Respiro fundo, sentindo tudo e nada ao mesmo tempo. É como uma sonolência leve que amortece meu corpo até que o corte que vai desde a parte interna do pulso ao meio do antebraço pareça um beijo de mãe. Deslizo devagar para baixo quando meus joelhos começam a ceder, as costas coladas na parede até estar sentada no chão logo abaixo da janela no quarto banhado somente pela luz do banheiro. O caco de espelho escorrega de minha mão e tilinta quando atinge o piso, mas não faz mais diferença. Vou morrer como deveria ter sido desde o início: sangrando seminua em meu quarto.
A única coisa errada nessa cena é que Jeff não está aqui para assistir meu fim.
Pisco lentamente, sentindo uma estranha sensação de formigamento percorrer meu rosto. Começando a perder o raciocínio, meu queixo vai quase ao encontro do peito quando minha cabeça despenca para baixo, já ficando fora do meu controle o movimento de erguê-la novamente. Respirar está começando a ficar difícil, como se um bloco de cimento esmagasse meu peito e pressionasse meus pulmões a ponto de impedir sua expansão, fazendo a tontura iniciar seu processo de deixar tudo borrado e confuso.
O brilho da luz do banheiro refletida na pequena poça de sangue que começa a se formar ao redor da minha mão direita é a última coisa em que meu olhar se fixa antes da escuridão sufocar todos os outros sentidos.
...
Acordo com um tremor involuntário do corpo, completamente arrepiado de frio. Para minha completa confusão, estou deitada em posição fetal no chão com o rosto pressionado contra o piso frio e molhado. Minha boca está seca e minha cabeça explode de dor quando uma pequena tosse escapa de minha garganta, me fazendo fechar os olhos com força.
Quando os abro de novo, a intensidade da luz natural no quarto me faz presumir que acabou de amanhecer. Fico completamente perdida diante de como me encontro e, muito lentamente, jogo o peso do corpo para o lado até estar de barriga para baixo, apoiando as palmas das mãos no chão para me erguer. A toalha que me envolve se solta e cai em cima do sangue ainda úmido quando o choque da dor atravessa meu braço direito, me fazendo escorregar e bater com o queixo. Ao olhar para o local dolorido, minha boca se abre de surpresa.
Os fios negros atravessam a carne de maneira tão perfeita que fazem minha pele parecer um tecido qualquer, com nós tão minúsculos atando as pontas da sutura que não consigo ter outra reação além de arregalar os olhos quando vejo fechado o corte que fiz algumas horas mais cedo. Trêmula, me sento com dificuldade e sem tirar o olhar dessa costura tão minimamente feita em meu antebraço, sem conseguir acreditar no que está diante de mim. Até mesmo os ferimentos na outra mão, ocasionados pelo soco no espelho, estão devidamente pontuados pela linha preta.
Não consigo encontrar uma explicação para isso que não me faça ter um ataque de pânico, então apenas rastejo até meu banheiro, ignorando a trilha que deixo para trás ao me arrastar sobre o sangue já frio.
...
Deixo a água quente lavar o líquido rubro que me suja quase por inteira, desejando que, de alguma forma, ela faça minha dor escorrer pelo ralo também. Solto um riso sem humor ao notar que as semanas que passei no hospital me fazem evitar molhar os pontos quando mantenho automaticamente meu braço longe da água sem sequer pensar nessa ação.
Durante o banho, acabo tendo que deixar o calor do chuveiro para vomitar, como se a criaturinha que cresce em mim não quisesse que eu esqueça de sua existência apenas porque meu pulso foi magicamente suturado por sabe-se-lá-quem.
Ao sair do banheiro, levo um susto ao ver as manchas rubras em meu piso; nada comparado ao estado em que ficou depois da visita de Jeff, mas ainda uma cena chocante de se ver. O relógio digital em minha mesa de cabeceira marca seis e trinta e oito da manhã e respiro aliviada ao constatar que tenho tempo de ajeitar essa bagunça sanguinolenta antes que seja obrigada a arranjar uma desculpa para ela.
Os minutos passam rápido enquanto dou um jeito de limpar tudo com lençóis velhos e água do chuveiro, agradecendo por ao menos não ter ficado nenhuma mancha muito notável no piso novo. Quando acabo de esconder as provas da minha pequena transgressão moral, ouço a voz de meu tio no corredor perguntando se é necessário comprar algo para eu fazer o café da manhã, então apenas respondo que não e suspiro, pronta para iniciar mais um dia exaustivo.
Somente perto da hora do almoço que volto a pensar no pivô de toda a situação de ontem à noite. Estou cortando tiras de frango para empanar quando acabo fazendo um pequeno corte no dedo e, quando o coloco na boca para conter o sangramento, percebo que o estresse e a ocupação de esconder minha mais nova tentativa de suicídio distraíram minha cabeça da outra situação apavorante: a gravidez.
Apoio-me na pia por um momento, sentindo minha força se esvair de mim. Apenas por um segundo, lembro de como eu sonhava em ter a família perfeita que não tive, encontrar um cara legal que gostasse de mim e suprir a necessidade de poder dar uma infância de verdade para meus filhos e assim, mostrar para mim mesma que não sou um desastre egoísta como meu pai. Balanço a cabeça em negação ao pensar que até mesmo esse sonho bobo e romântico foi jogado no lixo assim que meu olhar encontrou o de Jeff.
A imagem doce de uma versão minha mais velha, sorridente ao lado do amor da minha vida enquanto seguro nosso primeiro filho é trocada por uma onde estou sentada sozinha na pequena cozinha de casa, meu olhar vazio encarando o nada com um banho de sangue entre minhas pernas.
Derrubo a faca no chão, aterrorizada com esse futuro.
...
Faz alguns dias desde que recebi a assombrosa notícia de que estou grávida e os enjoos aparecem toda manhã para me lembrar do pequeno Jeff que cresce em meu ventre, me sugando e se alimentando de mim como o pequeno parasita que é.
E preciso remover logo, antes que os hormônios comecem a fazer sua mágica.
Fico de lado para o espelho do quarto — já que o do banheiro não existe mais — e observo minha barriga. Ainda não consigo notar nada, nem mesmo um caroço, mas mesmo assim estremeço de medo diante do que pretendo fazer hoje.
Eu fui empurrada de todas as maneiras para essa decisão assim que descobri a gravidez, mas não consigo falar em voz alta que irei fazer um aborto. Por algum motivo, a ideia de passar por essa situação parece mais assustadora do que um parto em si.
Sei que fui vítima de um estupro, tenho esse direito e vou abortar. Sou uma garota de apenas dezoito anos que não tem estrutura nenhuma para cuidar de uma criança, tanto financeira quanto psicologicamente.
Repito esse mantra toda hora, como se tentasse convencer a mim mesma disso, mas ainda me sinto indecisa. Pesquisei sobre o procedimento — invasivo, porém seguro — que farei, mas algo me impede de me jogar de cabeça nessa decisão. Sempre que olho para baixo e penso que ali tem uma vida se formando, sinto um misto de sentimentos tão grande que se torna impossível nomear qualquer um deles.
Tenho certeza de que não sinto ódio por essa criança, diferente do que minha completa rejeição por ela diz. Sinto desprezo pelo pai dela e a maneira como ela foi concebida, só isso. E sei que se as coisas fossem diferentes, eu não iria optar por um aborto mesmo que o nascimento de um filho fosse desestabilizar completamente a minha vida.
Se fosse apenas uma gravidez acidental, ao menos o bebê teria meu amor mesmo que o pai não o quisesse por perto.
Mas, que direito eu tenho de colocar uma pessoa no mundo para ser tratada com frieza pela própria mãe e crescer sem saber como é ter uma figura paterna de verdade? Foi quase exatamente isso que eu vivi por toda a minha vida e a última coisa que eu faria é condenar uma criança inocente a essa realidade.
Suspiro e baixo a barra da blusa que estou usando, arrumando o capuz sobre a cabeça enquanto desço as escadas. Antes de sair de casa, faço um rápido mapa mental de como chegar até a clínica e o fixo em meus pensamentos. Carrego no bolso a autorização que meu tio assinou como meu responsável legal para eu realizar o procedimento, já que tecnicamente só completo dezoito anos no próximo mês.
Assim que piso na varanda de casa para pedir um Uber pelo celular novo — o qual Jeff aparentemente ainda não conseguiu o número — reconheço o cabelo vermelho-sangue da mulher parada lá fora.
Rita me encara de braços cruzados e a decepção em seu olhar me açoita como um chicote porque sabe o que vou fazer.