— Não deve ser fácil essa mudança brusca, mas como faz pouco tempo, você ainda não deve estar sentindo falta de nada, não é? — Gustavo puxou assunto enquanto dirigia pelas ruas totalmente desconhecidas para mim.
— Claro que já senti. Todos os dias, depois de um dia cheio de trabalho, eu subia no meu cavalo e corria pela floresta até o anoitecer. Adoro a sensação de liberdade que sinto quando faço isso. Também era uma forma de limpar a minha mente. Aqui, sinto que vou surtar e explodir. As pessoas são tão diferentes e estranhas. — Não que onde eu morava não tivesse pessoas ruins, mas ninguém costumava empurrar os outros da escada sem razão aparente.
— Quando eu era mais novo, também gostava muito de andar a cavalo, mas quando meu pai faleceu e eu vim morar na cidade, troquei o amor por cavalos pelo amor aos carros. A sensação de liberdade é a mesma. Eu te entendo. Foi a minha forma de conseguir lidar com esse lugar. Só não esperava me tornar piloto e viver disso. Foi uma grande surpresa para mim. — Gustavo sorriu. Correr deve ser algo que ele ama. Seus olhos brilhavam enquanto falava.
— Não tem medo de acidente? — Puxei o assunto. Também estava curiosa. Era divertido conversar com Gustavo.
A conversa continuou. Quando não era ele, era eu que puxava assunto, fazendo com que a conversa nunca tivesse fim. Me surpreendi em como era fácil e divertido dialogar com Gustavo, mas quando dei por mim, o cenário chamou minha atenção.
A brisa noturna entrava pela janela do carro, trazendo o frescor do mar. As palmeiras balançavam suavemente ao ritmo das ondas. No calçadão, os passos se multiplicavam, ecoando a sinfonia de risos e conversas animadas. Os contornos das barracas iluminadas delineavam um caminho de aromas tentadores, onde o cheiro de frutos do mar grelhados se misturava com o doce perfume das frutas tropicais. Vendedores ambulantes exibiam seus artesanatos coloridos, cada peça refletindo a cultura vibrante da região.
— Você gostou muito da orla, não é? Seus olhos parecem de uma criança ganhando doce. Ali na frente tem a minha parte preferida. — Gustavo apontou enquanto diminuía a velocidade do carro, me fazendo aproveitar ainda mais o momento.
Mais adiante, pude ver o que Gustavo gostava tanto. Passamos por artistas de rua que davam vida às suas performances encantadoras. Músicos tocavam melodias que se espalhavam pelo ar, convidando casais a dançarem sob as estrelas. Malabaristas e mágicos arrancavam sorrisos e aplausos, criando um espetáculo que cativava adultos e crianças.
— Mesmo tão tarde da noite, ainda assim, tem tantas pessoas se divertindo. Parece tudo tão mágico e encantador. — Me sentia conhecendo um mundo que nunca imaginei. Afinal, onde eu morava, a certa hora da noite, você não encontrava nem animais na rua.
— Vamos descer e caminhar um pouco na areia? — Gustavo sugeriu enquanto estacionava o carro.
Enquanto eu tentava descobrir como soltava o cinto de segurança, Gustavo deu a volta no carro, abriu a porta e me estendeu a mão. Tinha visto tantas vezes essa cena em filmes, mas nunca pensei que aconteceria comigo. Aceitei a sua mão, mesmo um pouco envergonhada. De mãos dadas, fomos caminhar na praia.
— Tire a sua sandália. Sinta a areia nos seus pés. As ondas do mar tocando gentilmente você. Não é a mesma coisa que correr a cavalo, mas tem o seu charme. — Gustavo sugeriu tirando os seus próprios tênis, segurando-os com a mão que estava livre, já que a outra segurava a minha.
A praia, mesmo na escuridão, não perde o seu encanto. Pequenas fogueiras pontilhavam a areia, onde grupos de amigos se reuniam para conversar e cantar, enquanto as ondas batiam na costa como plano de fundo. O farol distante lançava o seu feixe de luz, protegendo os navegantes e acrescentando um toque de mistério à paisagem.
Deslumbrada com o cenário magnífico, aceitei a sugestão de Gustavo. Tirei as minhas sandálias, coloquei os meus pés na areia e senti o mar acariciando os meus pés. Não pude deixar de sorrir. Naquele momento, olhando para a lua cheia no céu, ouvindo uma música antiga tocada no violão e segurando a mão de Gustavo.
— Quer sentar um pouco? Algo me diz que aqueles adolescentes ali estão só começando. As músicas boas só começam quando o álcool faz efeito. Certeza que vão tocar umas boas músicas românticas ainda. — Gustavo sugeriu tirando o casaco que usava e colocando na areia antes de sentar, sem esperar a minha resposta.
Gargalhei com a ideia, mas concordei. Quem iria dizer não para algo assim? Meu dia tinha sido tão r**m, cansativo e exaustivo. Não pude nem acreditar como me sentia leve tão rápido.
Conversa vai, conversa vem com muita água de coco, as horas logo se passaram. Quando demos conta, os primeiros raios de sol já surgiam. Os adolescentes continuavam cantando animados ainda. Assim como eu e Gustavo, eles não tinham visto o tempo passar.
Entretanto, a minha barriga notou a ausência de comida, rompendo o clima com um som desesperador, me deixando morta de vergonha. Mas Gustavo gargalhou, enquanto levantava e me estendia a mão.
— Tem um McDonald's aqui perto. Vamos comer? — Gustavo não soltou a minha mão. Acenou para os adolescentes cantores e voltamos para o carro.
O caminho já não era tão mágico como antes. A paisagem noturna tinha o seu charme. Paramos em um lugar que nunca tinha visto. Gustavo falou com uma caixa de som, e um pouco depois conseguimos a nossa comida. Fingi costume, mas não fazia ideia do que estava acontecendo.
Comemos os lanches ainda no carro, assistindo o sol nascer enquanto ouvimos uma estação de rádio tocando músicas antigas. Entre uma mordida e outra do lanche, falávamos um pouco de nós. Tinha a sensação de que poderia falar sobre tudo com Gustavo sem problema.
Infelizmente, a hora de voltar chegou. Não queria ter que lidar com Tâmara ou com toda a problemática que era minha vida naquele momento, mas uma noite de folga era o suficiente para arejar minha mente.
— Chegamos. — Gustavo disse, estacionando na frente da casa de Joana, um pouco antes de descer do carro e apressando o passo para alcançar a porta antes que eu descesse.
— Não precisa disso, eu posso descer sozinha. Eu estou bem. E depois da noite que tivemos, me sinto completamente recarregada. — disse, completamente sem jeito.
Ignorando o braço de Gustavo que estava estendido para mim, tentei descer do carro sozinha, mas meu pé escorregou, me fazendo desequilibrar. Por sorte, Gustavo estava perto o suficiente para conseguir me puxar para perto dele, impedindo que eu caísse.
— Você é pior que égua desobediente! — Gustavo brincou.
Ao ouvir aquilo, a resposta veio na ponta da língua, mas quando levantei a cabeça, nossos olhares se encontraram, sua boca estava tão próxima que podia esbarrar com o menor movimento. Eu podia sentir seu hálito de menta, seu perfume cítrico, ouvir sua respiração. Nossas bocas já estavam se aproximando sem nos darmos conta, quando fomos surpreendidos.
— O que está acontecendo aqui? — Tâmara gritou ao nos ver abraçados na entrada da casa.
— Vão ficar me olhando sem responder? Esta é minha casa. Acha mesmo que pode fazer o que quiser? — Tâmara gritou, aproximando-se de nós.
Não tinha parado para pensar, pois tudo aconteceu muito rápido, mas Tâmara deve ser a filha de Joana. Será melhor eu evitar uma confusão maior. Ela parece ser bem diferente da sua mãe.
— Você deveria baixar o seu tom de voz. Sabe que a verdadeira vítima da história é Eduarda. Ela poderia facilmente denunciar você por tentativa de homicídio. Em vez de fazer esse show ridículo, deveria estar pedindo desculpas por sua atitude infantil e criminosa. Amanhã nos falamos. Eu não consigo nem ver a sua cara agora. Estou muito decepcionado com você, Tamara. — Gustavo foi tão seco que, se jogasse um pouco de fogo, um incêndio começaria.
— Gustavo, você vai mesmo brigar comigo por causa dela? Nem ao menos a conhece. Não sabe quem ela é. Como pode defender alguém dessa forma? — Tâmara tinha um semblante repleto de ódio.
— Não é só sobre Eduarda, mas sobre a forma como você trata as pessoas, menosprezando-as e se sentindo superior. Isso me irrita. Quem você pensa que é para se achar melhor que os outros? O dinheiro? O seu casamento? O nome da sua família? Todo o patrimônio? Sua beleza? Deixa eu te contar que tudo isso pode acabar em questão de segundos. E se isso acontecer, não te sobrará nada, já que te falta caráter. Não me decepcione mais. Apenas entre. E eu não quero mais saber de você fazendo absolutamente nada contra Eduarda. Ela é minha protegida. — Gustavo me surpreendeu ao dizer tudo aquilo.
— Eduarda! Eduarda! Não aguento mais ouvir o nome dessa mulher. Não me importo. Não sabemos nada sobre ela e nem tenho interesse em saber. Por mim, ela deveria ir embora agora mesmo. Aqui é minha casa. Ela não deveria estar aqui. E você nem sequer deveria estar falando o nome dela. — Tâmara gritou, completamente indignada.
— Sei que essa mulher que você jogou pela escada por estar usando roupas que você pode comprar quando quiser, foi a pessoa que ontem à noite me salvou de ser afogado, que rasgou as suas próprias roupas para estancar o meu sangramento. A mulher que você atirou pela escada pelo motivo mais banal de todos, salvou a minha vida. E eu irei passar a vida retribuindo. Se ela for expulsa daqui, a levarei para minha casa. Se ainda tem algum respeito por mim, espero que peça desculpas e entenda o seu erro. Ou eu mesmo irei insistir para que ela faça uma denúncia. Se você não se comportar como gente, talvez seja melhor ser presa como um animal selvagem. — Gustavo disse antes de bater a porta do carro com muita força ao entrar.
Assim que notei a sua saída, entrei rapidamente na casa. Era óbvio que não deveria começar uma confusão com Tâmara. Se ela for realmente a filha de Joana, minha tia, eu preciso da sua ajuda. Não de problema.
Consegui evitar o nosso encontro, corri para meu quarto e tomei um bom banho. Quando saí, Penélope estava no quarto, trazendo alguns sanduíches para mim.
— A senhora Joana soube do acontecido, está agora conversando com a sua filha. Espero que entenda. Depois que Tâmara perdeu sua irmã, ela mudou muito, às vezes até parece que estamos vendo a senhorita Taise. As duas eram completamente diferentes, como água e óleo. Dona Tamara era sempre calmaria e também a única que conseguia parar Taise, que era a definição de caos. Tinha dias que ela quase colocava a casa abaixo. — Penélope comentou enquanto colocava a bandeja em cima da cama.
— E o que aconteceu? A mulher que me empurrou da escada com toda certeza não tinha nada de calmaria. Sequer me deixou falar antes de me empurrar. — Pode ter certeza que devo ter conhecido a pessoa errada.
— Sim, a senhora Tamara está estranha. Na verdade, depois do acidente, todos mudaram um pouco. O senhor Fernando está de cadeira de rodas e se recusa a sair do quarto. O pequeno Edgar não pronunciou nenhuma palavra desde o velório. E senhora Tamara talvez esteja tentando manter sua irmã viva, agindo como ela. É o que desconfiamos, já que não é sempre que está agindo dessa forma. Joana tenta manter todos bem, mas ainda não conseguiu aceitar a morte de sua filha. Essa família está bastante ferida, mas são boas pessoas. Com o tempo, você vai conseguir entender a todos. — Penélope explicou toda a situação.
— Eu entendo. Também perdi a minha mãe. E sinto como se houvesse um pedaço faltando dentro de mim. Para piorar, não tinha mais casa para voltar e fui demitida. Por sorte, minha tia me aceitou aqui. — Concordei. Não era fácil pensar sobre isso, mas era necessário.
— Mesmo que ela não tivesse aceitado, tenho certeza de que o senhor Gustavo iria resolver tudo. Ele é uma pessoa maravilhosa. E é claro que está em dívida com você por tudo o que fez. Até mesmo poderia conseguir seu emprego de volta. Afinal, ele também é herdeiro da fazenda Ouro Rubro, onde você trabalhou. Ele é irmão de Heitor. Tenho certeza que, se conversar e tiver interesse de voltar para a fazenda, vai conseguir. — Penélope contou completamente animada, como se estivesse me dando uma boa notícia.
— Como é? Gustavo, o mesmo que me levou ao hospital naquela hora, é neto do senhor Pedro? E herdeiro da fazenda Ouro Rubro? — Aquilo me pegou completamente desprevenida. Ele não parecia em nada com Heitor, nem fisicamente e muito menos em sua personalidade. Espera. Pior. Eu seria capaz de seguir o plano? Quando minha irmã falou sobre ele, pensei que seria alguém repulsivo como seu irmão. E agora?
— Com licença, podemos conversar? — Tamara surgiu batendo na porta do quarto, com um sorriso amarelo no rosto e segurando algumas roupas no braço. — Penélope, pode nos deixar a sós?