A intensa admiração que sinto pelas linhas em relevo que enfeitam sua pele beira a hipnose. Fico alguns segundos percorrendo cada uma das cicatrizes expostas com o olhar até perceber que devo estar passando uma péssima primeira impressão, então volto a baixar a cabeça, mais vermelha ainda.
Meu coração está tão acelerado pelo esforço de fugir do conflito com Rita que tenho quase certeza de que meus batimentos são audíveis mesmo para o homem parado à minha frente que, por alguma razão, ainda está me observando intensamente.
Volto a olhar para ele ao perceber o motivo dele me encarar: as minhas próprias cicatrizes. Seu olhar passeia pelo meu e******o sorriso antes dele abrir a boca para comentar:
— Se me permite dizer, nunca vi uma garota tão encantadora quanto você.
Mordo o lábio e viro o rosto, sentindo a vermelhidão se espalhar pelas minhas bochechas. Ele está flertando comigo?
Rio sem graça.
— E se me permite responder, nunca vi um homem como você, apesar de parecer levemente familiar…
Arrasto os pés na calçada com impaciência, olhando ao redor para ver se Rita continua em meu encalço. Não posso deixar que minha raiva esfrie a determinação que finalmente consegui criar para colocar um ponto final nessa história de gravidez.
— Julgo que sou familiar para você pelo mesmo motivo que você é para mim. — Ele sorri, o dedo indicador passeando por uma sutura em seu pescoço que parece recente. — Por Deus, onde estão os meus modos? Me chamo Liu.
Encaro sua mão — que também ostenta pontos e cicatrizes — por um segundo antes de apertá-la. O toque é surpreendente gentil, quase como se ele soubesse que minha mão está ferida.
— Esther. Muito prazer. — Ele sorri novamente, mas uma sombra estranha passa por seus olhos durante um segundo, quase como se eles tivessem ficado mais escuros. — Mais uma vez, me perdoe pelo esbarrão, mas agora eu preciso mesmo ir. Estou atrasada.
— Atrasada por quê? Aonde uma garota como você vai?
Sua voz soa mais grave, rouca. Instintivamente, dou um passo para trás.
— Acho que não devo falar com estranhos mesmo que eu não seja mais uma criança.
Liu balança a cabeça rapidamente, os olhos fechados como se estivesse subitamente com dor. Quando os abre de novo, sua expressão é mais gentil.
— Desculpe, eu não quis soar intrometido. Fiquei apenas... curioso.
Ele ergue um dos cantos da boca em um sorrisinho, puxando os fios pretos presentes ali também. Devo admitir, se namoro não estivesse em último lugar da minha lista de prioridades, seu flerte teria me deixado sem ar.
Porém, outro homem teve a intenção de me deixar realmente sem fôlego algumas semanas atrás e eu ainda não consegui tirar seu toque infernal da cabeça, então o apelo atrativo de Liu não me atinge.
Quando abro a boca para me despedir novamente, ouço Rita me chamando. Olho para trás e, mesmo que não consiga vê-la ainda, sei que está perigosamente perto de onde estou, o que me faz soltar um palavrão em voz alta.
Liu ergue uma sobrancelha e ofereço um pequeno sorriso como desculpas.
— Problemas com a mãe? — Ele coloca as mãos nos bolsos da calça jeans preta que está usando.
— Longe disso. — Sussurro. — Preciso correr. Até mais!
— Eu posso te dar uma carona. — Seu passo acompanha facilmente o meu quando recomeço minha corrida descoordenada. — Meu carro não está longe daqui.
Balanço a cabeça em negação.
— Não me leve a m*l, você parece um cara sincero, mas eu não vou entrar no carro de uma pessoa que conheci há cinco minutos!
Ele ri baixo.
— É uma atitude sensata. E o que preciso fazer para ganhar sua confiança?
Minha boca se abre e minhas sobrancelhas se unem em indignação pelo esforço dele em continuar a interagir comigo. O que um rapaz totalmente desconhecido iria querer com uma garota como eu, afinal?
Sem aviso, sinto suas mãos me agarrando de novo. Isso faz com que dezenas de imagens de violência e dor — minhas fiéis visitantes em pesadelos — invadam minha cabeça, me fazendo gritar e espernear feito louca. Porém, sem dificuldade, ele cobre minha boca com uma das mãos e me ergue pela cintura passando seu braço ao meu redor, deixando minhas pernas suspensas balançando no ar como as de uma criança.
Para um cara magro como ele, é bem mais forte do que parece.
Em menos de um segundo, estou sendo carregada para um beco escuro em meio a armazéns vazios. Suas janelas cobertas com tábuas e o lixo que cobre metade da calçada só deixam a paisagem mais desoladora, enchendo meus olhos de lágrimas quando a certeza do que vai acontecer a seguir me preenche, me jogando dentro de um torpor de dor e autopiedade.
De novo não.
Entro em pânico de vez ao ser colocada contra a parede. Ele usa o peso do corpo para me prender ali enquanto uma de suas mãos segura meus pulsos — ainda com aquela estranha delicadeza — enquanto a outra segura minha boca para evitar que eu volte a gritar. Respiro de maneira ofegante e fecho os olhos, tremendo tanto que quase desabo sob o peso do meu próprio corpo. Vai acontecer aquilo mais uma vez e, novamente, estou tão assustada que não consigo reagir.
Sinto-me tão inútil que dói.
De repente, Liu fica estático. Abro meu olho funcional bem devagar, curiosa — e amedrontada — sobre o que pode ter causado isso, mas ele não está olhando para mim. Olha por sobre o próprio ombro, encarando a entrada do beco. Estamos atrás de uma imensa caçamba cheia de lixo, praticamente invisíveis para quem caminha fora da escuridão entre os dois armazéns, e começo a me perguntar o que esse estranho está tramando.
Só entendo o que ele queria quando Rita passa pelo beco, caminhando rápido enquanto ofega levemente. Sua expressão é uma mistura de raiva e tristeza e, instantaneamente, me encolho ao lembrar da ardência do tapa que levei; a primeira vez em que ela me agrediu.
Quando ela sai de nosso campo de visão e seus passos não são mais audíveis, Liu respira fundo e volta a me encarar, tirando suas mãos de mim e apoiando uma delas na parede bem ao lado da minha cabeça.
— Sinto muito pelo susto, mas você não me deu opção. — Seus olhos verdes parecem brilhar de boas intenções, o que me causa desconfiança.
— Você poderia ter me avisado! — Minha voz treme e noto que ainda estou chorando de medo. Envergonhada, uso as mangas do moletom para enxugar as lágrimas. — Que droga, eu pensei que você fosse me…
Respiro fundo, a garganta apertando quando não consigo dizer em voz alta o que acreditei que fosse acontecer. Escondo minha face com as mãos, tentando controlar o choro alto que já está começando a se insinuar.
— Me perdoe. De verdade, eu não queria te deixar assim. — Seus dedos puxam levemente meu dedo mínimo, afastando minha mão direita do rosto para me encarar. — Eu devo estar passando uma péssima impressão, me desculpe. Juro que não costumo agir feito um maluco no dia a dia.
— É difícil acreditar nisso. — Murmuro, colocando as mãos em seu peito e o empurrando levemente. Não encontro resistência ao meu pedido por espaço. — Você sempre carrega mulheres que acabou de conhecer para becos escuros e as impede de gritar?
— Na verdade, essa é a primeira vez. — Ele sorri levemente. — E a última, juro.
Cruzo os braços e viro o rosto, ainda desconfortável com sua proximidade. Essa situação assustadora e bizarra até me fez esquecer por um minuto o motivo de eu estar fugindo de Rita e minha garganta volta a apertar de medo.
Ela está certa. Eu não quero fazer isso, mas é a única alternativa viável. Mesmo que ela assuma as responsabilidades financeiras do processo de gestação e, depois disso, fique de vez com a tutela da criança, nenhuma dessas coisas ampara o mais suscetível a dar errado: a instabilidade da minha saúde mental durante esse período. Como Rita pode ter certeza que vou aguentar passar por uma gravidez se o menor dos males consegue me afetar tão profundamente a ponto de eu ser um perigo para mim mesma?
Devo ter ficado vários segundos pensando a respeito disso, pois Liu estala os dedos na frente do meu rosto para me arrancar da minha espiral de melancolia.
— Você está bem, Esther? Quer sentar? Parece pálida.
— Pálida é meu estado natural. — Murmuro, mas realmente me sinto m*l.
— Meu Deus! Eu sinto muitíssimo por te causar isso. — Sua voz denota um assombro que me pega de surpresa. Ele parece preocupado. — Vamos, eu te pago um lanche. Precisa colocar algum açúcar para dentro.
Liu me oferece o braço, mas n**o com a cabeça e me apoio na parede.
— Já disse que não vou entrar no carro de um estranho. — Ele balança a cabeça em negação, rindo baixo.
— A pé, então. Tem uma cafeteria aqui perto. — Ele pega minha mão. — Vamos, me deixe te compensar pela minha estupidez. Eu não achei que você fosse ficar tão m*l.
Abro a boca para retrucar, mas a candura em suas feições me desarma. Nunca uma pessoa insistiu tanto em fazer algo legal para mim, e mesmo que eu ainda esteja noventa e cinco por cento desconfiada de suas intenções, não deixo de ficar um pouco emocionada com seu estranho esforço.
— Vamos pelo caminho com o maior fluxo de pessoas. Não quero ficar sozinha com você nem mais um minuto, ok?
— c***l, Esther. — Seu riso é doce quando ele oferece o braço novamente. — Porém justo. Sou um e******o, mesmo.
— Com certeza. — Relutante, engancho meu braço ao dele e o deixo me ajudar a permanecer em pé.
Não faço ideia se foi o susto ou meu estado de saúde atual que faz com que eu me sinta tão fraca, porém admito que o apoio de Liu é de grande ajuda. Algumas pessoas nos observam com curiosidade quando adentramos a parte mais movimentada da avenida, provavelmente curiosas a respeito da estranha dupla repleta de cicatrizes que passeia por ali. Minhas pernas m*l sustentam meu peso e respirar é uma tarefa árdua quando o enjoo aparece de mansinho, revirando meu estômago.
— Por Deus, Esther, você está ficando verde! Tem certeza de que está tudo bem?
— Só preciso me sentar um pouco. — Sussurro, avistando a fachada decadente da cafeteria que eu visitava quando era mais nova. — Já estamos chegando mesmo.
Meio a contragosto, ele segue caminho, colocando meu braço ao redor de seu pescoço e sustentando boa parte do meu peso por mim. Ao chegarmos no pequeno estabelecimento, ele me senta na cadeira com cuidado e toma o assento à minha frente.
Esboço um sorrisinho de agradecimento e apoio o rosto na superfície gelada da mesa, fechando os olhos e respirando fundo. Não quero vomitar na frente dele, mesmo que ele mereça uma mancha na bela camisa verde depois de tudo o que me fez passar.
Quando a atendente chega para perguntar o que desejamos, nem sequer ergo a cabeça para olhá-la. Liu faz o pedido para ambos e, quando a moça se afasta, sei que sua atenção está toda focada em mim novamente.
— Acha que consegue erguer o rosto agora? — Encolho os ombros e respiro fundo, fazendo o que ele diz.
— Acho que está tudo bem. — Olho ao redor, deixando o cabelo cair no rosto quando percebo mais alguns olhares chocados com minhas marcas.
— Você é incrivelmente sensível. — Ele dá um meio sorriso, entrelaçando os dedos das mãos em cima da mesa. Quando percebe que estou desconfortável, seu olhar segue pelo lugar até encontrar as pessoas que estão nos encarando. — Não deveria ligar para esse tipo de gente, sabia?
— É fácil falar. — Murmuro, mas mordo a língua logo depois ao lembrar que ele tem propriedade para falar desse assunto. — Não tenho a força que você tem para deixar isso — aponto para meu rosto — totalmente exposto.
— Acho que você é mais forte do que pensa, Esther. — Seus olhos escurecem de novo, e dessa vez, não parece que estou vendo coisas. — Deveria mandar cada um desses imbecis para o inferno e assumir a mulher que é de verdade.
— Acho que a mulher que eu sou não é do tipo que manda os outros para o inferno. — Continuo encarando seus olhos, que seguem em um tom de verde bem mais escuro do que o anterior.
— Ela só não percebeu quem é de verdade ainda. É incrivelmente gratificante quando você não age do jeito que todos esses merdas esperam que você aja. — Ele range os dentes, parecendo furioso. — É delicioso desafiar qualquer um desses babacas a comentar algo sobre sua aparência expondo ela o máximo possível.
— Creio que você age realmente feito um maluco no dia a dia, Liu. — Dou um sorriso contido para deixar claro que estou brincando, mas sua fisionomia parece ficar mais irritada ainda. — Desculpe, não quis ofender.
— Não é isso. — Ele grunhe. — É só que eu detesto quando me chamam assim.
— Assim como? Liu? — Fico confusa. — Mas esse é o seu nome, não é?
— É mais complexo que isso, gatinha. — Seu sorriso ganha um quê de malícia quando ele apoia o queixo em uma das mãos. — Porém, eu explico isso mais tarde. Você ainda parece prestes a morrer ou vomitar e eu sinceramente não quero ter que lidar com nenhuma das situações. O que te deixou assim, afinal? O susto nem foi tão grande assim.
Fecho a cara diante de seu comentário grosseiro e sento ereta na cadeira, cruzando os braços.
— Não te devo satisfações de nada.
— Eu te ofendi, princesa? — Ele ergue uma sobrancelha, mas quando ameaço me levantar e ir embora, Liu — ou seja lá qual for o nome dele — ergue as mãos como se estivesse se rendendo. — Tudo bem, sinto muito. Não vá embora, por favor.
A contragosto, volto a me endireitar na cadeira. A garçonete volta com o pedido — dois cafés com leite e dois croissants — e sai de perto tão rápido quanto veio. Encaro a comida com desânimo, sentindo meu estômago revirar.
No fundo, não paro de pensar no que vou fazer sobre a gravidez.
Minha estranha companhia percebe minha súbita mudança de humor e cerra os olhos, me encarando com intensidade. Parece ler cada expressão minha.
— Não gosta? — Ele se refere a comida e balanço a cabeça.
— Não, eu gosto sim. É outra coisa que está me incomodando. — Sussurro a última frase, incapaz de comentar sobre isso em voz alta.
É realmente perturbador não ter um único amigo ou amiga para conversar nesse momento. Uma pessoa que me enxergue não como uma sobrinha-incômodo, uma prima qualquer ou um monstro prestes a tirar a vida de um indefeso bebê, mas sim alguém que me note como aquilo que eu sou: um ser humano com medo de tomar a decisão errada.
Passo os braços ao redor da barriga, incapaz de formular uma palavra. Baixo a cabeça quando sinto, mais uma vez, as lágrimas descendo suavemente pelo meu rosto “sorridente”. Soluço baixinho, me apertando enquanto as gotas salgadas caem sobre o tampo de madeira da mesa.
Liu estende a mão e segura um cacho do meu cabelo, tirando-o do meu rosto só o suficiente para expor minha feição chorosa. Seu olhar me queima com uma preocupação que nunca havia sido dirigida a mim.
É tão estranho que, enquanto uma pessoa desconhecida tenha gratuitamente me machucado tanto, outra se preocupe comigo como se fôssemos velhos amigos.
— Sei que você provavelmente não gosta muito de mim pelo que eu fiz, mas, se quiser conversar sobre o que está chateando você... — Ele dá de ombros, os olhos mais claros novamente. — Sou um bom ouvinte.
Abro a boca algumas vezes, decidindo se devo despejar toda a minha dor nesse rapaz estranhamente gentil que conheci há menos de uma hora. Ele não parece o tipo de pessoa que me julgaria por qualquer coisa, mas aprendi desde cedo a desconfiar do comportamento daqueles que se aproximam de mim. Balanço a cabeça negativamente.
— Está tudo bem. — Ele sorri. — Juro por Deus que não vou ser indelicado como antes.
— Você fala tanto em Deus. Qual é sua opinião sobre alguém que... — Mordo o lábio — interrompe uma gravidez?
— Acho que cada um sabe o que faz com a própria vida. — Liu diz, sem rodeios. Ergo o olhar. — Ninguém deveria obrigar alguém a ter um filho que não quer, do mesmo jeito que ninguém deveria obrigar alguém a abrir mão do filho que quer.
Fico em silêncio, digerindo suas palavras.
— Você acredita que alguém é capaz de amar o fruto de uma violência imensa? — Minha voz sai tão baixa que me pergunto se ele entendeu o que eu disse.
— Imagino que a própria pessoa deve olhar para dentro de si e se perguntar isso. — Ele olha pela janela, pensativo. — Passei meses me perguntando se seria capaz de perdoar alguém que só me machucou e cheguei à conclusão de que, se essa pessoa me pedisse desculpas, eu a perdoaria em um piscar de olhos. Mas isso é algo que se aplica a mim.
— Acredita naquele papo de instinto maternal e que amor de mãe supera qualquer coisa?
— Acredito que isso depende da pessoa e romantizar algo que não se aplica a todos é meio ingênuo. Passei meses num hospital, vendo mulheres vivendo a felicidade depois de um parto e mulheres que apenas encararam os filhos e pediram que alguém os fizesse parar de chorar. É delicado demais falar sobre isso com uma visão ampla porque é algo extremamente pessoal.
As palavras de Liu ressoam em mim, me deixando mais pensativa e menos desesperada. Eu me encaixaria em qual grupo de mulheres depois de um parto: as que choram de emoção ou as que não sentem nada pelo bebê?
— Se me permite um comentário provavelmente íntimo demais para alguém que acabou de te conhecer — Ele coloca um pouco de açúcar no café. — Acredito que você se arrependeria da decisão.
— Como é? — Arregalo os olhos, começando a ficar indignada.
— Eu vi o aspecto de várias das mulheres que entraram e saíram da sala de cirurgia, fosse depois de um parto ou depois de um aborto. — Seu tom fica mais suave, indicando que não está me julgando. — Você parece o tipo de pessoa que se culpa demais, Esther. Conseguiria lidar com o baque psicológico de uma decisão que envolve você e somente você, onde a culpa realmente recairia sobre seus ombros e não teria o alento de poder pensar que, ao menos, ninguém ficou magoado com a sua escolha?
Minha boca se fecha com um estalo quando ele diz isso. O choque pelo seu ponto de vista de toda essa situação me deixa completamente paralisada, pensando em como ele está certo. Mesmo que eu realize o aborto, a dor e a culpa vão permanecer e, somado a isso, ainda terei o peso de ter que lidar com tudo ainda mais sozinha do que já estou.
Em suma, tenho três opções:
Abortar e passar o resto da vida me perguntando como teria sido se eu não tivesse feito isso porque, convenhamos, Liu está certo quando diz que eu me culpo o tempo todo;
Levar a gravidez adiante e, depois do parto, deixar que Rita fique com a criança e viver minha vida completamente separada dela;
Levar a gravidez adiante e criar o bebê como o que ele, de fato, vai ser: meu filho.
Há tantas variáveis possíveis dentro dessas meras três opções que minha mente parece prestes a dar um nó. A ansiedade me trava quando penso que logo o feto em meu ventre vai deixar de ser apenas um punhado de células se multiplicando e vai se tornar algo vivo que sente dor, o que anula completamente a possibilidade de um aborto, e isso é meu maior motivador para decidir o mais rápido possível.
Liu dá um gole em seu café e me incentiva a fazer o mesmo. Quando começamos a comer, o embrulho em meu estômago parece diminuir um pouco.
Porém, minha cabeça ainda gira diante disso tudo. Uma decisão dessas é algo pessoal demais para a opinião de um desconhecido ser considerada tão rápido, mas a fala de Liu realmente ecoa pelo meu ser. Imagino uma realidade onde eu realmente leve essa ideia adiante e me sinto um pouquinho menos desconfortável do que fico quando penso em encarar todo mundo depois de um aborto.
Assim que termina seu croissant, a escuridão toma os olhos de Liu novamente. Não faço ideia se é conforme a luz atinge seu rosto quando ele muda a posição da cabeça, mas sei que não estou louca.
— Espero que esteja melhor.
— Estou sim, obrigada. — Ofereço um sorriso tímido e em resposta, ele ergue o canto da boca de um jeito malicioso.
— A gente pode se ver de novo ou ainda está assustada com a minha intensidade?
A forma brincalhona com que diz isso não diminui minha incredulidade com o duplo sentido ali. É impressionante como ele muda totalmente o próprio jeito de agir em segundos, quase como se virasse outra pessoa.
— Eu não sei. Não sei bem como funciona isso de sair com outras pessoas. — Dou de ombros, admitindo de forma sutil que sou uma fracassada sem amigos.
— Então, eu te ensino tudo o que precisa saber sobre socializar. — Ele se levanta, jogando uma nota de vinte em cima da mesa. — Preciso ir. Até a próxima, Esther.
— Espere, como vou encontrar você? Não sei seu endereço ou celular.
— Eu mesmo te encontro, não se preocupe com isso. — Mais um sorrisinho suspeitosamente malicioso. — Até mais.
— Até mais, Liu. — Murmuro quando ele começa a se afastar.
— Ah, mais uma coisa. — Ele se vira para mim novamente.
— O que foi?
— Me chame de Sully.
Com esse pedido estranho, meu mais novo — e único — amigo sai da cafeteria, me deixando sentada sozinha com meus pensamentos inquietos.