A primeira invasão a gente nunca esquece

1893 Words
Enquanto Gustavo tentava encontrar uma forma de sair da delegacia com ajuda de pessoas que ele não via a muito tempo. Eu estava chegando finalmente naquele enorme condomínio. — Chegamos. É aqui. Não posso entrar. A corrida ficou 170. — O taxista disse animado por ter conseguido uma corrida tão boa. E eu desesperada. Quem imaginaria que daria tudo aquilo? — Que? — Abri a bolsa nervosa. Nunca pensei que apenas uma pequena corrida de táxi sairia tão cara. Para meu desespero, eu não tinha o suficiente para pagar ao homem. — Eu não tenho todo o dinheiro aqui, será que pode esperar um pouco? Vou entrar, pedir a minha tia a diferença emprestado e venho pagar. — Você entrou no táxi sem o dinheiro? Está querendo me enrolar? Irei chamar a polícia se não me pagar. — O taxista ficou bastante irritado com a possibilidade de ter sido enganado. E eu ainda mais desesperada. A polícia poderia me reconhecer de alguma forma. — Não. Não é isso. Eu tenho 150 reais comigo. Falta vinte para inteirar o valor completo corrida. Vou entrar e pedir a diferença para minha tia. — Explique agitada. Não podia deixar que a polícia fosse envolvida de jeito nenhum. Não acabaria bem para mim. Nas últimas horas, me senti um ímã de polícias e problema. Preciso de um banho demorado de sal grosso para afastar esse azar que grudou em mim. — Me entrega o dinheiro que já tem e eu fico aqui esperando a diferença. — O taxista estendeu a sua mão em minha direção para receber o dinheiro. — Aqui está. — Coloquei na mão dele antes de descer do carro. Caminhei até o portão do condomínio, havia um segurança na guarita. Assim que me aproximei, perguntou meu nome e quem eu queria visitar. Olhei no celular os detalhes, repeti todas as informações que minha irmã havia me dado com muito cuidado para não errar. — Irei interfonar para pedir a sua liberação. — O segurança disse antes de desaparecer. Não demorou muito e retornou — Não foi autorizada sua entrada. Peço que de retire ou ligue para a pessoa que deseja encontrar. Talvez esteja no condomínio errado. — Como é que é? Tenho certeza que é nesse aqui. Talvez ela não lembre. Afinal, faz tempo que não nos vemos. Diga que é Eduarda, filha de Serena, sua irmã. — Expliquei. O segurança me olhou com cara de poucos amigos, era óbvio que não acreditava em mim. — Por favor. É muito importante. A minha mãe faleceu e eu vim contar a notícia pessoalmente para minha tia. Elas eram muito apegadas, não quis dar uma notícia dessa por telefone. A minha tia tem o coração muito sensível. Você deve saber que a vida dela não foi fácil. — Tentarei mais uma vez. Se der errado. Quero que saia daqui sem questionar. — O segurança parecia odiar a ideia de né ajudar, mesmo assim, voltou a interfonar. — Olha moça, a entrada vai foi autorizada. Se você insistir, terei que chamar a polícia. — Já estou saindo. — É sério? Todo mundo quer chamar a polícia sempre que me ver. Estou começando a me sentir um criminosa de alta periculosidade. Não havia mais como insistir. Respirei fundo. Organizando meu pensamento. Como ia explicar isso ao taxista? E o que eu faria ali? O condomínio era afastado. Ninguém passava na rua. Nem sequer um carro. Com toda a certeza do mundo, o taxista só vai me dar carona para delegacia. Entretanto, para minha surpresa. Quando me virei. O táxi não estava ali. Havia ido embora em algum momento, mas eu não tinha notado. — Acho que nem a carona para a delegacia terei. E agora? — Pensei alto olhando para os muros do condomínio. — Parece que não tem escolha. Entrar é o único caminho. Se der tudo errado, aí menos, terei carona para delegacia. Já é um começo, não é? Não precisava ninguém me dizer. Tinha certeza que era um péssimo plano e muito arriscado, mas eu não tinha mais dinheiro, nem conhecia ninguém na capital. Não tenho para onde ir. Nem sequer posso voltar para minha cidade. E vamos admitir, invasão seria o crime mais básico que eu cometi hoje. — Se está no inferno, abrace o capeta, não é? — Sorri enquanto andava pela calçada do condomínio, colada com o muro, buscando um acesso mais fácil ou que a cerca elétrica estivesse quebrada. Para minha sorte, encontrei na esquina do condomínio, uma parte onde os fios estavam arrebentado por alguma razão. Fiz uma busca rápida para ter certeza. Descobri que a cerca elétrica não funcionará corretamente se o fio estiver quebrado em qualquer parte do circuito. Já que ela depende de um circuito fechado para transmitir a corrente elétrica através dos fios. Se o fio estiver quebrado, o circuito será interrompido, e a corrente não fluirá através da cerca, tornando-a ineficaz. Para que a cerca elétrica funcione, o circuito deve estar completo, permitindo que a corrente passe continuamente através dos fios e volte para a fonte de alimentação. — Ou seja, andei isso tudo para nada. Desde o começo ela não estava funcionando. Primeiro problema resolvido. Agora vamos ao segundo, como vou escalar um muro dessa altura? — Pensei olhando para o muro que tinha duas vezes o meu tamanho. Como não importa mais a cerca elétrica, caminhei em busca de qualquer coisa que me ajudasse de alguma forma a escalar aquele muro. Quando eu já estava perdendo as esperanças encontrei um portão, dentro havia vários tonéis enormes. Pelo odor que predominava o lugar, era óbvio que se tratava do local de descarte do lixo do condomínio. Com ajuda de uma pedra e muito ódio, consegui quebrar o cadeado. Queria usar o tonel de apoio, para subir e alcançar o final do muro. Usei o portão como escada para subir no tonel. Me estiquei toda para alcançar o muro. Ficou faltando um pouco. — Ah! É fácil. Só preciso dar um pulinho de leve. — Pensei alto, mas eu tinha esquecido de um pequeno detalhe. Ao pular, faria mais peso na tampa do tonel. Por sorte, ninguém estava por perto para me filmar. Tenho certeza que um vídeo do momento iria viralizar na internet. Assim que pulei, a tampa se abriu, mergulhei no lixo. Para piorar, por conta do meu peso, o tonel virou, como havia uma pequena ladeira, saiu rolando. Me senti dentro de uma máquina de lavar, só que com lixo extremamente podre. Quando finalmente parou de rolar, consegui escapar daquela tortura. Eu estava fedendo a uma mistura de fralda de bebê, fruta estragada e comida vencida. Tentando parecer menos derrotada, tirei o lixo que estava preso no meu cabelo e nas minhas roupas. Ajudou muito? Não, nenhum pouco. O odor estava entranhado em mim. Mesmo assim, levantei a cabeça fingindo ter uma dignidade que claramente eu não tinha. Dessa vez, coloquei um pedaço de madeira que encontrei no lixo para evitar que a tampa abrisse com o meu pulo. Refiz os mesmos passos da outra vez. Pulei uma vez, não alcancei o muro. Tentei uma segunda, também não deu. Na terceira, pulei com mais força e consegui segurar com as duas mãos no muro. Com muita dificuldade, consegui escalar ele. As minhas mãos já estavam sangrando quando finalmente cheguei no topo. Usei o apoio da cerca elétrica para me apoiar e ficar em pé. Como não podia chamar atenção, pulei rapidamente para o lado de dentro de qualquer jeito, caindo por cima do meu pé. — Aí! Droga! — Na mesma hora, senti o meu pé doendo. Tive vontade de chorar ou será que foi o odor grudado em mim que fez os meus olhos lacrimejarem? De toda a forma, respirei fundo, para tentar não chora. Me levantei com um pouco de dificuldade. Enquanto eu caminhava pelo condomínio, com uma mendiga, chamando atenção de todos à volta. Me deslumbrava com as enormes casas daquele lugar, mas pareciam palácios luxuosos. Ao menos, as portas eram parecidas com as dos desenhos, que se transformavam em pontes ao serem abertas, mas tenho a impressão que não é o caso dessa. Finalmente, encontrei a casa, assim como as outras, era linda e enorme. Encontrei com uma funcionária varrendo a entrada do lugar. Assim que ela notou a minha presença, me olhou assustada. — Meu Deus! Como você entrou aqui? Vem comigo. Vou te ajudar, mas não podemos deixar que ninguém veja. — A funcionária segurou a minha mão, me levou até a parte de trás da casa. — Aqui. Tome um banho e vista essa roupa. Vou fazer um misto quente para você. Não falei nada. Talvez ela conhecesse a minha tia? Fosse amiga dela e por isso me conhece? Eu aceitei o banho, a roupa e a torrada. Me senti um novo ser humano depois disso. — Agora vou te ajudar a sair daqui. Se um dos seguranças te pegar, você terá enrascada. Vão te levar para polícia na hora. Acho que consigo te tirar pela saída dos funcionários. — A funcionária disse enquanto abria a porta e olhava ao redor. Ao ouvir aquilo, percebi que talvez tivessem ajudado só por preocupação da minha condição e não pela minha tia. — Eu agradeço demais a sua ajuda. Não posso ir. Eu preciso falar urgentemente com Joana Sales. É muito importante. Eu vim aqui de muito longe apenas por isso. Não posso ir antes de falar com ela. — Expliquei para funcionária que me olhou por um tempo, como se tivesse analisando o que deveria fazer. — Por favor! Juro que não estou mentindo. Joana conhece minha mãe. E eu vim por conta dela. — Vamos. Entre. Espere na sala. Irei ver se ela pode te atender. — A funcionária olhou um pouco confusa, mas achou melhor falar com Joana antes de tomar qualquer decisão. A funcionária me deixou esperando na sala. O lugar era impecável. Tudo combinava de uma forma que não pensei que fosse capaz. O sofá era mais confortável que a minha cama. As janelas de vidro tomavam parte de uma parede inteira, mostrando a piscina do lado de fora. Eu estava tão entretida olhando para uma foto enorme no centro da sala, de um casal com duas filhas pequenas gêmeas e um garoto que parecia apenas um pouco mais velho que as meninas. Eu sequer percebi que alguém havia descido as escadas. — Penélope, não sei o que estava pensando. Não é óbvio? Acha que eu iria conhecer alguém como ela? Não acredito que me fez perder tempo por conta disso. Chame os seguranças e coloquem ela para fora. Tenho que falar sobre isso na próxima reunião. — A mulher disse cruzando os braços, ainda da escada, mas nem sequer chegou a descer, assim que me viu, se virou para voltar para onde estava — A segurança desse lugar já não é mais a mesma. Olha essa situação. — Não sei quem é a senhora, mas não sairei desse lugar até que possa falar com Joana Sales. Eu sou a sobrinha dela, Eduarda Ribeiro, filha de Serena Ribeiro. Estou aqui a pedido da minha mãe. E não vou sair. — Falei enquanto caminhava até às escadas, mas para minha surpresa, a mulher parou completamente congelada ao ouvir o nome da minha mãe e se virou na minha direção, com um semblante assustado.
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