Enquanto eu fazia um tour pela capital naquele táxi, indo do norte ao sul da cidade, totalmente despreocupada, agora que estou longe dos policiais que me procuravam. Bem distante dali, Gustavo, o homem que salvei no rio, despertava completamente confuso na cama do hospital.
— Onde estou? — Gustavo perguntou para enfermeira que estava ao seu lado, assim que abriu os olhos.
— No hospital da cidade. Um senhor trouxe você inconsciente. Graças a Deus. Nada de pior aconteceu. Foi um milagre que tenha se salvado. Muita gente morreu naquela chuva. Alguns ainda não encontraram nem os corpos. Em dias de chuva, não é indicado sair ou pegar as estradas. — A enfermeira explicou enquanto fechava o soro que já estava seco.
— Sim. Foi realmente um milagre. Um lindo anjo surgiu na minha frente. — Gustavo sorriu lembrando do encontro com Eduarda na noite passada, mas logo se deu conta que já havia amanhecido e levantou do cama.
— Para onde você pensa que vai? — A enfermeira perguntou desesperada.
— Eu preciso ir para casa agora. — Gustavo olhou ao redor, procurando uma forma de ir até em casa.
A enfermeira tentou como pode deter o homem, mas ele estava irredutível. Para Gustavo se despedir do seu avô naquele momento era mais importante do que qualquer coisa. Com ajuda de um mototaxi que estava parado próximo do hospital, chegou na fazendo Ouro Rubro, surpreendendo toda a família que tomava café animada.
— Bom dia, família. — Gustavo entrou na sala mancando, surpreendendo a todos.
— Gustavo? — Liene, cunhada de Gustavo arregalou os olhos completamente chocada por ver aquele homem com vida.
Na mesa, onde estavam sentados Heitor, irmão de Gustavo, Lorena, sua mãe e sua cunhada, um clima estranho se instaurou enquanto todos se entreolharam sem saber como reagir.
— Filho? Onde você estava? Todos pensamos que o pior havia acontecido. Encontraram o seu carro abandonado na estrada. — Lorena levantou para falar com o filho.
— Um anjo me resgatou. Eu estava apressado para chegar ao velório do vovô. Como as estradas estavam fechadas, decidi pegar um atalho, mas houve um deslizamento, acabei caindo no rio, mas por sorte uma linda mulher me salvou. De todas forma, não deveriam estar todos no velório? O que fazem aqui? Estavam me esperando para começar? — Gustavo achou estranho que a sua família estivesse ali naquele momento.
— Filho, se sente um pouco. O velório e o enterro já aconteceram. O seu avô foi cremado, assim como o seu último desejo, jogamos duas cinzas pela terra quer ele tanto amou e de dedicou durante a sua vida. — Lorena explicou para o filho que ficou pálido na mesma hora. — Estamos todos reunidos aqui esperando o advogado com o testamento. Fico feliz que chegou a tempo. Precisamos de todos aqui para isso.
— Que? Que conversa é essa, mãe? O vovô nunca quis ser cremado. Queria ser enterrado junto com a vovô. Ele sempre disso isso! — Gustavo estranhou a situação.
— Filho, as pessoas envelhecem e mudam de ideia. Fazia bastante tempo que vocês dois não conversavam. Depois daquela discussão, você se foi e não soube das mudanças. — Lorena voltou a sentar completamente despreocupada.
— Mesmo assim! Não fez sentido. A senhora sabia que eu estava vindo. Deveria ter me esperado. Pularam todas as tradições. Fizeram o velório e a cremação antes mesmo de completar vinte quatro horas da sua morte. A tradição da nossa família é orar pelos que partiram por ao menos 24 horas. Por que vocês estavam tão apressados? — Gustavo tinha sensação que algo não estava certo, mas não sabia exatamente qual era o problema. Todos da mesa ficaram tensos com a pergunta, o que deixou ele ainda mais certo que estavam escondendo algo.
— Eu estava tentando evitar tocar no assunto, mas a verdade é que o seu avô pediu para que não fizessem as tradições da família, deveríamos pular todas e de forma alguma esperar por você. No fundo, Pedro era um homem rancoroso, depois de discussão de vocês, ele não te perdoou. Disse que nem mesmo após a morte queria encontrar com o neto. Morreu com esse rancor no coração. Senhor Pedro pediu para que apenas queimasse o seu corpo, jogassem as cinzas nas plantações. Que não deveríamos chorar por ele, mas focar na fazenda. Era sua última vontade. Tivemos que concordar. Eu sei como deve ser doloroso para você, mas foi uma escolha sua partir e nunca mais pedir perdão ao seu avô. Não pode questionar a escolha dele. — Lorena explicou passando a mão de leve no braço do filho — Não fique triste. A vida continua.
Gustavo fica completamente arrasado ao ouvir aquilo. Lembrou da última vez que conversou com seu avô antes de viajar para disputar a temporada de corridas. O seu avô estava insistindo para que ele desistisse das pistas e aprendesse a administrar a fazenda. Entretanto, Gustavo que sempre amou o que fazia, rejeitou na mesma hora o pedido do seu avô. Alegando nunca ter cobiçado ser herdeiro da fazenda. Tinha outros planos para sua vida. O seu avô, magoado, disse que não deixaria nada para ele. Que a partir daquele momento, não era mais seu neto.
— Licença. O advogado chegou. Ele está a esperar a todos na sala. — Um funcionário entrou interrompendo as lembranças dolorosas de Gustavo.
— Obrigada. Vamos. Está na hora de abrir o testamento. — Lorena levantou andando em direção da porta.
Todos que estavam na mesa de jantar, foram até a sala encontrar com o advogado que já estava com o testamento em mãos.
— Com todos os herdeiros aqui. Darei início a leitura do tratamento feito em vida por Pedro Lima. — O advogado declarou assim que todos se sentaram, antes de começar a ler o documento.
Gustavo não conseguia prestar atenção no que o advogado dizia. Sentia culpa por não ter pedido perdão. Sempre achou que haveria uma nova oportunidade. Que o seu avô iria perdoar quando estivesse mais calmo. Nunca pensou que levaria aquele rancor para o caixão.
— Sendo assim, deixarei todas as minhas propriedades, ações e administração da fazenda para meu herdeiro, Heitor Lima. Todos os outros membros da família, receberam o valor estipulado por mim mensalmente, para que vivam tranquilos e confortáveis. Com excessão do meu filho Gustavo Lima. — O advogado declarou antes de colocar o testamento novamente dentro do envelope.
— Como é? — Gustavo sentiu aquilo como a facada final. O seu avô, partiu desprezando ele completamente? Ele não podia acreditar no que estava acontecendo. — Me deixa ver isso!
Todos olharam assustados, preocupados com a reação que Gustavo teria ou o que ele planejava fazer após roubar o testamento das mãos do advogado. Era como lidar com uma bomba, prestes a explodir a qualquer momento.
Ao ver com os seus próprios olhos o que estava escrito no testamento, Gustavo se sente sufocado pela culpa. Percebendo que precisava de ar, na mesma hora vai em direção da porta, para sair da sala, o seu irmão tenta o impedir, se colocando na frente da porta.
— Gustavo, você não está magoado, não é? Sabe que é a escolha do vovô. Você vai aceitar a sua vontade não é? — Heitor perguntou antes de puxar o envelope com o testamento das mãos do irmão.
— Heitor, eu não me importo com a herança ou administração da empresa. Não preciso disso. Tenho a minha carreira e o meu próprio dinheiro. O que me machuca é nunca mais conseguir o perdão do meu avô. Acha mesmo que eu estaria pensando em dinheiro em uma hora dessa? — Gustavo explica se sentindo irritado pelo absurdo que o seu irmão havia dito.
— Te entendo. Não deve ser fácil ter que conviver com culpa e remorso para o resto da vida. Afinal, você virou as costas para ele, preferiu a sua carreira ao legado da família e tenha se tornado a maior decepção do vovô, mas vamos esquecer isso. Que tal sairmos para beber? Tem um bar muito bom que eu frequento que... — Heitor foi empurrado por Gustavo, liberando a passagem.
— Acha mesmo que é o momento certo para beber? Ah! Eu tinha esquecido. Você é exatamente assim. Tanto faz. Eu dispenso. Quero ficar sozinho. — Gustavo nunca havia se dado bem com o seu irmão, mesmo quando eram crianças, pareciam dois estranhos.
Caminhando pela fazenda, tentando aliviar a sua mente e a dor no seu peito. Acaba indo até o estábulo, para ver o cavalo que o seu avô havia dado para ele alguns anos atrás. Acaricia um pouco, antes de subi e sair cavalgando sem rumo pela mata, aos poucos, o aperto do seu peito foi desaparecendo. Quando já estava prestes a voltar para casa, com a cabeça mais calma, tromba com um antigo funcionário da fazenda. Um dos homens de confiança do seu avô.
— Eu tô vendo 'visagem'. Não tô acreditando que tô vendo o pequeno encrenqueiro. — O funcionário brincou ao ver. Era um senhor, perto dos seus setenta anos. Tinha os seus cabelos brancos e um sorriso gentil.
— A pessoa que eu precisava procurar. Me conta as novidades. — Gustavo desceu do cavalo para conversar com o funcionário.
O funcionário contou algumas novidades, contou como o dono da fazenda havia definhado rápido e sobre a preocupação dos funcionários com a administração nas mãos de Heitor, que era conhecido por ser um tirano e ignorar as necessidades dos funcionários. Conversa vai e conversa vem, falaram sobre a noite anterior.
— Aliás, você conhece uma garota, por volta dos vinte anos, tem a pele bronzeada, lindo cabelos cacheados castanhos e olhos verdes que hipnotizam. Ela mais parece um anjo do que gente. Foi ela que me salvou ontem. Estou querendo recompensar ela, mas não sei nem por onde começar a procurar. Talvez você saiba? Já que conhece todos da cidade. — Gustavo questionou. Estava arrependido de não ter pedido o número dela.
— Com toda a certeza essa é a Eduarda. Ela é a moça mais bonita da cidade. Todos os homens são loucos por ela, mas dizem que ela nunca deu bola para ninguém. Preferia andar de cavalo. Até onde fiquei sabendo, depois do falecimento da sua mãe, ela decidiu ir embora da cidade, partiu hoje pela manhã. Talvez a irmã dela tenha alguma informação sobre ela, mas não tenho certeza, afinal, as duas não tinham contato, depois que a irmã largou a família para viver uma vida vulgar — O senhor de explicou enquanto alimentava o cavalo. — Não que eu esteja julgando. Adoro aquele lugar, mas as duas irmãs são completamente opostas. Uma respira inocência, a outra, parece ser a própria definição de luxúria.
— Irmãos nem sempre são o que a gente espera. Compreendo que as duas não se deem bem. Afinal, eu e Heitor nunca tivemos uma relação boa. Não é? De toda a forma, espero conseguir encontrar aquele anjo mais uma vez. Não consigo tirar ela dos pensamentos. Se eu fecho os meus olhos, a imagem dela surge. — Gustavo conversou com o funcionário de longa data.
— Ela é uma moça boa. De família. Mesmo que nesse momento esteja completamente destruída. Tenho certeza que os sentimentos é sincero, mas ainda assim, não esqueça, mesmo que não use aliança no seu dedo mais, ainda é um homem casado. Ao menos, até onde sei. — O funcionário alertou Gustavo. Receoso que ele tivesse outra intenção ao procurar o anjo que encontrou na noite passada.
— Casado? Ah... — Gustavo respirou fundo. Pensando já a sua verdadeira realidade. Tudo era bem diferente do que todos imaginavam.
Os dois conversam mais um pouco, mas assim que percebe que está esquentando, Gustavo parte de volta para casa cortando caminho pela mata, por um caminho diferente do que veio. Acaba dando de cara com Heitor torturando um homem com um ferro quente de marcar gado, enquanto o homem cuspia sangue e estava todo ferido.
— O que você pensa que está fazendo com esse homem? — Gustavo gritou pulando do cavalo na mesma hora que percebeu a cena. — Por acaso você perdeu completamente o juízo, Heitor? O que o nosso avô pensaria se visse você tratando um dos seus homens dessa forma. Isso é um absurdo.