O destino quis assim

2119 Words
Estendi a mão para ajudar o garoto a sair de dentro dos arbustos, como um animal ferido, ele se encolheu. Ele deveria ter por volta dos oito anos. Estava bem arrumado e cuidado, embora estivesse com as pernas arranhadas da estripulia que tinha acabado de fazer. — Olá, eu me chamo Eduarda. Sou sobrinha de Joana. Vim passar um tempo nessa casa. Não conheço ninguém. Será que podemos ser amigos? — Eu sei, parece bobo, mas achei que seria mais fácil ele baixar a guarda se soubesse quem eu sou. Para minha surpresa, o garoto me olhou atento, mas em completo silêncio por algum tempo. Dessa vez, foi ele que me estendeu a mão, como pedisse ajuda. As lágrimas ainda escorriam por seu rosto sujo de areia. Com cuidado, eu o ajudei a sair do arbusto. — Você está com dor? Se perdeu dos seus pais? — Ao perguntar isso, o garoto chorou ainda mais alto. Se tremendo mais que um pinscher. Algo na minha pergunta tinha desengatilhado uma dor enorme na criança. Não havia muito o que fazer, primeiro, tinha que acalmar o garoto. Puxei ele para meus braços, o abracei forte. Quando dei por mim, eu estava chorando também. Definitivamente, não sou boa em consolar as pessoas. Ao sentir que ele havia se acalmado um pouco, tentei fazer o mesmo comigo. — Se sente melhor? — Perguntei e quanto limpava as minhas lágrimas. Não houve resposta. O menino me olhava em completo silêncio. Fiz o mesmo. Esperando a sua resposta com paciência. Por fim, ele acenou confirmando que se sentia melhor. Será que os seus pais disseram para não falar com estranhos e ele levou ao pé da letra? — Fico feliz, mas deveríamos cuidar desses arranhões para não acabarem inflamando, o que acha? Posso cuidar deles e te conseguir um lanche delicioso. Ah! Antes disso, pode me dizer que são seus pais? Eles devem está preocupados. Não é? — vai que eu levava o menino e era acusada de sequestro. Houve outro momento de silêncio profundo, o garoto apenas balançou a cabeça acenando que não. Naquele momento, comecei a desconfiar que talvez ele tivesse algum problema com a fala. Achei melhor cuidar dos ferimentos dele e depois pedirei ajuda para Penélope. Ela deve saber quem são os pais. — Certo. Então vem comigo. Vou te preparar um lanche e cuidar das suas feridas. — Coloquei o menino do braço. Ele passou os braços no meu pescoço e se aninhou. Caminhei um pouco até a porta de trás da mansão. Normalmente, eram usadas por funcionários, assim como na fazenda que a mãe trabalhava. Achei que encontraria alguém na cozinha, mas para minha surpresa, estava completamente vazia. Coloquei o garoto na bancada. Abri a geladeira me sentindo o ser mais sem educação do mundo, mas eu espero que entendam que é por uma boa causa. Tinha tanta coisa na geladeira. A maior parte eu nem sabia o que era. — Vamos apostar no que eu já conheço, não é? Me desculpa, eu não sou muito profissional na cozinha, mas é uma das minhas comidas favoritas quando tinha a sua idade. — Expliquei enquanto cortava as bananas em rodelas. O garoto não tirava os olhos de mim. Prestando atenção em cada movimento. Cortei todas as bananas em rodelas finas, despejei em uma panela junto com o que penso ser manteiga, coloquei o açúcar e levei tudo ao fogo. Esperei até que as bananas dourassem e despejei tudo em um prato com uma leite em pó por cima e queijo. — Aqui está. — Entreguei na mão do menino, que me olhou surpreso sem pegar o prato. Coloquei ao seu lado na bancada. — Não quer? Eu sei que não é bonito, mas é gostoso. Se tu fizer careta, eu como sem piscar duas vezes. Na mesma hora, o menino tomou o garfo da minha mão e partiu para banana. Enquanto ele comia, fui no banheiro buscar um kit de emergência, mas não achei. Procurei nos armários da cozinha e finalmente encontrei. — Vou limpar e cuidar dos arranhões enquanto você come, tá? — Falei enquanto molhava o algodão no antisséptico. Não houve resposta. Dessa vez, ele estava super focado na banana. Com cuidado, limpei toda a perna dele. Coloquei curativo apenas em dois lugares, que estavam estavam sangrando um pouco. Quando terminei, o garoto também havia terminando de comer. — Vejo que gostou. Queria saber seu nome. — Pensei alto. Como achar os pais de uma criança que não sei o nome? O garoto tirou de uma pequena bolsa que carregava diversos cartões. Olhou alguns deles com atenção, antes de me entregar três com um enorme sorriso. " Me chamo Edgar " " Obrigado" " Eu estou bem" — Fico aliviada. Você é um bom garoto. Agora só precisamos encontrar seus pais. — Eu estava certa. O garoto não conseguia falar. Deve ser difícil tão pequeno. Para minha surpresa, o garoto mostrou o cartão com a palavra não, antes de pular do balcão e sair correndo pela mansão em direção a sala. Tentei correr atrás dele, mas quando cheguei na sala, já havia perdido ele de vista. Olhei ao redor. Pensei onde uma criança iria se esconder e vi a escada. Ao subir as escadas, olhando ao redor procurando o garoto, não percebi que havia alguém no final da escada, acabei tropeçando na mulher. Que me olhou cheia de ódio. — Por acaso você é cega ou maluca. Não está vendo que... — A mulher parou de falar, me olhando de cima abaixo. Pude ver o ódio em seu olhar. — Quem é você? O que fez com essas roupas? Quem te deu autorização para mexer como as minhas coisas. Ninguém toca no que é meu e sai ileso. Não sabia? A mulher falava aos berros, enquanto andava em minha direção. Eu sabia que estava perto da escada. Assim que tentei avisar do risco. Vi um sorriso no rosto da mulher, antes de sentir a suas duas mãos me empurrando. Desequilibrei na mesma hora, desci as escadas rolando tão rápido, que não consegui parar até chegar ao final da escada. Quando finalmente parou, eu estava tonta, com uma dor forte na cabeça e sentia um cheiro forte de sangue. Naquele momento, Gustavo estava entrando na casa e conversando com seu amigo, explicando toda a situação com a herança, a fazenda e como acabou sendo preso. — Acho que esta não é a hora de namorar. O advogado conseguiu, com muita dificuldade, que você respondesse em liberdade, alegando que a prisão foi ilegal. Mas, ainda assim, você pode ser processado. Precisamos provar que foi legítima defesa, talvez procurando o homem que você salvou. De qualquer forma, o que aconteceu com o seu irmão? Vocês nunca se deram bem, mas isso não é um pouco exagerado? Ele não apenas ameaçou a sua vida, como também te mandou para a prisão. Isso não é estranho? — Rennê achou estranho o pedido do amigo de vir à capital em uma situação como aquela. — Há algo que devo falar para sua irmã antes de investigar o que... — Gustavo foi interrompido ao me ver rolando até os seus pés inesperadamente. — Eduarda? O que está acontecendo aqui? Tâmara, o que acabou de acontecer? Gustavo se agachou imediatamente ao notar que eu era a mesma mulher que havia salvado ele na noite anterior. Naquele momento, lembrou-se das minhas palavras: "Se for o que o destino deseja, iremos nos encontrar novamente, mesmo que pelo mais puro acaso". — Gustavo? — Balbuciei, perdendo a consciência. Havia batido a minha cabeça várias vezes enquanto descia as escadas rolando. Talvez eu estivesse vendo uma alucinação. O que esse homem fazia aqui? De cima da escada, Tâmara olhava para nós dois de um jeito estranho, como se alguém tivesse cometido um crime. Quer dizer, alguém cometeu, mas foi ela. Ainda assim, era desconfortável. O que essa mulher tem contra mim? Eu nem a conheço. — Gustavo! O que pensa que está fazendo? De onde você conhece essa mulher? Não imaginei que estava familiarizado com toda a criadagem. — Tâmara gritou descendo as escadas, indignada. Pela primeira vez em anos, havia visto Gustavo olhando para outra mulher de forma carinhosa. — Você está bem? Se machucou? Vou te levar ao médico. — Gustavo ignorou completamente as reclamações de Tâmara. O seu olhar estava focado em mim. Era nítida a sua preocupação. Não vou mentir, eu também não conseguia tirar os olhos dele. Aquele homem me encantava. Nem parecia real. — Estou bem. — respondi agitada, tentando me levantar, mas senti uma dor de cabeça forte. Ao colocar a mão na cabeça, notei de onde estava vindo o cheiro de sangue. — Ai... — Pancadas na cabeça são perigosas. Precisamos fazer um exame de imagem. Mesmo que Rennê seja médico, não tem muito o que pode fazer nessa situação. Não é, amigo? Deixarei você lidando com a sua irmã. — Gustavo me levantou nos seus braços fortes. Me senti como uma princesa ou dentro de um dorama. O homem que olhava em silêncio para nós dois apenas concordou, acenando com a cabeça. Tive a sensação de conhecê-lo de algum lugar. — Você está brincando comigo, não é? Você não vai levar essa mulher para lugar nenhum. Ela teve o que mereceu por pegar as minhas roupas sem autorização. Uma ladra. Se ela diz que está bem, que esteja. Agora largue-a. Melhor, chame a segurança e mande jogá-la na rua. Quem já viu isso? Por que você deveria se preocupar com criadas? — Tâmara se irritou, indo para cima de Gustavo, que olhou sério para ela em resposta. — Fique quieta. Ela precisa de atendimento médico e farei isso. Qualquer ser humano faria o mesmo. Quando voltarmos, quero que me explique o que aconteceu aqui e como ela acabou rolando da escada, Tâmara. Espero que tenha uma boa explicação. Ou eu mesmo denunciarei você. — Gustavo respondeu antes de se virar e ir em direção à porta de saída. Chegando ao carro, o silêncio da noite foi rompido pelo grito frustrado de Tâmara por não ter conseguido impedir que Gustavo me levasse. Mesmo assim, ele não parou em momento algum. Ligou o carro e partiu em direção ao hospital mais próximo. No hospital, fui levada direto para a tomografia, que constatou que não houve qualquer dano interno. Limparam o corte, fizeram um curativo e me medicaram para aliviar a dor antes de liberar. Não demorou muito, e já estávamos no carro voltando para casa. — Eu te disse que não seria nada. Acabei tomando o seu tempo. — Fiquei um pouco envergonhada de encontrar Gustavo em uma situação como aquela. Ele, tão bonito e elegante, super cheiroso. Eu estava descabelada, suja de terra e fedendo a suor. — Jamais. Não fiz nem metade do que você fez por mim. Você foi como um anjo salvando a minha vida na noite passada. Mesmo que eu passasse o resto dos meus anos tentando pagar por isso, seria impossível. Afinal, tive uma sorte imensa de você surgir na minha vida. — Gustavo abriu um enorme sorriso para mim. Nunca havia conhecido alguém tão bonito. — Fiz o que qualquer pessoa faria. Não é necessário tanta gratidão. — Eu não sabia como reagir àquela situação. Tentei o meu melhor para ficar calma e não falar besteira. Não tinha experiência nenhuma com homens. — Não. Já vivi muitas coisas na minha vida. E aprendi que há poucas pessoas com um bom coração. Às vezes, nem a nossa própria família se salva. Podem nos empurrar quando estamos estendendo a mão pedindo ajuda, quem dirá um desconhecido que não tem nada a perder. — Gustavo sentia que a sua família havia feito exatamente isso, o empurrado do penhasco quando ele precisou de ajuda. — Mas mudando de assunto, o que acha de um lanche? Resolvemos tudo tão rápido. O que acha de um passeio na cidade? Você conhece o lugar? — Não. Cheguei da minha cidade e vim direto para a casa de Joana. Não tive tempo de conhecer. Será que está tudo bem eu aceitar? Tâmara parecia bem irritada. Vai que ela me empurra da escada novamente? — Brinquei. Também achei melhor não contar nada sobre a minha fuga do hospital quando cheguei. De alguma forma, eu estava ansiosa para passar um tempo com esse homem misterioso. — Ah! Pode deixar comigo. Sei muito bem como lidar com a onça. Afinal, somos amigos de infância. Agora, vamos aproveitar essa noite linda. Vou te apresentar o melhor da cidade. — Gustavo ofereceu com um enorme sorriso. Nem que eu quisesse iria conseguir recusar. — Sim! Vamos. Estou animada. — Não faz m*l aproveitar a vida um pouco, não é?
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