Moralidade duvidosa.

1693 Words
Estanco na porta, apertando meu celular com força entre os dedos em processo de cicatrização. A postura defensiva de Rita faz com que eu a imite, já imaginando a discussão que está por vir. — Não acredito que você vai fazer isso. — Ela começa sem sequer me cumprimentar e posso ver as lágrimas se acumulando nos cantos de seus olhos. — É uma vida que está dentro de você, não é algo descartável. Rio de forma sarcástica. É irônico que, para Jeff, toda e qualquer vida seja descartável enquanto eu estou presa nessa encruzilhada moral. — Eu tenho o direito de fazer isso. Eu não pedi para engravidar. — Aumento o tom de minha voz diante da indignação de Rita. — Eu não quero e não posso ser a mãe do filho dele. — Não é o filho dele. — Sua voz agora é fria e cortante como gelo. — É o seu filho. Essa criança não tem culpa de como foi parar dentro de você, não seja um monstro como o pai dela. Sua sentença termina em um tom que demonstra uma pontada de tristeza e entendo isso. Ela — além de extremamente religiosa — teve dificuldades para engravidar e acabou tendo vários abortos espontâneos ao longo da vida. Sei que, por sua própria experiência traumática, Rita não aguenta saber que existem mulheres que “jogam seus filhos fora” por um motivo qualquer, sendo fervorosamente contra o aborto. Mas meu motivo não é banal e ela sabe disso. — Você fala tanto que essa vida não é descartável, mas e a minha vida? Ela não importa? Percebo que sua convicção é abalada por um milésimo de segundo, porém ela não arreda pé. Erguendo uma sobrancelha e me olhando de cima a baixo, ela me rebate como se estivesse brigando com uma criança levada. — No final, até mesmo aquele assassino poupou a sua vida. Você recebeu a sua segunda chance, mas e esse bebê que não recebeu sequer a primeira? Respiro fundo para me acalmar. Não consigo crer em como ela banaliza todo o inferno que passei nas mãos de Jeff e compara um procedimento seguro e legalizado com estupro e assassinato. — Acredita mesmo que essa criança merece vir ao mundo para ser olhada com ódio pela própria mãe? Como vou poder olhar para o rosto dela sem lembrar do pai e de tudo o que ele me fez? E ainda, como ela vai se sentir por não o conhecer e não receber o meu amor, hein? Você já parou para pensar nessas coisas ou só nascer já é suficiente e não precisa ter qualidade de vida nenhuma depois? Nunca na minha vida eu falei assim com outra pessoa e ver meu reflexo furioso nos olhos magoados de Rita me faz vacilar, assustada com meu próprio comportamento agressivo. Dou um passo para trás. Seu lábio inferior começa a tremer quando as lágrimas finalmente escorrem por seu rosto e me sinto um lixo por fazer uma mulher tão doce como ela chorar, porém, cerro os dentes para me impedir de pedir desculpas. Sei que quem está na razão aqui sou eu. — Por favor, Esther. — Rita sussurra, fechando os olhos e virando o rosto. — Você pode colocar o bebê para adoção e deixar um casal muito feliz com a chegada de um anjinho como ele. Eu entendo que você está nervosa e está apavorada, mas dê a essa criança uma chance de viver! Ela não tem culpa de nada do que aconteceu. — Você age como se um parto fosse a coisa mais fácil do mundo, como se gerar uma vida e carregá-la para cima e para baixo dentro de você não fosse um dos processos mais difíceis e cansativos da humanidade. — Pode ser uma situação difícil, mas é a melhor coisa que acontece na vida de uma mulher, Esther. Tudo vale a pena depois que você ouve aquele choro e suspira de alívio quando a dor acaba. — A última vez que suspirei de alívio supondo que a dor tinha acabado, me enganei totalmente. Ainda sangro por dentro todo dia e desejo que tudo isso acabe logo. — Mas você sabe que tirando a vida dessa criança, a sua dor não vai passar, não é? Está apenas se enganando de novo se pensa que isso vai te livrar de algo. Soluço quando meu choro começa, surpresa por conseguir segurar até agora. Limpo as lágrimas que teimam em escorrer com as costas da mão direita e sinto os pontos escondidos pela manga da blusa puxarem minha pele sensível, mas ignoro. Desde aquela noite, eu sou bem resistente à dor. — Acha que eu quero fazer isso? Que quero impedir meu próprio filho de nascer ou que eu não sei o que um aborto faz, tanto no físico quanto no psicológico de alguém? Que escolha tenho eu, Rita? É a minha vida ou a vida dele! — Se você deixar esse bebê vir ao mundo, ele te matará? — Sua voz adquire um tom mais suave, porém isso não abranda o turbilhão de sentimentos que está me engolindo. — A coisa é mais complexa do que isso. — Murmuro, escondendo o rosto com as mãos e respirando fundo mais uma vez. — Mesmo que eu não interrompa a gravidez, não tenho sequer estrutura financeira para isso. É muito dinheiro envolvido em qualquer exame pré-natal e com certeza meu tio não vai arcar com isso. — Eu arco com todas as despesas, desde os exames até as roupinhas. A encaro, perplexa com a seriedade em sua voz. Seu olhar é tão decidido e desafiador que imagino que quem está ficando louca é ela. — Você só pode estar brincando. — Balanço a cabeça em negação. — E, se você deixar que essa criança venha ao mundo e não a amar no primeiro momento em que a vir, eu a adoto. — O quê?! — Digo, totalmente incrédula. — Isso mesmo. — Rita se aproxima, me segurando pelos ombros. — Se você não sentir por ela o que uma mãe sente por um filho assim que colocar os olhos nessa criança, deixe-a comigo, entendeu? Se não quiser conviver com ela, eu sumo da sua vida, mas dê-lhe uma chance. Não quero que você seja responsável por nenhuma morte, Esther. E sei que, no fundo, você sabe que não quer cometer um aborto. Desvencilho-me de seu toque com rispidez, já chorando alto em um misto de indignação e confusão. Minha respiração está ofegante a ponto de me deixar tonta, mas não me deixo recuar por isso tamanha é a raiva que cresce em meu peito diante dessa proposta. — Todo esse trabalho por uma coisa que ainda não é nem um bebê de verdade! — Grito, furiosa com sua incapacidade de compreender meu lado da história. — Você prefere sumir da minha vida com o filho de um assassino do que me apoiar num dos piores momentos da minha vida. O que eu sou para você, Rita? Uma incubadora? — Menina, sabe que não é assim que as coisas funcionam. — Sua feição volta a ficar irritada. — Sua mãe sabia de todas as consequências da gestação do seu irmão e mesmo assim seguiu. Agora, a filha dela não é capaz de abdicar do próprio egoísmo por nove meses até poder colocar a criança sob tutela de outra pessoa. — Fala da minha família, mas olha como eles terminaram bem: ela morreu sangrando feito um porco no abate e ele morreu sufocado dentro dela. Sinto a acidez de minhas palavras corroendo minha língua, mas não tenho tempo para digerir minhas ações porque Rita me acerta um tapa no rosto com força. Devagar, levo a mão ao local atingido enquanto a encaro chocada apenas por um segundo até sentir a frieza me cobrir como um véu. Ela ainda está com a mão levantada e os olhos arregalados de culpa pela agressão quando passo por sua figura estática, esbarrando meu ombro no dela com força de propósito. Ouço sua voz chamando meu nome, mas a ignoro e começo a caminhar rapidamente pela calçada em péssimo estado que delineia as ruas do meu bairro, determinada a me afastar dessa mulher o mais cedo possível. Cerro minhas mãos em punho no bolso do moletom, sentindo um formigamento estranho me percorrendo. Respiro devagar, tentando conter a tremedeira que já ameaça tomar minhas pernas quando percebo que ela pretende me seguir. Sem pensar duas vezes, começo a correr feito uma fugitiva, chegando ao ponto de atravessar alguns quintais para despistá-la antes que suas desculpas alcancem meus ouvidos. A raiva queima meu peito com o calor de um incêndio e minha cabeça está mais agitada que um mar em tempestade. As palavras acusadoras de Rita, o riso de escárnio de Jeff e minha própria explosão confundem meus pensamentos e as lágrimas embaçam a visão do meu único olho enquanto corro a esmo pelas ruas. Estou tão nervosa e desconcertada que, quando passo a manga do moletom para limpar o choro, acabo me chocando contra algo. O “algo” se transforma em “alguém”, pois a força da batida é tão grande que perco meu equilíbrio e caio para trás. Antes que eu acabe estirada no concreto, sinto duas mãos agarrando meus cotovelos e evitando que eu me esborrache no chão, ao mesmo passo em que meus dedos agarram o tecido de uma camisa. — Me desculpe, eu sinto muito mesmo. — Digo, baixando a cabeça e esperando o sermão que, estranhamente, não chega. — Está tudo bem, eu estava distraído também. A voz de timbre masculino é suave como veludo quando me responde e isso me admira. Com meus nervos tão à flor da pele, essa pequena gentileza me faz erguer o olhar para agradecer, mas acabo ainda mais espantada ao encontrar o par de olhos mais verdes que já vi na vida. Porém, não é isso que me faz entreabrir os lábios de surpresa ao avaliar a face desse estranho rapaz. São os pontos e cicatrizes dele, expostos em seu rosto e pescoço de uma forma que parece espelhar as minhas próprias marcas.
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