais dívidas para pagar, fazendas para cuidar, contratos para manter. Vamos viver a vida que sempre sonhamos. — Minha irmã sempre foi do tipo sonhadora, que desejava conhecer o mundo, trabalhar com moda, ser famosa. Eu não era assim. Gostava de viver na fazenda, cuidar dos cavalos, fazer pequenos trabalhos domésticos. Era o único mundo que eu conhecia. — Vamos! Vamos! Suba. — Obrigada, irmã. Eu te amo. Agora vá. Se nos virem juntas, pode ser problemático. Não podem te reconhecer. — Era verdade, mas me despedir dela também não era fácil. Não podia lidar com a despedida e o medo de encarar o novo. — Você está certa. Não podemos dar bobeira. — Minha irmã baixou ainda mais a aba do boné que usava para esconder seu rosto. — Estou indo. Me ligue se precisar de algo. Nos abraçamos mais uma vez. Não queria soltá-la, mas era necessário. Assisti minha irmã se afastando enquanto minhas lágrimas desciam sem parar. Queria que tudo aquilo fosse um enorme pesadelo. Eu iria acordar e encontrar minha mãe brigando comigo porque eu ainda estava deitada na cama. — Achamos você, bonitinha. Achou mesmo que poderia escapar de nós depois do que fez? — Um dos homens de Timóteo se aproximou de mim por trás; senti algo afiado tocando minha barriga. — Melhor ficar quietinha ou vai se arrepender. Prefere ir pelo jeito fácil ou difícil? — Me solta! O que vocês estão fazendo? Eu não fiz nada. — Estava tão emocionada com a partida que esqueci totalmente a razão para estar saindo. Foi um erro da minha parte. Não havia notado nada do que acontecia ao meu redor enquanto estava submersa em minhas emoções. Eu não tinha tempo para sofrer pelo luto ou pela tristeza de deixar tudo para trás. Isso era ridículo. Até mesmo isso a maldita família Lima tirou de mim. — Falei para me soltar agora! — Tentei escapar, mas não consegui. Eu estava completamente cercada por eles. — Eu te avisei. Podia ter ido pelo jeito fácil, mas se prefere assim, não me importo de fazer do jeito difícil. — O homem sussurrou no meu ouvido, no mesmo instante que senti a faca entrando no meu corpo. — Afinal, em momento algum disseram que você tem que ir ilesa, apenas que devemos te levar viva. Talvez possamos brincar muito com você antes de entregar. O que acham, rapazes? Senti uma dor alucinante enquanto os capangas comemoravam os absurdos que aquele homem dizia. Podia sentir o sangue escorrendo pelo meu vestido. Se eu permitisse que aqueles homens me levassem, meu destino seria ainda pior que a morte. Não posso deixar que isso aconteça. Tenho que escapar deles, mas como? Olhei ao redor, buscando uma ideia. Logo me dei conta do que precisava fazer. Se desse errado, poderia custar minha vida, mas ir com eles custaria o mesmo. Prefiro morrer lutando. Foi assim que aprendi a viver. — Desculpa estragar os seus planos, mas se for me levar, terá que ser dentro de um caixão. Pode ter certeza de que viva você não me leva. — Sorri antes de chutar no meio da perna com o salto agulha que a minha irmã havia me emprestado. Precisava colocar o meu plano em prática o mais rápido possível. Um erro me custaria tudo. Não será esses idiotas que vai impedir que eu faça justiça em nome da minha mãe. Não vão me parar. Ninguém vai.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD